Nova geração do pagode resgata influência da black music dos anos 1990

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Nova geração do pagode resgata influência da black music dos anos 1990


Thiaguinho lançou recentemente o álbum “Bem Black“. Péricles está confirmado no Rock in Rio 2026 com um espetáculo dedicado aos clássicos da gravadora Motown. O cantor Coimbra, um dos nomes em ascensão do segmento, viralizou nas redes sociais ao interpretar “I’ll Be There”, do Jackson 5, ao som da batucada. A influência da black music, que ajudou a moldar o pagode dos anos 1990, volta a aparecer com força entre artistas da nova geração.

Quando Felipe Trotta escreveu sua tese de doutorado, que culminou no livro “O Samba e suas Fronteiras”, publicado em 2011 pela Editora UFRJ, os embates entre sambistas tradicionais e os pagodeiros modernos estavam mais à flor da pele. O primeiro grupo acusava o pagode de ser produto do mercado fonográfico, pasteurizado e sem raiz. Já o segundo buscava se legitimar dizendo que também eram praticantes do samba, mas com um estilo diferente —tese defendida por Trotta.

“Não existe diferença entre gêneros. Me parece mais que são maneiras diferentes de tocar o samba”, diz o pesquisador. “O pagode é um estilo de samba que foi fundamental, nos anos 1990, para reposicionar o samba no topo das paradas de sucesso no Brasil”.

E um dos grandes méritos da série “Anos 90: A explosão do pagode“, dos diretores Emílio Domingos e Rafael Bolsinha, que está disponível na Globoplay, é provar que esse estilo não nasceu de geração espontânea ou foi desenvolvido nos confins das gravadoras multinacionais. Mas, sim, que passou pelas mentes e mãos de uma juventude, sobretudo paulista, perspicaz e cheia de referências locais e globais.

“Os bailes blacks foram a grande influência desses grupos de pagode, não só musical, mas também estética. Quando eles subiam no palco, eles já vinham com uma bagagem de espectador, de ter visto espetáculos de artistas negros norte-americanos promovidos pela Chic Show, Zimbabwe ou Kaskatas”, diz Domingos.

Por uma conjuntura de fatores econômicos e culturais, e uma astúcia dessa geração, o pagode conseguiu se associar às engrenagens do mercado fonográfico e da mídia, principalmente a televisão. “O pagode colocou uma juventude negra de periferia dentro do mercado, ocupando espaços antes muito restritos. Portanto, tem uma importância muito grande para o jovem negro brasileiro se ver representado, uma espécie de espelho para grande parte da sociedade”, diz o diretor.

Passados 30 anos do boom do pagode dos anos 1990, talvez só agora seja possível compreender a dimensão simbólica daquele fenômeno, segundo Acauam Oliveira, professor de literatura da Universidade de Pernambuco e crítico cultural. “Para quem estava no início daquele processo, como agente, era difícil ter o distanciamento histórico necessário para entender o que estava fazendo. Hoje, à luz das discussões decoloniais e afrodiaspóricas, conseguimos elaborar outras narrativas sobre o que aconteceu.”

Para o pesquisador, o pagode deixou de ser interpretado como um rebaixamento do samba e começa a ser reconhecido como uma linguagem negra própria, um tipo de pop periférico. “A crítica seguia esse caminho porque tentava compreender o pagode 90 apenas como continuidade da experiência do Cacique de Ramos e do Fundo de Quintal. Mas o Cacique foi apenas uma de suas matrizes. Hoje conseguimos enxergar o pagode também como fruto da black music. O que aqueles artistas construíram foi outra vertente da música pop periférica”.

Claro que é difícil definir quais seriam as raízes de um estilo que, desde a sua criação, provocou rupturas. A partir da sonoridade criada pelo Raça Negra, grupos como Negritude Júnior, Só Pra Contrariar, Sensação, Katinguelê, Soweto e tantos outros caminharam nessa linha tênue entre um samba mais tradicional e a música pop, que estava em alta na época.

“Talvez a canção mais didática daquele período seja ‘Cohab City’, que começa com uma menção a ‘ABC’ do Jackson 5, depois vai para um balanço estilo Bebeto, para no refrão valorizar a batucada tipo a do Cacique de Ramos”, diz Oliveira.

Se nos anos 1990 o pagode buscava provar que também era samba, hoje já não precisa mais fazê-lo —o estilo acumulou repertório, memória e referências suficientes para beber da sua própria fonte. A black music, antes vista como uma descaracterização do samba, aparece hoje como um dos elementos constitutivos da sua identidade— e um porto seguro para artistas da nova geração.



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