Não foi uma parada técnica. Todo mundo desceu. Houve desfile em carros do Corpo de Bombeiros. Mais de 1,5 milhão de pessoas …………………..
MARCELO SILVA
Publicado em 13/06/2026 às 10:31
| Atualizado em 13/06/2026 às 10:51
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Esta é uma história de dificuldade, carinho e superação que eu gostaria de recontar. Em 1970, a Seleção Brasileira encantou o mundo na Copa do México, liderada pelo extraordinário Pelé, com atuações memoráveis de Rivellino, Jairzinho, Tostão, Gerson e Carlos Alberto.
Depois, no entanto, fracassamos várias vezes, na Alemanha, na Argentina, na Espanha (com aquele timaço de Zico, Sócrates e Falcão), no México (sede novamente) e na Itália. A maior parte da torcida ficou desapontada e descrente.
Nas Eliminatórias para a Copa de 1994, passamos por maus bocados. Começamos com um decepcionante empate em 0 a 0 com o Equador. Depois, fomos derrotados por 2 a 0 pela Bolívia, em La Paz. Nesse calvário, tivemos ainda um empate com a Venezuela e outro com o Uruguai. A matemática ficou bem complicada. Poderíamos, pela primeira vez, ficar fora de uma Copa do Mundo.
Aí, em agosto de 1993, foi realizado o jogo da volta contra o Equador, no Morumbi.Atuação sem brilho dos brasileiros. E a torcida paulista vaiou muito o selecionado e o técnico Parreira, mesmo com a vitória por 2 a 0. O psicológico dos jogadores estava realmente abalado.
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A impaciência da torcida resultava também de outros fatores. Naquele agosto, o dinheiro derretia na carteira. A inflação mensal foi 32,96%. A acumulada do ano bateria em inacreditáveis 2.477%. O Real, aliás, eixo monetário do plano de estabilização econômica, somente entraria em circulação no ano seguinte, justamente durante a Copa.
A partida na sequência, decisiva, seria contra nossa algoz da época, a Bolívia. E foi marcada para o Recife, justamente na casa do meu Santa Cruz, o Arruda. Os jogadores chegaram e, com espanto, encontraram um clima totalmente diferente. Em vez de vaias e palavrões, ouviram incentivos e aplausos. No aeroporto e no hotel, receberam enorme carinho das pernambucanas e dos pernambucanos.
Naquele 29 de agosto, o público pagante foi de 75.325, mas 96.990 pessoas lotaram as arquibancadas tricolores, superando em muito a capacidade do estádio. Muita gente ainda ficou do lado de fora, ouvindo o jogo em radinhos de pilha.
Aí, entra outro fator fundamental naquela campanha. Os atletas entraram em campo de mãos dadas, conforme o projeto de união e superação imaginado pelo excelente zagueiro Ricardo Rocha, pernambucano, recifense, que começara a carreira aqui no nosso Santinha, antes de jogar por times como São Paulo, Real Madrid e Vasco da Gama.
O Brasil deu o troco. Vitória expressiva de 6 a 0! O ânimo mudou! No jogo seguinte, vencemos a Venezuela. Ainda faltava, no entanto, outra disputa decisiva. Seria disputada no Maracanã, em 19 de setembro, e muita gente temeu desfecho semelhante àquele da final da Copa de 1950, quando fomos derrotados pelo cascudo time comandado por Obdúlio Varela.
Começou a campanha informal “Chama o Romário”, afastado por lesões e problemas com a comissão técnica. Enfim, a paz foi selada. Romário foi convocado, voltou, jogou e, no segundo tempo da partida, marcou os únicos dois gols da partida. Acabou-se o drama e a Seleção Brasileira conseguiu sua classificação.
Ricardo Rocha, o grande espírito motivador daquele grupo, lesionou-se com gravidade já no primeiro jogo da Copa. Comissão técnica e jogadores, no entanto, decidiram que ele continuaria com o grupo. E seguiu como incentivador máximo dos colegas, mantendo viva a chama pernambucana de garra, valentia e confiança.
Como todos sabemos, conquistamos o cobiçado tetra, depois de jogos difíceis, especialmente a final, contra a Itália, em 17 de julho. Dois dias depois, os heróis retornaram ao Brasil. E decidiram pousar, primeiramente, no Recife.
Não foi uma parada técnica. Todo mundo desceu. Houve desfile em carros do Corpo de Bombeiros. Mais de 1,5 milhão de pessoas promoveram uma gigantesca festa pela cidade. Boa Viagem tinha dois mares: o Atlântico e aquele da gente que celebrava a conquista.
Depois, Ricardo Rocha pronunciou uma frase que ficaria famosa: “o tetra começou no Recife”. Ele tinha razão. Pernambuco entrou para a memória coletiva como um lugar de resistência, de acolhimento, de resgate da brasilidade. E isso diz tudo sobre nosso povo, nossa cultura e nossa identidade.
Muitas vezes, portanto, em momentos difíceis de nosso país, penso aqui com os meus botões. Se o que falta é uma injeção de ânimo, o Brasil precisa de mais Recife, de mais Pernambuco.
Marcelo Silva, conselheiro de empresas














