Ao JC, pernambucana Cláudia Cacho diz que ascensão inédita ao generalato representa abertura de espaço para mulheres dentro das Forças Armadas
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A pernambucana Cláudia Lima Gusmão Cacho ainda lembra da primeira vez em que vestiu uma farda do Exército. Recém-chegada à corporação, em Goiânia, no ano de 1996, ela participou de uma formatura sem sequer saber direito como funcionava a rotina militar. Três décadas depois, retorna ao Recife carregando um marco inédito na história das Forças Armadas brasileiras: a primeira mulher a alcançar o posto de oficial-general do Exército Brasileiro.
“Passa um filme, né? Eu lembro exatamente do dia que eu cheguei lá. Primeira vez que a gente teve que participar de uma formatura sem saber de nada. E a gente vai aprendendo, são laços que a gente vai criando com a instituição”, afirmou a general, em entrevista ao JC durante passagem pelo Recife, nesta sexta-feira (15).
Promovida ao posto de general de brigada no último dia 1º de abril, em Brasília, Claudia Cacho participou nesta sexta-feira, no Comando Militar do Nordeste (CMNE), no Recife, da cerimônia de entrega da boina para novas soldados do Exército.
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O simbolismo da cena não passou despercebido pela militar pernambucana: pela primeira vez, o Exército passa a ter mulheres em todos os postos e graduações, ou, como ela mesma definiu, “de soldado a general”.
“Hoje, com a chegada das soldados este ano, o Exército tem mulheres em todos os postos e graduações, de soldado a general. Então, isso é muito interessante”, declarou.
O telefonema do Alto Comando
A ascensão da médica pediatra ao generalato encerra uma barreira histórica dentro da força terrestre, que até então nunca havia promovido uma mulher ao posto de oficial-general. Antes dela, apenas Marinha e Aeronáutica já haviam registrado mulheres no generalato.

Cláudia Lima Gusmão Cacho, primeira mulher a se tornar oficial-general do Exército Brasileiro, concedeu entrevista ao JC, no Comando Militar do Nordeste (CMNE), no Recife – Pedro Beija/JC
Ao relembrar o momento em que recebeu a notícia da promoção, Cláudia descreveu uma mistura de emoção, reconhecimento e surpresa. Segundo ela, a confirmação veio por meio de um telefonema do Alto Comando do Exército.
“A notícia chegou por um telefonema do Alto Comando, informando ‘chegou o seu momento, a sua hora, e você foi indicada para a promoção’. Na hora, você fica muito feliz, porque as promoções fazem parte da nossa carreira, mas a promoção ao generalato é um processo diferente. É uma escolha do Alto Comando do Exército”, contou.
“Você passa anos de preparação. Desde o ingresso, quando você ainda estava ali e não sabia nem como vestir a farda. Então, me senti muito feliz, muito honrada e muito grata pelo reconhecimento ao trabalho realizado”, acrescentou.
A general também ressaltou o caráter criterioso da promoção ao posto mais alto da carreira militar.
“Muitas pessoas chegam em condições de chegar ao generalato, muitas pessoas trilharam esse mesmo caminho. Então, nem todo mundo é promovido, porque não existe cargo para todo mundo”, afirmou.
“Outras poderão chegar”
Ao longo da entrevista, Cláudia evitou tratar sua promoção como um rompimento institucional ou como resultado de disputas internas por espaço. Pelo contrário. Em diversos momentos, reforçou a ideia de integração gradual das mulheres dentro das Forças Armadas.
“Não é uma alteração estrutural. É uma evolução natural. A força abriu espaço para as mulheres, integrou muito bem, mas sem perder a sua essência”, afirmou.
Apesar disso, reconhece o peso simbólico de ter se tornado a primeira mulher general do Exército.
“Com certeza outras pessoas talvez estejam vendo essa história e, quem sabe, se inspirando. Não tenho essa pretensão, mas é um sinal de que outras podem chegar”, declarou.
A militar também destacou que, atualmente, mulheres já ocupam funções em diferentes áreas operacionais do Exército, incluindo cursos tradicionalmente associados ao ambiente militar masculino.
“Elas fazem curso de paraquedismo, guerra na selva, curso de montanha, pilotagem. Hoje as mulheres estão na Academia Militar das Agulhas Negras, na área combatente. Então, a mulher hoje tem mais opções de ingresso e mais opções de área para atuar”, disse.
Segundo Claudia, a presença feminina já se espalha por diferentes áreas da força e alcança cargos de liderança e chefia.
“Hoje tem várias mulheres em cargos de chefia e liderança dentro da força. Isso é muito importante. E começou com as primeiras que quiseram entrar, que se identificaram com isso”, afirmou.

Pernambucana Cláudia Lima Gusmão Cacho se tornou a primeira mulher a ocupar cargo de oficial-general do Exército Brasileiro – Reprodução/Centro de Comunicação Social do Exército
Apesar do ineditismo da promoção, Claudia afirmou que nunca enxergou o ambiente militar como um espaço hostil à presença feminina. Segundo ela, desde que ingressou no Exército encontrou “um ambiente de muito respeito”.
“Muitas vezes me perguntaram: ‘poxa, mas é um ambiente masculino’. Mas eu sempre fui ouvida, tive condições de realizar meu trabalho e ocupar funções de chefia. Então, isso foi acontecendo de maneira natural”, relatou.
Mãe, médica, militar e esposa, Claudia também falou sobre os desafios de equilibrar diferentes dimensões da vida pessoal e profissional ao longo da carreira.
Para ela, a cobrança por desempenho sempre existiu, mas fazia parte mais de uma exigência individual do que de uma pressão institucional direcionada às mulheres.
“Eu sempre fui uma pessoa que me cobrei bastante. Mas quando você demonstra sua capacidade, trabalha tecnicamente bem, com disciplina e responsabilidade, isso vai acontecendo naturalmente”, declarou.
Ela também destacou o modelo de avaliações constantes existente dentro da carreira militar.
“Os militares são constantemente avaliados. Homens e mulheres. Conhecimento técnico, disciplina, lealdade, espírito de equipe, preparo físico. Isso faz parte da vida militar inteira”, explicou.
Liderança
A experiência acumulada em cargos de direção hospitalar aparece como um dos pilares de sua trajetória dentro do Exército. Antes da promoção, Claudia comandou hospitais militares em diferentes regiões do País e hoje dirige o Hospital Militar de Área de Brasília (HMAB).

No último dia 14 de abril, a General assumiu a Direção do Hospital Militar de Área de Brasília, em cerimônia realizada no Comando Militar do Planalto (CMP) – Cb Marcos/CCOMSEx
Segundo ela, liderar organizações militares de saúde exige conciliar diferentes áreas simultaneamente.
“Você lida com vidas. Então, além da assistência hospitalar, a gente precisa estar preparado para apoiar a tropa em qualquer situação. É uma função complexa, porque envolve área técnica, administrativa, logística e recursos humanos”, explicou.
A general também afirmou que a liderança é construída ao longo da carreira, em diferentes níveis de comando e convivência profissional.
“Seu subordinado, sua equipe, eles têm que te ver ali como líder, como aquela pessoa em quem podem confiar”, disse.
Para Claudia, a convivência em diferentes regiões do País ajudou a moldar sua forma de comandar.
“Você conhece culturas diferentes, modos de pensar diferentes. Isso te enriquece”, afirmou.
Retorno ao Recife como símbolo
Durante a passagem pela capital pernambucana, Claudia participou da cerimônia de entrega da boina para novas soldados incorporadas ao Exército neste ano. O momento marcou o encerramento do período básico de formação das militares.
“Hoje elas estão recebendo a boina. É um momento muito importante. Agora elas vão para as organizações militares e terão oportunidade de se qualificar”, explicou.
A general também destacou iniciativas de capacitação profissional oferecidas pelo Exército, como o Projeto Soldado Cidadão, voltado à formação para o mercado de trabalho.
“O Exército tem parceria com instituições que promovem essa capacitação. Isso é uma entrega para a sociedade”, afirmou.

Cláudia Lima Gusmão Cacho, primeira mulher a se tornar oficial-general do Exército Brasileiro, em entrevista ao JC – Pedro Beija/JC
Recifense, Claudia disse ter recebido com emoção o convite para participar da solenidade justamente em sua cidade natal.
“Eu me sinto muito honrada de ter sido convidada para estar aqui. E agora, aqui no Recife, que é a minha cidade, para mim é uma honra”, declarou.
Ao final da entrevista, Cláudia voltou a falar sobre memória, pertencimento e trajetória. Disse que, apesar dos quase 30 anos de carreira, a sensação é de que tudo aconteceu muito rápido.
“São laços muito fortes. Você vê, poxa, são 30 anos, mas parece que foi ontem”, afirmou.
“Faria tudo de novo”, concluiu.
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