André Janones anunciou no X que está de volta à linha de frente da campanha de Lula. Disse ter “aceitado a missão”, publicou uma foto com o presidente e prometeu seguir a estratégia que, segundo ele, a esquerda precisa adotar para enfrentar a direita: abandonar a “campanha fofa” e entrar na guerra digital “sem medo, sem pudor e sem remorso”.
Tudo isso, porém, compõe até agora um roteiro apresentado pelo próprio Janones nas redes. A campanha de Lula não confirmou publicamente que o deputado tenha sido incorporado à sua estratégia eleitoral.
O roteiro vem sendo escrito há semanas. Primeiro, Janones anunciou que a meta deveria ser o “extermínio completo do bolsonarismo” e declarou-se pronto para “matar ou morrer”. Depois, acusou seu campo de “treinar fofo”, enquanto os bolsonaristas já estariam dominando as narrativas e o engajamento.
Em seguida vieram a fotografia, o anúncio da suposta missão e a declaração de guerra. Finalmente, convocou a militância a abandonar a “esquerda limpinha” e escolher suas armas, prometendo “tiro, porrada e bomba nas redes, 24 horas por dia”.
Colunas
Receba no seu email uma seleção de colunas da Folha
Pode ser apenas Janones reivindicando para si um lugar que a campanha de Lula não lhe concedeu. De toda forma, é interessante como ele revela uma concepção bastante precisa de comunicação eleitoral que é compartilhada por parte considerável da militância: não se pode ter nojo de sujar as mãos e lutar na lama, se necessário.
Campanhas eleitorais sempre combinam estilos de comunicação. Há a campanha oficial, submetida à legislação, às pesquisas, às alianças e ao cálculo reputacional do candidato. E há partidos, parlamentares, influenciadores, militantes e redes de apoio que atuam com graus de coordenação e autonomia. Alguns podem assumir as tarefas que o núcleo oficial não quer incorporar à sua voz.
É esse lugar que Janones reivindica. “Um governo tem limitações que nós não temos aqui pelas redes”, escreveu ao absolver Lula, o governo e a Secom daquilo que considera a incompetência digital da esquerda. A proposta é uma divisão do trabalho: enquanto a campanha oficial preserva o candidato, outros provocam, ridicularizam, alarmam, atacam reputações e brigam por atenção nas plataformas.
Não é invenção sua. Figuras muito diferentes da direita digital, como Carlos Bolsonaro e Pablo Marçal, também operam num repertório em que conflito, choque, linguagem direta, quebra de liturgias e provocação têm valor estratégico. Janones adota parte dessa gramática, mas acrescenta uma justificativa: não se entra no esgoto porque seja bom, mas porque o adversário já está lá. Recusar suas armas seria aceitar lutar em desvantagem.
Daí o desprezo pela “campanha fofa”, pela “esquerda limpinha”, pelos “cirandeiros” e “arrogantes de salto alto”. O alvo interno é quem supostamente confunde escrúpulo e correção de linguagem com eficácia eleitoral. O janonismo cultural reaparece, assim, como uma doutrina de espelhamento: se a extrema direita prosperou com agressividade, transgressão e guerra permanente por atenção e impacto, a esquerda deveria fazer o mesmo.
Há, contudo, bons motivos para se ter cautela com esta doutrina. O primeiro tem a ver com prudência política. Quem escolhe a destruição reputacional e a guerrilha de narrativas como armas deve contar com a reciprocidade do inimigo. Janones deveria saber que quem tem telhado de vidro não está especialmente protegido em uma guerra de pedras e que, com dois escândalos políticos suspensos como lâminas sobre o pescoço dos candidatos este ano, talvez não seja sábio esticar demais a corda.
O segundo é elementar: eleição não é guerra. Ninguém precisa matar nem morrer. Uma campanha existe para convencer pessoas, inclusive algumas que votaram no adversário. A retórica da aniquilação pode excitar militantes, mas não é evidente que seja o melhor idioma para persuadir quem ainda pode mudar de lado.
Finalmente, “livrar o país” de um campo político é uma fantasia de militantes radicais. Eleições derrotam candidatos; não exterminam os milhões de cidadãos que votam neles. O bolsonarismo mostra o quanto a promessa de eliminar o inimigo mobiliza os fiéis e, ao mesmo tempo, reduz a política a uma batalha moral sem fim.
A esquerda pode aprender com a direita digital sobre velocidade, presença nas redes e capacidade de resposta. Não precisa aprender que política é guerra nem que adversários existem para ser exterminados. Uma campanha pode até precisar entrar na lama de vez em quando. O erro é imaginar que é no lodo que estão os eleitores que faltam para vencer.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.














