Isso é futebol e ciência náutica. Teseu matou o minotauro e depois fugiu para a ilha de Delos num navio. Para celebrar a façanha, os gregos levavam todos os anos o navio de Teseu de Atenas a Delos.
Com tanta viagem, o navio começou a precisar de manutenção. Primeiro substituíram as velas. Noutro ano, mudaram as tábuas do convés. Depois, colocaram remos novos.
Nisto, os filósofos perguntaram: se formos substituindo cada parte do navio, no final desse processo ainda poderemos dizer que este é o navio de Teseu? Os filósofos são chatos. Mas levantam uma questão importante.
O escrete é o navio de Teseu. Nenhum dos jogadores que o compõem esteve nos títulos anteriores. Já mudou tudo: jogadores, dirigentes, a marca do uniforme da seleção. Mas continua a ser o Brasil. Isso é ótimo e terrível.
Ótimo, porque aqueles jogadores carregam uma herança gloriosa; terrível, porque aqueles jogadores carregam uma herança gloriosa.
O povo brasileiro exige que Danilo seja Danilo, e que seja ainda Djalma Santos, Carlos Alberto e Cafu. Vinicius tem de ser Vinicius e tem de ser tanta gente mais que é um milagre que consiga correr. Como principal figura da equipe, cabe a ele ser Pelé, Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho, Kaká. Esse é o problema.
De Haaland pede-se apenas que seja Haaland. Nenhum norueguês faz questão que ele carregue a herança de todos os que vestiram aquela camisa antes dele, e que aliás possuíam nomes com aqueles bem inestéticos ø.
Posto isto, quem é o mais forte, hoje? O pentacampeão Brasil, suportando o peso de ser pentacampeão, ou a levezinha Noruega, feliz por já ter igualado a sua melhor classificação de sempre?
Quando assistimos a uma batalha, costumamos torcer pelo mais fraco. Quem é esse, hoje? Haaland ou Vini Jr.? Um mede 20 centímetros a mais que o outro, e deve pesar mais 30 quilos. Um é franzino e tem ar de moleque, o outro parece um Volvo.
Mas é Haaland o mais forte, comandando a seleção de um país que tem menos habitantes que a cidade de São Paulo? E Vini é o mais fraco, liderando a maior potência futebolística da história do torneio? Um gigante nórdico impressiona, mas não há ninguém mais fraco —e, por isso, mais forte— que um malandro tropical.
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