Escrevo aqui não apenas como diretor criativo da Misci, mas como alguém que dedica a própria vida à construção de uma imagem mais madura, sofisticada e respeitosa para a moda brasileira.
Recebi com surpresa o artigo de opinião assinado pela jornalista Renata Brosina, na Folha, que, de maneira superficial e irresponsável, sugere referências e aproximações entre a moda nacional e a estrangeira sem o devido aprofundamento técnico, histórico e artesanal. Mais do que um ataque a uma coleção específica, esse tipo de abordagem enfraquece uma indústria inteira que já enfrenta inúmeros obstáculos estruturais para existir.
Gostaria de esclarecer especialmente a questão envolvendo os crochês desenvolvidos em linha de pesca. O trabalho citado é produzido por Ana Vaz, artesã e proprietária de um ateliê com quase 30 anos de atuação, pesquisa e desenvolvimento dentro dessa técnica. Ana Vaz foi uma das pioneiras na introdução e desenvolvimento desse trabalho no Brasil, colaborando historicamente com marcas como Maria Bonita e com o designer Ronaldo Fraga muito antes da atual direção criativa de Matthieu Blazy na Bottega Veneta.
Reduzir esse processo autoral e brasileiro a uma suposta inspiração recente internacional é apagar décadas de trabalho manual, pesquisa material e conhecimento local. É desconsiderar a história da própria moda brasileira e de profissionais que vêm desenvolvendo linguagem, técnica e inovação muito antes de determinadas tendências serem legitimadas pelo olhar europeu.
A moda vive de repertório, contexto e trocas culturais globais. Vivemos em um mundo conectado, e é evidente que referências atravessam fronteiras. Mas existe uma diferença profunda entre diálogo criativo e acusação vazia. Quando uma jornalista escolhe insinuar cópia sem apresentar comparação técnica, histórica ou material concreta, ela contribui para um processo perigoso de desmoralização da própria moda brasileira.
Por isso, deixo aqui um convite público e respeitoso: que nos sejam apresentados os produtos específicos aos quais fomos comparados, para que possamos discutir tecnicamente, de maneira transparente e responsável, os processos, materiais, construções e diferenças existentes.
Eu e meu time trabalhamos de forma ética, séria e comprometida. E talvez justamente por isso estejamos conseguindo abrir espaço para a moda brasileira no mercado internacional. Nosso trabalho não nasce do desejo de reproduzir o que já existe, mas da vontade de construir uma indústria que gere emprego, autoestima, identidade cultural e valor para o Brasil.
Sim, existe cópia na moda. Existe no Brasil e existe no mundo inteiro, inclusive entre grandes conglomerados internacionais. Mas também existe um grupo de criativos brasileiros profundamente comprometido em fazer moda de verdade —com pesquisa, linguagem própria, desenvolvimento material e responsabilidade cultural.
O que não podemos mais normalizar é a precariedade da análise crítica sobre a nossa própria indústria. A moda brasileira merece ser analisada com rigor técnico, profundidade e respeito. Porque já basta o quanto lutamos diariamente contra a falta de incentivo, desindustrialização e desvalorização cultural.

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