Até semana passada, a única coisa que eu sabia sobre um tal de Juliano Cazarré era que ele era um ator da Globo que fazia muito filho. Juliano aparentemente é católico fervoroso e acredita que filhos são enviados por Deus e que métodos contraceptivos iriam, portanto, contra a vontade de Deus. Ou pelo menos era isso que dizia três anos atrás, quando foi entrevistado pela revista Veja e afirmou não usar método contraceptivo algum. Hoje, com seis filhos, o ator e reprodutor em série parece ter mudado de ideia e afirmou que ele e sua esposa “não estão à procura de engravidar” e, por isso, passaram a usar a tabelinha, método contraceptivo com cerca de 80% de eficácia. Parece que Deus, se assim desejar, terá que trabalhar dobrado para enviar mais filhos a Cazarré.
A pausa do guerreiro em sua missão de perpetuar a humanidade pode ter a ver com o projeto que o mesmo acaba de lançar. Trata-se de O Farol e a Forja Summit, apresentado como o “maior encontro de homens do Brasil” e definido por Cazarré como “uma imersão para refletir sobre o cenário de desamparo da figura masculina”.
É isso mesmo. De todas as palavras que esse homem poderia usar para descrever o estado em que a “figura masculina” se encontra, a escolhida foi esta: desamparo —ou, como sugere o dicionário, estado de abandono, falta de auxílio, proteção ou amparo, tanto material quanto moral.
A escolha da palavra me parece irônica. Afinal, 2025 foi o ano em que os índices de feminicídio no Brasil bateram todos os recordes, e 2026 tem tudo para superar 2025. Afinal, mulheres ainda ganham, em média, 20% menos do que homens para exercerem a mesma função.
Não há dúvida de que a masculinidade está em crise —sobre isso, Cazarré e eu concordamos. O próprio crescimento vertiginoso do movimento red pill é reflexo dessa crise. As estatísticas alarmantes relacionadas à saúde mental dos homens também.
A masculinidade está em crise porque o papel do homem na sociedade está mudando. Ou melhor, porque o papel da mulher na sociedade já mudou e está, necessariamente, colocando em xeque o que sempre foi considerado “o papel do homem”. Entramos no mercado de trabalho, nos educamos, conquistamos o direito de decidir sobre quem queremos amar, se desejamos casar e/ou ter filhos.
E, diante de toda mudança, claro, há uma reacomodação das peças que compõem esse tecido social. E essa reacomodação muitas vezes é difícil para aqueles que não foram os agentes da mudança. Conheço muitos homens, inclusive alguns progressistas, que, na segurança de seus encontros com outros homens igualmente progressistas, se perguntam: por quê? Por que justo na minha vez? Morro de pena.
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Sim, Cazarré e eu concordamos: a masculinidade está em crise. Mas nossas concordâncias param por aí. O que Cazarré propõe, com seu discurso red pill travestido de salvação, é um retorno, como se os homens precisassem ser lembrados do que é ser homem. E eu pergunto: retornar para onde? Lembrar do quê?
O problema desse discurso é que esse cavaleiro que os Cazarrés e demais coaches de macho idealizam nunca existiu. Ao longo da humanidade, o “papel do homem” esteve muito mais intimamente ligado à exploração do que ao respeito às mulheres.
Cazarré e eu discordamos porque ele vê a tal crise da masculinidade como algo a ser derrotado, e eu a vejo como algo a ser abraçado, uma oportunidade para criarmos um novo paradigma de masculinidade: homens mais abertos ao diálogo, que não têm medo de se mostrar vulneráveis, que sabem demonstrar afeto e que respeitam a liberdade de cada mulher de definir qual será o seu papel.
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