Opinião – Plástico: Artista encarna lutador em performance que reflete a violência da ‘machosfera’

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Opinião – Plástico: Artista encarna lutador em performance que reflete a violência da ‘machosfera’


Um abraço tão violento que pode asfixiar, o amor que se expressa pelo prisma da mais brutal violência, está no centro do ringue. Uma performance do artista Gian Gigi Spina que acontece nesta semana no Rio de Janeiro leva para o centro do ringue de jiu-jitsu um corpo a corpo ambivalente, a vontade tóxica de estar juntos, dolorosa e aflitiva a ponto de querer esmurrar quem está perto de nós, e também beijar, lamber, atravessar.

Spina, que conta ter buscado na luta a saída para um caso de depressão profunda e o que parecia uma sensação incontornável de solidão, encena o tesão por meio da guerra.

Ele diz que machuca, por isso talvez não se possa falar em tesão, mas há contradições no discurso. A adrenalina do combate corpo a corpo, ou corpo colado com corpo, como exigem os movimentos dessa luta, embaçam os limites entre dor e prazer, vida e morte. É nessa visão entre extremos que se ancora uma encenação presa entre dentes, ou melhor, nos protetores bucais que levam as inscrições que dão nome à ação, uma tal “distância entre nós”, tão mínima que se torna um abismo paradoxal. Dente com dente, pele com pele, poro com poro, e um oceano de fúria que se agita entre corpos trêmulos.

Spina leva à superfície da própria carne uma inquietação que antes sobrevoava os conflitos do mundo. Suas fotografias, vídeos e relatos escritos já se debruçaram sobre a carnificina em curso no Oriente Médio, sejam eles vistos na Palestina, por onde viajou, ou na distância insegura do Líbano, do Egito e dos Emirados Árabes Unidos, países onde viveu nos últimos tempos como testemunha errante do horror, o mundo em chamas sentido na pele que roça a do outro, tão adversário quando amante improvável, sobre o tatame.

Sua mais nova performance, agora no espaço cultural Comadre, na capital fluminense, aproxima as escalas. Seu último trabalho, uma parceria com Diego Crux mostrada no 25M, espaço da galeria Metrópole, no centro de São Paulo, relembrava o assassinato brutal do imigrante congolês Moïse Kabagambe no quiosque Tropicália, na Barra da Tijuca. A violência está tão na ordem do dia que agora surge entranhada na pele do artista, um passo a passo para a aniquilação do outro, um ritual às avessas.

No novo trabalho, Spina enfrenta outro lutador, mas os golpes vão ser pausados, movimento a movimento, numa coreografia da violência em que o contato entre os corpos ganha os contornos de uma posição amorosa, pele com pele, poro com poro.

Das guerras em curso à “machosfera” de “incels” e “red pills”, um circo se desenha na luta que termina com luzes apagadas e o respiro ofegante dos combatentes.

PINTO PODE Um outdoor com uma imagem de um grande pênis acaba de ser instalado na fachada da galeria Martins&Montero, em São Paulo. A obra antes censurada do artista Hudinilson Júnior, um dos grandes nomes da performance do país, que chegou a circular com um carimbo do próprio autor que dizia “pinto não pode”, agora adorna a entrada da casa paulistana.

MEA CULPA, VOLVER Um artigo no New York Times escrito por Marc Spiegler, ex-todo-poderoso à frente do conglomerado de feiras Art Basel, incendiou o mercado nesses últimos dias do evento suíço. Diante da quebradeira de galerias antes no topo da cadeia mundial, ele diz que é impossível viver de “hype”, obras de arte não têm liquidez como ativos financeiros e o atual modelo de negócios está fadado ao fracasso.

CARNE FRESCA A galeria Almeida & Dale anuncia em breve a representação do argentino Guillermo Kuitca.


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