Escândalo no Supremo oferece armas a Lula e a Flávio, mas pesquisa Quaest mostra Augusto Cury avançando como alternativa ao desgaste dessa polarização
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O escândalo envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes encontrou uma eleição que já começava a mostrar sinais de inquietação. As revelações sobre relações, consultas e interesses ao redor do Banco Master atingem a credibilidade do Supremo Tribunal Federal e introduzem na campanha um assunto capaz de ser explorado por quase todos os candidatos.
A nova pesquisa Quaest ajuda a compreender o terreno sobre o qual essa crise caiu. Lula aparece com 37% e Flávio Bolsonaro com 29%. Os dois oscilaram negativamente desde 14 de agosto, quando tinham 38% e 31%, respectivamente. O maior movimento, porém, ocorreu abaixo deles. Augusto Cury saiu de 2% para 10%, enquanto Ronaldo Caiado caiu de 4% para 1%, Renan Santos passou de 4% para 3% e Romeu Zema recuou de 2% para 1%.
O levantamento ouviu os eleitores entre 30 de agosto e 1º de setembro. É, portanto, um retrato produzido antes que todas as revelações envolvendo Moraes alcançassem a dimensão política atual. Por isso é valioso para entender onde a crise do STF aterrissa. A Quaest ainda não mede os efeitos do escândalo, mas mostra que ele chegou num momento em que o eleitorado já procura uma saída da polarização.
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Um escândalo e vários beneficiários
O cientista político Adriano Oliveira, em entrevista ao programa Passando a Limpo, da Rádio Jornal, chamou a atenção para o fato de que o episódio pode beneficiar candidaturas distintas por razões até contraditórias.
Lula ganha porque a investigação envolvendo seu filho, Lulinha, perde espaço no noticiário. Além disso, até agora o presidente não apareceu diretamente nas revelações do caso Master. Isso lhe permite cobrar investigação sem precisar responder por uma ligação pessoal com o escândalo e ainda explorar as relações de Vorcaro com Flávio Bolsonaro, especialmente o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro.
Flávio, por sua vez, também se beneficia porque pode usar a crise para atacar a autoridade de quem participou diretamente da condenação e da prisão de seu pai. O desgaste de Moraes alimenta a narrativa bolsonarista de que Jair Bolsonaro teria sido vítima de perseguição e de um julgamento conduzido com uma finalidade previamente definida. Adriano compara esse movimento ao que aconteceu quando as revelações sobre Sergio Moro foram utilizadas para questionar a condenação de Lula na Lava Jato.
O mesmo caso oferece, assim, munição aos dois polos opostos. Lula pode associar Flávio a Vorcaro. Flávio pode associar Moraes a um sistema sem autoridade moral para condenar seu pai. Cada campanha escolherá a parte do escândalo que melhor se ajusta à sua narrativa. Mas os efeitos não param por aí. E o mais importante está fora dos polos.
O espaço ocupado por Augusto Cury
A pesquisa acrescenta um terceiro elemento a essa disputa. Augusto Cury alcançou 10% justamente quando a eleição começava a ganhar maior exposição. O crescimento de oito pontos não permite afirmar exatamente de onde vieram os novos eleitores, embora Flávio tenha caído dois pontos e Lula um ponto, mas comprova que surgiu uma candidatura capaz de ocupar um espaço que parecia reservado aos dois principais adversários.
Adriano lembra que Cury apareceu espontaneamente e de maneira positiva em pesquisas qualitativas realizadas em duas cidades do Nordeste, embora seu nome não tivesse sido incluído previamente na avaliação. Para o cientista político, isso sugere que há uma parcela do eleitorado cansada de Lula, do bolsonarismo e das sucessivas crises envolvendo as instituições.
O escândalo do STF pode reforçar esse sentimento. A percepção de que Executivo, Congresso, sistema financeiro e Judiciário estão ligados pelas mesmas relações de poder fortalece o discurso de que o sistema inteiro está contaminado. Cury tenta responder a esse cansaço com uma mensagem de paz, esperança e saúde mental. Renan Santos também se apresenta como candidato antissistema, mas utiliza uma linguagem mais radical e de confronto, o que pode ser visto pelo eleitor como contraditório. Algo como: “estou em guerra pelo fim da guerra”.
Cury teria melhores condições de aproveitar esse ambiente justamente por oferecer uma ruptura aparentemente mais serena. Ainda será preciso esperar as próximas pesquisas para saber se o sentimento se converterá em intenção de voto mais ampla. Por enquanto, o crescimento já registrado mostra que a insatisfação encontrou um nome no qual começar a se depositar.
O Supremo entra na campanha
A repercussão não ficará restrita à eleição presidencial. Os candidatos ao Senado terão de se posicionar porque cabe aos senadores analisar pedidos de impeachment contra ministros do Supremo. Quem já defendia essa pauta recebeu um argumento poderoso. Quem sempre sustentou a atuação do tribunal contra a tentativa de golpe precisará demonstrar que defender a instituição não significa conceder imunidade aos seus integrantes.
Mesmo candidatos de esquerda dificilmente poderão fugir da defesa de uma investigação. O papel propagado pelo STF na preservação da democracia não pode ser utilizado como justificativa para impedir a apuração de suspeitas envolvendo um ministro. Se as instituições existem para impor limites ao poder, esses limites também precisam alcançar quem fala em nome delas.
As próximas pesquisas indicarão se Lula conseguirá aproveitar a mudança de foco, se Flávio fortalecerá a narrativa contra Moraes ou se Augusto Cury converterá o desgaste geral das instituições em novos votos para ele.












