Opinião – Mise-en-scène: Aos 79 anos, Edwin Luisi retorna ao palco com Charlotte von Mahlsdorf

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Opinião – Mise-en-scène: Aos 79 anos, Edwin Luisi retorna ao palco com Charlotte von Mahlsdorf


A beleza da atuação de Edwin Luisi em “Eu Sou Minha Própria Mulher” reside em uma economia de gestos que beira a sofisticação absoluta. Ele não precisa de trocas de figurino mirabolantes para convencer o espectador de que o mundo inteiro cabe dentro de seu figurino preto; basta o ajuste milimétrico de um colar de pérolas ou a mudança súbita no brilho do olhar para que uma nova alma ocupe o tablado. É um trabalho de ourivesaria, onde a técnica não serve para exibir o ego do ator, mas para desaparecer em favor das inúmeras vozes que ele convoca.

Ao dar vida a Charlotte von Mahlsdorf, Luisi escolhe o caminho da dignidade contida em vez do espetáculo da dor. Sua Charlotte é uma mulher de movimentos precisos, uma sobrevivente que aprendeu que a voz mansa e o sorriso protocolar eram suas melhores armaduras contra a barbárie nazista e a vigilância comunista. Há uma doçura quase desconcertante em sua interpretação, uma astúcia de velha senhora que seduz o público e o autor da peça, Doug Wright, transformando o espectador em um cúmplice imediato.

No entanto, o triunfo de Luisi está em não santificar a personagem. Quando as sombras do passado emergem e revelam a colaboração de Charlotte com a polícia secreta alemã, o ator não recua. Ele sustenta a ambiguidade com uma coragem rara, mostrando que a moralidade, sob regimes de terror, é um luxo que os mortos não podem carregar.

Essa polifonia que Luisi executa — saltando da ansiedade do pesquisador americano para a frieza burocrática dos agentes alemães — cria um efeito de espelhamento que é a própria essência da peça. Ele nos mostra que a identidade de Charlotte foi construída através das frestas, nos espaços que sobravam entre o que o Estado exigia e o que o desejo permitia. A atuação funciona como um antídoto contra a caricatura; ele não interpreta uma travesti, mas uma identidade que inventou a si mesma quando o mundo dizia que ela não deveria existir.

Na reedição deste trabalho para 2025/2026, o que se vê é um ator em estado de maturidade plena, tratando o texto como uma partitura musical. Luisi entende que cada silêncio e cada hesitação na fala de Charlotte são peças de um museu emocional que precisa ser preservado.

Três perguntas para…

… Edwin Luisi

Como a sua percepção da Charlotte mudou após 18 anos? O que o Edwin de hoje, aos 79 anos, traz para a personagem que o de 2007 ainda não havia acessado?

Em 2007, o assunto era pertinente, mas ainda embrionário. Hoje, vejo uma urgência política muito maior em encenar essa peça. Ela se tornou mais contundente com o passar do tempo, por incrível que pareça. Os debates que ela traz à tona — sobre pertencimento, a liberdade de ser o que se quer e o direito à própria identidade — são vitais para a sociedade atual. Vivemos um momento, no mundo e particularmente no Brasil, em que essas questões ainda são tratadas com extrema violência.

Charlotte foi uma precursora. Antes da Primeira Guerra Mundial, ela já se vestia de mulher e lutava por essa identidade em uma sociedade rígida que perseguia homossexuais com a morte — imagine, então, a realidade para uma pessoa trans. Depois, sobreviveu ao regime comunista na Alemanha Oriental, que manteve essa perseguição. A coragem de Charlotte traz uma luz necessária para que as pessoas olhem para esse universo com mais amor. Ela era uma figura cativante, de uma bravura ilimitada, que construiu um museu e manteve um cabaré clandestino sob ele durante 30 anos sem ser descoberta.

A peça confronta o público com o fato de Charlotte ter sido informante da Stasi. Como humanizar uma personagem que cometeu atos moralmente questionáveis em nome da sobrevivência?

Eu não costumo romantizar nenhum personagem. O que nos torna humanos são justamente as nossas contradições, o amálgama de qualidades e defeitos. Ao estudar um papel, busco essas camadas. Não tentei construir Charlotte como uma heroína clássica; ela tem seus pecados.

Na peça, esses atos são contextualizados pelo instinto de preservação. Ela matou o pai em legítima defesa: ou ela e a mãe sobreviviam, ou ele as mataria. No caso da denúncia do amigo e namorado, houve uma escolha trágica. Ele levou objetos proibidos ao museu de forma irresponsável e, ao perceber o risco, pediu que ela o denunciasse para que ao menos um deles ficasse livre e o museu fosse preservado. Charlotte é clara: suas prioridades eram o museu, depois suas mobílias e, por fim, os homens. Mas ela o acompanhou até o fim da vida.

Charlotte existiu, não é ficção. O autor, Doug Wright, hesitou muito em terminar a peça por causa desses dilemas morais, até que se lembrou de uma fala dela em uma das fitas gravadas: “Temos que preservar todas as coisas tal qual são, e devemos exibi-las”. Ele entendeu que ela pedia para ser exibida exatamente como era, sem retoques.

O diretor Herson Capri afirma que sua filosofia é “estender o tapete vermelho” para o ator. Como essa liberdade criativa influenciou sua performance?

Falar do Herson é falar de uma amizade de 50 anos. Ele é o ator com quem mais trabalhei na vida; nos conhecemos profundamente. Quando o convidei para me dirigir, eu ainda não conhecia seu trabalho como diretor, mas confiava em seu caráter e nível de excelência. Por ser a peça da minha vida — minha primeira produção e meu primeiro monólogo — essa confiança mútua foi essencial.

Ele me deu total liberdade para criar as vozes, posturas e tipos, e essa autonomia me trouxe segurança. Ao mesmo tempo, o Herson foi cirúrgico nas orientações. Ele desenhou toda a movimentação: as marcas, as caminhadas, as transições. Eu tinha dificuldade em visualizar certas cenas, como o momento em que interpreto dois personagens onde um faz carinho na mão do outro, ou quando preciso alternar entre três vozes simultâneas. Ele foi fundamental ao dizer: “Calma, você vai conseguir”.

Não há competição entre nós. Às vezes, o ego do diretor ou do ator atrapalha o processo, mas aqui houve uma simbiose. Pode soar piegas, mas o que existe é amor e um respeito profundo pela trajetória um do outro.

Teatro Vannucci | Shopping Gávea – rua Marquês de São Vicente, 52 (2º piso) – Gávea. Sábado, 20h30 e domingo, 19h30. Até 28/6. Duração: 70 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. A partir de R$ 75 (meia-entrada) em sympla.com.br


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