Opinião – Djamila Ribeiro: Quem manda no esporte brasileiro?

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Opinião – Djamila Ribeiro: Quem manda no esporte brasileiro?


Se “escravos de US$ 40 milhões” têm pouco ou nenhum poder sobre a própria carreira, quem desenha as diretrizes, a política e a gestão do esporte brasileiro? Vimos na coluna passada como a ascensão de atletas negros não se traduz em poder de decisão e como o fosso é ainda mais profundo para as mulheres. Ficou a promessa de avançar para as políticas de Estado.

Para prosseguir, tive que transcender um pessimismo particular. Foi inevitável pensar: de que adianta escrever sobre políticas de Estado quando um pensamento masculinista e entreguista dá as cartas no país?

Infelizmente, não é exagero. As revelações sobre as relações de Daniel Vorcaro com homens do poder produziram em mim um profundo desânimo. Mulheres reduzidas a garotas de programa, aliciadoras e testas de ferro. Bilhões de reais pulverizados, e muitos dos envolvidos ainda pedindo votos para a reeleição. Como discutir compromisso com o futuro do país num cenário desses?

No debate público, a misoginia também cumpre sua função. Onde há uma caixa de comentário, haverá homens para desqualificar a crítica antes mesmo de ler. Já em relação a quem ocupa o poder no esporte, em especial no futebol, mas não só, não há adoção, de fato, de qualquer medida capaz de desafiar

a estrutura patriarcal e racista.

Por poder no esporte, refiro-me aos mais variados espaços: federações e confederações estaduais, nacionais e internacionais. Refiro-me, ainda, ao poder da mídia —dos grandes conglomerados às iniciativas de streaming—, das igrejas, das instituições financeiras, das bets e do crime organizado. E, claro, ao poder do Estado. Instâncias diferentes, com interesses por vezes conflitantes, mas uma coincidência impressionante —todas, ou quase todas, dominadas por homens.

Frente à Matrix, o pensamento crítico é abafado. Como escreveu o poeta Thomas Gray no século 18, “onde a ignorância é uma bênção, é tolice ser sábio”. Por isso, o desânimo. Todavia, é ano de eleição. Em breve, candidatos estarão enfileirados em debates.

Em teoria, um momento para apresentar propostas. Na prática, mais uma provável baixaria. Mas quem sabe, contra as probabilidades, candidatos —homens, em sua imensa maioria— sejam instados a falar um pouco sobre suas propostas para o esporte brasileiro. Veremos, então, que há poucas, talvez nenhuma.

Deve parecer a leitores uma querela menor discutir esporte, sobretudo sob a lente feminista, quando o país está em chamas. Talvez um mero capricho refletir sobre o setor que emprega milhões, financia o império das apostas, dita os horários da nação para exibir uma seleção que não pertence ao povo, e, como se isso não bastasse, escancara o fosso racial e salarial com a naturalidade de quem respira.

Confio que a ironia desperte alguns gatos-pingados. Desânimos à parte, seguimos. Estamos vivas hoje. Amanhã, outras virão e teremos semeado a terra.

Há quem não possa esperar a colheita. São as atletas mal remuneradas que, nessa interface machista, dificilmente ocuparão outros espaços depois que se aposentarem do esporte.

São, também, as mães, tias e avós, espalhadas pelos municípios do país, que se matam em faxinas e subempregos para proporcionar a seus filhos uma única chance de jogar em algum time.

Por elas, devemos cobrar: candidatos, quais são suas políticas para o esporte brasileiro? Em um cenário hipotético de debates, perguntaria: candidato, na sua opinião, o desenho privado de confederações e federações tem servido ao povo brasileiro? Não deveria ser público e democrático?

E, já que recebem recursos públicos e se beneficiam de políticas de Estado, não lhes caberia cumprir metas de equidade racial e de gênero em suas diretorias? Os atuais mecanismos de transparência são, afinal, suficientes?

Candidato, sobre lavagem de dinheiro e influência: as bets são constitucionais? Se sim, qual deve ser o limite de sua publicidade e ingerência sobre clubes, campeonatos e transmissões? E as ligas de clubes —quem, de fato, tem voz e direito a decidir seus rumos? Até onde o capital estrangeiro pode

comandar o esporte nacional?

Para finalizar, os atletas e o futuro: quais são suas propostas para reduzir a desigualdade salarial e de investimento entre o futebol masculino e o feminino?

Que políticas garantirão formação educacional e profissional para que a aposentadoria não signifique descarte? E por que ex-atletas, sobretudo mulheres e pessoas negras, continuam praticamente ausentes do comando das entidades que governam o esporte?


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