Uma tesoura e uma pinça enferrujadas, enterradas havia cerca de 600 anos, guardavam uma pista invisível sobre o controle da dor na China imperial. Resíduos encontrados nos instrumentos indicam o provável uso de acônito, planta extremamente tóxica que teria sido aplicada sobre a pele como anestésico durante pequenas cirurgias da dinastia Ming.
Onde os instrumentos cirúrgicos foram encontrados?
As ferramentas foram descobertas em 1974 no túmulo de Xia Quan, em Jiangyin, na atual província chinesa de Jiangsu. Como o homem viveu entre 1348 e 1411, os objetos foram associados ao início da dinastia Ming. O conjunto incluía uma tesoura e uma pinça com formatos compatíveis com intervenções médicas realizadas naquele período.
Publicada em 2026 na revista científica Antiquity, a pesquisa liderada por Xue Ling analisou partículas preservadas em áreas difíceis de limpar, como a parte sobreposta das lâminas e da pinça. A posição dos resíduos chamou atenção porque correspondia justamente aos pontos que poderiam entrar em contato com medicamentos durante um procedimento.

Como a análise revelou o possível anestésico?
Primeiro, os pesquisadores utilizaram fluorescência de raios X, técnica não destrutiva que confirmou que os instrumentos eram compostos principalmente por ferro. Depois, três minúsculas amostras de resíduo avermelhado foram examinadas por espalhamento Raman estimulado, método que emprega luz laser para identificar estruturas moleculares.
A equipe detectou grupos químicos compatíveis com compostos orgânicos e com uma substância do tipo aconitina. Segundo o estudo, o conjunto dos sinais oferece evidência química direta da presença de um derivado de Aconitum. Os autores interpretam o material como provável vestígio medicinal, e não apenas como sangue, tecido degradado ou corrosão comum.
Por que o acônito era usado apesar do perigo?
Plantas do gênero Aconitum, conhecidas como acônito ou mata-lobos, contêm alcaloides altamente tóxicos, incluindo a aconitina. Essas substâncias afetam canais de sódio das células e podem causar intoxicações graves. Ao mesmo tempo, preparações de acônito aparecem há séculos na medicina asiática por seus efeitos analgésicos.
Textos médicos da dinastia Ming descrevem fórmulas e procedimentos destinados a reduzir a toxicidade da planta. Entre as substâncias citadas nessas preparações estavam:
Como o anestésico teria sido aplicado?
Os pesquisadores sugerem que o medicamento estava em forma líquida e era aplicado diretamente na região que seria operada. A pinça poderia segurar a pele enquanto a tesoura removia uma camada superficial ou tecido lesionado. Pequenos respingos teriam alcançado partes escondidas dos instrumentos, resistido à limpeza e contribuído para a corrosão.
Congcang Zhao, coautor do estudo e arqueólogo da Universidade do Noroeste, afirmou que os vestígios mostram uma tentativa prática de equilibrar a potência do medicamento com a segurança do paciente. A aplicação tópica, as fórmulas compostas e o controle do procedimento reduziriam a exposição do organismo a uma substância perigosa.
A descoberta muda a história da anestesia?
Segundo os autores, esta pode ser a evidência química direta mais antiga de um anestésico preservado em instrumentos cirúrgicos. A conclusão combina resíduos moleculares, localização das partículas e prescrições registradas em textos da época. Ainda assim, a análise identifica um composto provável e não permite reconstruir com certeza sua concentração ou eficácia.
A descoberta revela que reduzir a dor já era uma preocupação técnica muito antes da anestesia moderna. Preservar instrumentos, tumbas e documentos médicos é essencial para ampliar essa história. Vestígios microscópicos ainda podem mostrar como sociedades antigas enfrentavam cirurgias e transformavam substâncias perigosas em recursos terapêuticos cuidadosamente controlados.














