Quando Temer assumiu a Presidência em 2016, ao lado da advogada Marcela, a “bela, recatada e do lar”, a fotografia de um ministério exclusivamente masculino parecia a abertura de um portal para o passado. Nostalgia é sintoma de fracasso.
Dava-se o alerta de que o tempo de uma mulher ter direitos iguais ou presidir um país passaria a ser questionável. A mensagem subliminar da derrubada da Dilma, considerada arrogante, foi essa —”permitimos” que uma mulher assumisse o comando da nave sem rumo na crise das commodities, a marola da quebra financeira global de 2008 virou tsunami, ficamos à deriva e tivemos que, numa feijoada completa, com Supremo, PIB, agro e tudo, arrumar o convés.
A maioria dos conservadores implica com tudo. Casais homoafetivos, trans em banheiros públicos, peças e exposições que questionam valores cristãos, indígenas, cotas identitárias e, sobretudo, com as mulheres.
A onda agora é defender a educação domiciliar, como se mães não trabalhassem. Volta o odor de ideais absolutistas —algo acima de tudo, acima de todos. Tem até bolsonarista afirmando que mulheres votam mal.
O problema dos conservadores é com o futuro. Querem conservar no presente a falta de direitos individuais do passado. A Suprema Corte americana, ao ganhar maioria conservadora, derrubou o precedente constitucional estabelecido em 1973, o direito ao aborto, um dos maiores avanços do movimento feminista.
Se um cidadão tem uma crença religiosa diferente da defendida pelo líder, entra numa inquisição invisível. Cultos africanos são bombardeados. Católicos e protestantes continuam em discordâncias há mais de 500 anos.
Os ideais do campo conservador remetem à Idade Média. Um exemplo é a escolha de um ministro do Supremo: sua fé e conhecimento bíblico são checados tanto quanto seu conhecimento jurídico.
Não se usa mais o termo heresia. Não se queimam protestantes, como na corte de Henrique 8º. Mas uma guerra santa agita os bastidores da política brasileira.
Henrique 8º passou a vida tentando controlar sucessões e mulheres. Ironia da história: quem deu estabilidade ao reino foi justamente uma delas.
Ao morrer, sua filha Maria 1ª, católica, sanguinária, que queimou protestantes e ficou conhecida por “Bloody Mary” —lembrai isso na próxima vez que tomar o drinque—, foi substituída por sua meia-irmã, Elizabeth 1ª, protestante.
E foi Elizabeth 1ª quem organizou um reino dividido, derrotou a Armada Espanhola —do reino mais rico da Europa—, viu o teatro de Shakespeare florescer e governou por 44 anos, na chamada era de ouro do reino.
Outra mulher que brilhou no poder foi Maria 1ª de Portugal. Assumiu num país destroçado por um terremoto, pela corrupção e intransigência política. Afastou Marquês de Pombal, libertou presos políticos, reabilitou perseguidos, entre eles jesuítas, e arrumou a economia.
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Segundo o livro de Mary del Priore, “D. Maria I”, Portugal recuperou as finanças e voltou a registrar superávits comerciais.
Mas Dilma virou rabugenta, e Elizabeth 1ª tinha problemas com homens, porque se recusava a casar com monarcas desconhecidos e usar seu corpo como contrato de alianças políticas. Foram desqualificadas pela história patriarcal.
Como Maria, “a generosa”, que virou “a louca”, por conta de uma melancolia justificável —em meses perdeu o marido, a mãe, seu filho mais velho e herdeiro, José, um neto herdeiro do trono espanhol, e soube de decapitações de amigos e parentes na Revolução Francesa.
Se dependesse dos conservadores, Elizabeth 1ª jamais teria existido, Catarina, “a grande”, nunca teria governado, Angela Merkel jamais teria comandado a maior economia da Europa, e Gro Harlem Brundtland não teria mudado a forma como o mundo pensa o desenvolvimento sustentável.
Além do mais, gays são convidados a voltar à invisibilidade. No governo de direita da primeira-ministra Giorgia Meloni, a Itália endureceu as restrições aos direitos parentais de casais do mesmo sexo, limitando o reconhecimento legal de seus filhos.
Na Flórida, governada por republicanos, uma lei permite que médicos e profissionais de saúde recusem atendimentos com base em objeções religiosas, morais ou éticas, o que resulta na recusa de atendimento a pessoas LGBTQIA+.
Para muitos, o futuro é assustador —o da revolução digital, robôs, internet das coisas, precarização de certezas, a incógnita chamada inteligência artificial, que deixará milhões obsoletos e, desconfiamos, é melhor do que nós mesmos.
De sobra, tem a crise climática. Não dá para descer do barco. Voltemos ao tempo em que meninos vestiam azul e meninas, rosa. Voltemos séculos? Não. A história costuma desobedecer a quem olha para trás.











