Djamila Ribeiro: Ascensão de atletas negros e mulheres não elimina subordinação à estrutura

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Djamila Ribeiro: Ascensão de atletas negros e mulheres não elimina subordinação à estrutura


Lembro-me de ter lido, em 2006, a reportagem desta Folha sobre o livro “Forty Million Dollar Slaves” —escravos de US$ 40 milhões—, do sociólogo, ex-jogador de basquete e comentarista americano William C. Rhoden. Na obra, ele analisa a condição dos jogadores negros no esporte do seu país, em especial no basquete.

Era raro encontrar, naquela época, uma abordagem como aquela na imprensa. Eu, que era secretária em uma empresa no porto de Santos, havia trancado a faculdade de jornalismo e sonhava em voltar à universidade, tomei aquela leitura como inspiradora.

A reportagem de Guilherme Roseguini apresentava a tese central de Rhoden. Observando o esporte profissional americano, o sociólogo argumentava que este havia aperfeiçoado a lógica da “plantation”: os atletas negros eram celebrados dentro das quatro linhas, enquanto cargos de técnicos, dirigentes, proprietários de clubes e formuladores das políticas esportivas permaneciam —e ainda permanecem— sob controle branco. Mudava a remuneração, mas não a lógica senhorial.

Se as diferenças entre o esporte profissional americano e o brasileiro são enormes em aspectos como poder econômico, infraestrutura e publicidade, a distribuição racial do poder permanece semelhante.

Também por aqui o horizonte dos atletas negros costuma terminar quando acaba a carreira esportiva. No futebol brasileiro, como aponta Donald Verônico em sua tese de doutoramento, as funções intelectuais de coordenação técnica, direção esportiva e cartolagem continuam reservadas, em medida quase absoluta, a profissionais brancos, enquanto aos negros cabe jogar, entreter e, ao final da carreira, desaparecer dos espaços de decisão.

Na imprensa, a função de comentarista para jogadores aposentados seria uma exceção? Se sim, Paulo Cézar Caju me vem à cabeça como a mais emblemática delas. Tricampeão mundial e “chevalier” orgulhoso de sua negritude, tornou-se comentarista, polemista e uma das poucas vozes negras capazes de tensionar consensos no futebol brasileiro.

Mais recentemente, ex-atletas como Denílson e Grafite e o atleta Richarlison passaram a ocupar espaço na imprensa detentora dos direitos de transmissão. Mas quem são os diretores dos canais? Quem são os donos das empresas?

Ainda que se reconheça uma mudança na representação masculina negra da imprensa, de outro lado, ainda é cedo para dizer que há uma mudança no conteúdo das opiniões. Como observa o professor Adilson Moreira, o racismo recreativo mobiliza o comentarista como fiador de piadas de hostilidade racial e de análises depreciativas dirigidas à negritude.

É uma das estratégias que permitem às emissoras reproduzir o racismo sem parecerem racistas. Guardadas as diferenças, podemos refletir nesse sentido em relação ao sexismo recreativo e à forma como mulheres são retratadas numa sociedade machista.

Vale dizer, Rhoden traz a reflexão de que a ascensão econômica dos atletas negros não elimina as relações de subordinação intelectual e política à estrutura branca. Vinte anos depois, sua hipótese pode ser ampliada.

A partir da tradição do feminismo negro, compreendemos que essa estrutura não é apenas branca; é também patriarcal. Isso significa que a lógica descrita por Rhoden transcende a distribuição racial do poder no esporte e alcança a distribuição entre homens e mulheres.

Essa diferença complexifica a análise. Se atletas negros encontram enormes obstáculos para ocupar espaços de direção, comando e formulação, as mulheres esportistas partem de uma posição ainda mais desigual.

Exceção feita ao tênis, recebem remunerações muito inferiores, mesmo em clubes e divisões de elite, em uma desigualdade salarial profunda, naturalizada e ainda insuficientemente enfrentada.

Se os atletas do esporte de alto rendimento —sobretudo os negros— poderiam ser descritos por Rhoden como “escravos de US$ 40 milhões”, apenas um número ínfimo de mulheres alcançará, ao longo de toda a carreira, uma fração desse valor. Mulheres negras, por sua vez, permanecem ainda mais apartadas de oportunidades que já são escassas para todo o grupo.

Depois de aposentadas, os obstáculos seguem. Se temos um técnico de futebol na seleção feminina, é impensável imaginar uma mulher treinadora da seleção masculina, assim como nos times das divisões de elite.

Nas federações, as dirigentes são raridades ao longo da história, e não me recordo de alguma que tenha sido ex-jogadora. E por que será? Será que mulheres não entendem mesmo de futebol, ou será que a lógica de descarte descrita por Rhoden é ainda mais impiedosa quando se trata delas?

Diante dessa realidade, na próxima coluna seguiremos no tema para pensar políticas de Estado para o esporte brasileiro. Até!


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