Há dias recebi uma notícia que veio despertar recordações de minhas leituras de juventude. No antigo engenho Pau D’Arco, no município de Sapé, na Paraíba, a árvore da infância do poeta Augusto dos Anjos (1884-1914) —o famoso tamarindo cantado nos seus versos— está agonizando e luta para não morrer.
Eu cresci lendo os poemas melancólicos do livro “Eu & Outras Poesias”. Ainda guardo a velha edição de 1982, muito bem amparada pelo belíssimo ensaio do filólogo Antônio Houaiss, que situa a produção augustina dentro da “genealogia criadora do poeta” paraibano e da literatura brasileira.
Ainda sou fã ardoroso de “Versos Íntimos” (“Vês! Ninguém assistiu ao formidável/ enterro de tua última quimera”); “Monólogo de uma Sombra” (“Sou uma sombra! Venho de outras eras/ do cosmopolitismo das moneras”); “A um Mascarado” (“Rasga essa máscara ótima de seda”); “Poema Negro” (“Para iludir minha desgraça, estudo/ Intimamente sei que não me iludo”), e meu favorito, “Debaixo do Tamarindo” (“No tempo de meu pai, sob estes galhos”), entre outros, tão clássicos e enciclopédicos.
Na casa de minha mãe também tinha um pé de tamarindo. Ficava no fundo do quintal, onde provavelmente já existia antes da construção da casa ou de nossa mudança, no início da década de 1970.
Sempre me identifiquei com aquela árvore que nos dava sombra e frutos. Por isso, ao entrar no ensino médio, a leitura da poesia de Augusto causou-me logo um impacto imediato —aqueles versos traduziam, com precisão, a mesma atmosfera que eu experimentava na meninice, sentado sob aqueles galhos, como se intuísse a parada de “todos os relógios/ de minha vida”.
Sabemos que tudo na vida cumpre seus ciclos biológicos. Quando penso no velho tamarindo do engenho Pau D’Arco, hoje tricentenário, que pode estar se despedindo deste mundo, recordo da poesia que o fez ser imortal e o trouxe ao século 21.
Em 2024, visitei este antigo engenho e conheci de perto a famosa árvore que tanto marcou a infância de Augusto dos Anjos. Próximo a ela, senti a sombra do poeta pairando ao redor do seu tronco centenário.
O seu estado já não era o de uma árvore sadia e frondosa. No chão, ao redor de suas raízes, vi frutos ressequidos e folhas pouco esverdeadas. Provavelmente não era a mesma grande planta de “amplos agasalhos”, do tempo do menino Augusto, que guardava “o passado da flora brasileira” e a “paleontologia dos carvalhos”. Talvez o poeta hoje chorasse pelo seu fim, como fez “com a canseira” de seus “inexorabilíssimos trabalhos”.
Quando recebi a notícia da morte próxima do tamarindo, corri a reler os versos do poeta. Augusto dos Anjos era vigoroso, moderno e sensível. Sua pequena produção literária impactou desde o primeiro instante que surgiu, pelo arrojo linguístico e pela novidade enciclopédica tanto nos versos longos, quanto nos sonetos de impecável construção gramatical.
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Augusto dos Anjos não construiu apenas um novo estilo de versejar; transformou o fazer poético e atravessou, com perfeição, as fronteiras do parnasianismo, naturalismo e simbolismo. Bebeu dessas fontes e usou, através dos seus versos sombrios, a decomposição humana como metáfora da decadência do Brasil colonial, nos legando uma poesia de genuína expressão popular brasileira.
Ao ver agonizar na Paraíba o tamarindo de sua juventude, nos perguntamos —até quando vamos relegar a segundo plano a dor e a memória do país? O poeta Augusto dos Anjos merece respeito.
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