Ruy Castro estreou no jornalismo escrevendo sobre música. Em maio de 1967, publicou seu primeiro artigo assinado no jornal Correio da Manhã, um texto sobre os 30 anos da morte de Noel Rosa.
Desde então, escreveu livros fundamentais sobre Carmen Miranda (“Carmen: Uma Biografia”), a bossa nova (“Chega de Saudade”), o samba-canção (“A Noite do Meu Bem”) e Tom Jobim (“O Ouvidor do Brasil”). As seis décadas de pesquisas resultaram em “Eu Gosto de Música”, livro que reúne 97 colunas publicadas de 2007 a 2025 na Folha e divididas em quatro tópicos: samba, carnaval, bossa nova e jazz.
Um primor de concisão e rigor jornalístico, “Eu Gosto de Música” provoca no leitor uma verdadeira compulsão: a de procurar ouvir todas as músicas e pesquisar a carreira de todos os artistas citados por Castro nas colunas.
Um texto como “À Porta da Boate”, por exemplo, começa falando de Jorge Ben e passeia pelas histórias de dois artistas hoje pouco lembrados, Orlandivo e Miltinho. No caminho, cita o produtor Armando Pittigliani, o músico J.T. Meirelles e o Beco das Garrafas. Tudo isso em cinco parágrafos.
“Os textos de que se compõe ‘Eu Gosto de Música’ têm cerca de 2.000 caracteres cada. Já minha biografia de Carmen Miranda precisou de quase 2 milhões”, diz Castro.
“É a diferença entre um lenço ensopado e o oceano Atlântico. Mas, desde que comecei a trabalhar com livros, me dei conta de que ambos os formatos, coluna e livro, exigem o mesmo rigor na escolha das palavras, a mesma economia, a mesma precisão. Não é por você ter um latifúndio de espaço num livro que pode se esbaldar. A diferença é que, no livro, você pode tratar de mais assuntos ou com mais profundidade”.
Em “Carnaval Bom É o de Todos os Tempos”, o autor conta a história do Carnaval carioca desde 1600 (“Começa o entrudo, com os foliões atirando baldes de água com limão uns nos outros na atual rua Primeiro de Março”) até os anos 2000. A coluna “Mais que MPB” revela a origem da sigla, “criada pela imprensa, por volta de 1965”. São textos curtos e fascinantes.
Outras colunas relatam histórias e momentos vividos pelo próprio autor com personagens como Zé Keti, cujas noites de paixão com a namorada impediam o sono dos vizinhos —no caso, o próprio autor—, a um comovente encontro com Pixinguinha, João da Baiana, Braguinha, Donga e outros luminares da música brasileira.
Alguns textos falam de personagens muito admirados pelo autor, como Hermínio Bello de Carvalho, Moacyr Luz e Roberto Menescal, enquanto outros citam artistas hoje pouco lembrados.
“O rádio e a televisão não dão bola para os artistas do passado, mas, naquele passado, eles foram famosos e gravaram centenas de fonogramas que estão hoje em CD e, principalmente, na internet”, diz Castro.
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“Nunca foi tão fácil acessá-los como agora. É só entrar no YouTube, escrever seus nomes e a música que se procura. Em um segundo, ela nos chega aos ouvidos. Se alguém se interessar em checar o que falei de Miltinho ou Orlandivo, pode fazer isso imediatamente. Nunca estivemos tão próximos do passado.”
Hoje, Ruy Castro é uma influência para qualquer um que escreva sobre música no Brasil, mas ele também foi influenciado por jornalistas e pesquisadores que o precederam.
“A primeira influência foi de José Lino Grünewald, articulista do Correio. Em 1964, quando eu ainda só sonhava em trabalhar lá, ele fez uma série de 40 ou mais perfis dos grandes nomes da música brasileira, combinando informações sobre a vida deles com a importância histórica. Aprendi ali que nenhum artista pode ser dissociado do elemento humano. Confirmei isso ao descobrir os perfis de jazzistas e cantores americanos por Whitney Balliett na revista The New Yorker. Com a vantagem de que ninguém podia escrever melhor do que Whitney Balliett”.
“Eu Gosto de Música” não é apenas uma coletânea de textos já publicados, mas um livro que demandou um extenso trabalho de edição e reescrita. “Uma coluna de jornal precisa de gancho para ser escrita, como algo que aconteceu ou vai acontecer por aqueles dias. Transposta para livro, é preciso enxugá-la dessas referências de tempo”, diz o autor.
“Outra coisa: no jornal, o leitor lê a coluna de manhã, sai para trabalhar, almoça fora, conversa com os amigos, fica na rua o dia inteiro e volta à noite para dormir ou não volta. No dia seguinte lerá outra coluna, mas passou-se um dia inteiro entre uma coluna e outra. No livro, não – elas vêm seguidas, você termina uma coluna, vira uma página e lá vem outra.”
Daí a importância, diz o escritor, de encaixá-las numa sequência que as torne atraentes e surpreendentes, com “alternância de estilo, de ângulo ou até de assunto”.
“O autor tem que ganhar o leitor a cada texto, e a maneira de fazer isso é tentar prendê-lo logo nas primeiras linhas. Aprendi a lidar com essa sequência nas revistas em que trabalhei ou já dirigi e espero ter conseguido isso em ‘Eu Gosto de Música’.”












