Opinião – Sons da Perifa: Hariel leva funk ao sinfônico enquanto gênero vive o seu auge global

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Opinião – Sons da Perifa: Hariel leva funk ao sinfônico enquanto gênero vive o seu auge global


Relatórios de streaming costumam dar aos gêneros musicais uma aparência de planilha. Não raro, também escondem a rua que existe por trás do número. Daí a importância de olhar para o dado mais recente do Spotify sem esquecer de onde vem o som que ele tenta medir: no ano passado, o funk brasileiro foi o gênero que mais cresceu globalmente entre os estilos que geraram mais de US$ 50 milhões em royalties na plataforma, com alta de 36% no ano.

O dado ajuda a dimensionar o momento em que MC Hariel se prepara para levar o funk paulista à primeira edição brasileira do Red Bull Symphonic.

O número confirma o que bailes, fluxos e quebradas já sabiam antes dos dashboards. O funk deixou de ser apenas uma força local para se tornar uma das linguagens musicais mais expansivas do mundo. No mesmo levantamento, artistas brasileiros geraram aproximadamente R$ 2 bilhões em royalties no Spotify em 2025, crescimento de 24% em relação ao ano anterior.

É nesse ponto da história que Hariel chega ao Auditório Simón Bolívar, em São Paulo, no dia 8 de agosto. O artista protagoniza a primeira edição brasileira do Red Bull Symphonic, projeto que une o funk paulista à música sinfônica, com direção musical de Nave Beatz e regência de Marcos Levy, mais conhecido como Xuxa.

A proposta, porém, não parece ser apenas levar o funk para a orquestra. Isso seria pouco. O gesto mais interessante está no caminho inverso: fazer a orquestra encarar o fluxo. Hariel revisita músicas de sua carreira e referências que formaram sua trajetória, da Baixada Santista à Zona Norte de São Paulo, em um espetáculo que olha para trás sem se tornar peça obsoleta. Ele vai ao passado dar sentido ao futuro.

“Um projeto como esse mostra que o funk pode estar em qualquer lugar sem perder sua essência e identidade”, diz Hariel. A frase é menos sobre legitimação e mais sobre permanência. O funk nunca precisou abandonar o baile para caber em outros espaços. Os espaços é que demoraram a entender que o baile também tem arquitetura, memória, arranjo e catarse.

Xuxa chama essa mistura de “orquestra de fluxo”. Segundo ele, a ideia é criar uma experiência em que “a música sinfônica se mistura ao funk paulista, se tornando uma coisa só”. O termo funciona porque não tenta maquiar o encontro. Fluxo, no funk, é mais do que aglomeração. É circulação de som, corpo, território, dinheiro, desejo e memória. Ao juntar violinos, metais, contrabaixos, beats e DJ, o projeto cria uma espécie de partitura do corre.

Há ainda uma camada de época. O nostálgico tomou conta da música. Dados da Luminate mostram que, nos Estados Unidos, apenas 43% dos streams de áudio sob demanda em 2025 vieram de faixas lançadas nos últimos cinco anos. O passado, portanto, voltou a disputar o presente —não apenas como lembrança, mas como ativo central da indústria.

No funk, porém, nostalgia não é naftalina. É matéria-prima. Hariel não revisita suas origens para congelá-las, mas para atualizá-las. O passado entra como beat, não como freio. A memória aparece como método. E o futuro, nesse caso, não chega limpo, neutro ou domesticado. Chega com grave, corda, metal, tamborzão e a certeza de que o funk pode ocupar qualquer lugar sem pedir desculpa pelo caminho que fez até ali.

O Red Bull Symphonic com MC Hariel aponta para essa virada: o funk sai do fluxo para a orquestra, mas leva o fluxo junto. Não se trata de vestir o funk de erudito, mas de reconhecer que a periferia brasileira já vinha compondo sinfonias muito antes de o mundo aprender a chamar isso de crescimento global.


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