Rachel Cusk defende seu novo livro após polêmica com Natalie Portman

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Rachel Cusk defende seu novo livro após polêmica com Natalie Portman


Rachel Cusk está em um quarto banhado pelo sol em sua casa na costa oeste da França, falando sobre seu novo romance.

A autora não pretendia ter esta conversa sobre o livro “Life of M” (a vida de M, ainda sem previsão no Brasil), mas outras pessoas têm muito a dizer —sobre se “M” seria, na verdade, Natalie Portman e se, ao escrever sobre uma atriz que se parece tanto com uma celebridade real, ela teria cometido algum tipo de traição artística.

Agora, Cusk entrou em uma videochamada para se explicar, embora preferisse não ter que fazer isso. A escritora parece perplexa e um tanto aflita por se ver sob os duros holofotes da fama e em meio ao tipo de frenesi sensacionalista que ela mesma evoca no romance, cuja trama é sobre uma autora que escreve sobre uma atriz famosa.

“É muito estressante pensar que essas coisas estão acontecendo”, diz ela sobre o turbilhão de fofocas em torno do livro. “Isso está arrastando o romance que criei para uma espécie de tribunal ou disputa factual”, acrescentou.

“O que fiz pertence muito mais a um mundo em que a fama e essas pessoas tão conhecidas —e, ao mesmo tempo, tão desconhecidas—fazem parte da consciência contemporânea”, diz. “Se meu trabalho não é entrar em áreas inexploradas da consciência contemporânea, então não sei qual é.”

“Life of M” —que levanta questões incômodas sobre a natureza da fama e nossa cultura obcecada por celebridades e imagens— tem alimentado discussões e especulações há semanas, à medida que o livro se aproxima de seu lançamento, na próxima terça-feira.

Quando exemplares antecipados começaram a circular nos últimos meses, a semelhança da protagonista com Portman desencadeou uma enxurrada de rumores sobre se Cusk teria cometido o que alguns chamaram de “assassinato literário” de Portman, retratando-a como um recipiente vazio, sem uma identidade que vá além de seus papéis no cinema.

Cusk, autora de uma dúzia de romances, entre eles a aclamada trilogia “Esboço”, publicada no Brasil pela Todavia, é conhecida por escrever livros experimentais que diluem as fronteiras entre ficção e vida real.

“Life of M” leva esse projeto a um novo e delicado território. É autoficção? Uma forma perversa de fanfic? Ou seria simplesmente o mais recente experimento de Cusk, uma das escritoras mais provocadoras, esquivas e polarizadoras da atualidade?

Em conversa, a autora de 59 anos se mostrou afável e franca, mesmo quando se esquivava de perguntas com elegância e cortesia. Ela fala como escreve, com uma precisão rigorosa, às vezes enveredando por reflexões abstratas e filosóficas, como se tentasse decifrar o enigma da existência no meio de uma frase.

Por email e em uma videochamada, Cusk —que inicialmente recusara, por meio de sua editora, um pedido de entrevista, mas depois decidiu falar — parece determinada a manter uma aura de mistério em torno de “Life of M”.

Ela não quis comentar se conversou sobre o romance com Portman, atriz que já conheceu. Também não quis falar sobre as especulações de que Portman não gosta do livro, assim como acontece com M na história. Ela insiste que saber se M é baseada em uma celebridade real “não é exatamente a questão”.

“É uma obra de ficção, e acho que explicar como algo é criado —porque é sempre criado a partir de uma mistura completa de coisas reais, esquemas inventados e material pessoal—, quando se começa a puxar esse fio, tudo acaba se desfazendo.”

“O livro se explica e se defende de maneira bem completa”, continua ela, “e é algo que criei; então, começar a explicá-lo meio que estraga tudo para mim”.

Desde o início de “Life of M”, os leitores estão em terreno instável. A narradora é uma autora sem nome que planeja escrever um retrato minucioso de uma celebridade identificada como M. A princípio, M concorda, mas, quando lê o texto, diz à escritora que está insatisfeita com a forma como foi retratada. A escritora fica perplexa e diz a M: “A personagem foi inventada por mim”.

Há pouca dúvida de que M se parece com Portman. Os paralelos são bastante específicos e numerosos.

Assim como Portman, M começou a carreira como atriz mirim e, mais tarde, estrelou um filme sobre uma bailarina que sofre um colapso mental e outro sobre uma celebridade que sobreviveu a um tiroteio em uma escola.

M, como Portman, é o rosto de uma grande marca e aparece em anúncios adornados com flores. Embora a cidade onde M mora não seja mencionada, é claramente Paris, onde tanto Portman quanto Cusk vivem.

As duas já se encontraram, e Portman chamou Cusk de “uma de minhas escritoras favoritas”. Elas tiveram uma conversa amistosa e profunda em 2022 sobre o romance “Segunda Casa”, escolhido por Portman para seu clube do livro.

A admiração de Portman pela obra de Cusk alimentou um debate febril em torno de “Life of M”, provocando uma avalanche de comentários nas redes sociais e de artigos, citando fontes anônimas próximas a Portman, segundo as quais ela estaria descontente com o projeto. Surgiram manchetes alarmistas como: “O novo romance de Rachel Cusk é uma traição implacável a Natalie Portman?”

Os representantes de Portman não quiseram se manifestar nesta reportagem.

Cusk pareceu surpresa com o fato de alguém considerar o tema do romance escandaloso. Em sua visão, “pessoas famosas entram no imaginário público e, embora eu não goste dessa expressão, isso faz parte do pacto da fama e também de sua tragédia”.

Muitos filmes e romances já apresentaram figuras públicas, observou ela, muitas vezes sem provocar grande controvérsia.

Quando teve a ideia de “Life of M”, há pouco mais de dois anos, Cusk percebeu que escrever sobre uma atriz lhe permitiria explorar de uma nova forma os temas da identidade, do artifício e da autenticidade. “Não conseguia acreditar que nunca tivesse tido essa ideia antes”, diz.

Imaginar-se entrando na vida de uma pessoa famosa também pareceu uma espécie de fuga. “Talvez o livro tenha sido minha chegada a essa necessidade psicológica, um desejo de quase deixar de ser eu mesma por um tempo, de tirar férias de mim mesma, de ter algum outro lugar para onde ir”, afirma. “Era como perguntar: como seria poder se perder ou deixar a si mesma, e é isso que ser uma celebridade oferece?”

Usar uma pessoa famosa como personagem fictícia era, segundo Cusk, “uma espécie de jogo, e as regras do jogo determinam que tanto a atriz quanto a narradora são reais”.

Nascida no Canadá em 1967, filha de pais britânicos, Cusk cresceu em Los Angeles e na Grã-Bretanha, onde teve uma experiência infeliz em um internato católico e, mais tarde, estudou em Oxford.

Publicou seu primeiro romance, “Saving Agnes”, em 1993, e depois escreveu outras 11 ficções e três livros de memórias, que incluem seu relato sobre as provações e os sacrifícios da maternidade e um depoimento brutalmente honesto das trincheiras de seu divórcio.

Seus livros memorialísticos foram duramente criticados por alguns críticos literários, sobretudo na Inglaterra, onde ela foi julgada como uma mãe ruim para suas duas filhas e como uma narcisista que explorava friamente a vida das pessoas ao seu redor em busca de material.

Após o turbilhão desencadeado por “Aftermath”, suas memórias sobre o divórcio, Cusk disse ter se sentido paralisada e incapaz de escrever. Desiludiu-se consigo mesma como tema e decidiu encontrar uma nova forma de escrita que contornasse o problema da subjetividade e da identidade autoral.

Isso levou à trilogia “Esboço”, uma série de romances sobre uma escritora semelhante a Cusk que raramente expressa os próprios pensamentos ou sentimentos, funcionando principalmente como receptáculo para as histórias das pessoas que encontra.

A trilogia, publicada de 2014 a 2018 em inglês, consolidou a reputação de Cusk como uma das escritoras mais inovadoras e de estilo mais sofisticado em atividade.

Desde 2020, Cusk vive em Paris com seu terceiro marido, o pintor Siemon Scamell-Katz. Eles também passam temporadas em sua casa na região francesa de Charente-Maritime, para onde costumam se retirar a fim de trabalhar.

A escrita de Cusk tornou-se ainda mais abstrata e experimental em seus livros mais recentes, “Segunda Casa” e “Desfile”, que apresentam narradores quase invisíveis e personagens que não têm nomes além de iniciais.

É como se ela estivesse eliminando até mesmo os elementos mais rudimentares da narrativa. Com “Life of M”, Cusk levou quase ao limite a ideia de uma narradora opaca, cifrada. Quando começou a escrever, teve dificuldades por muito tempo com a estrutura da obra.

“O que achei realmente interessante foi a dificuldade de excluir de fato o conteúdo do eu, com todas as suas suposições, seus conhecimentos prévios, suas associações e percepções”, diz. “Era realmente necessário deixar que as superfícies falassem, por isso foi muito mais difícil de escrever.”

As reações dos críticos literários têm sido variadas. Uma resenha de Becca Rothfeld na revista The New Yorker classificou a obra como “o romance mais fraco de Cusk até hoje” e observou que “Cusk inventou um novo tipo de romance que quase não pode ser reconhecido como tal”.

Escrevendo na plataforma Slate, a crítica literária Laura Miller mostrou-se mais intrigada e descreveu o romance como uma “obra ardilosa”, que usa como isca a ideia de que talvez estejamos lendo sobre uma celebridade real.

Cusk, que não usa redes sociais, se manteve em grande parte distante do burburinho em torno de “Life of M”. Ela diz esperar que as perguntas e críticas percam força quando mais pessoas lerem o romance e perceberem o quanto ele é estranho e subversivo.

“Para mim, é um livro ousado, é um livro estranho, e não é um escândalo nem assunto para fofoca; é uma viagem estranha por territórios bastante legítimos, que dizem respeito ao público e ao privado”, afirma. “Gostaria que lhe permitissem ser a estranha criação que é. Não acho que esteja querendo causar problemas.”



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