Para Lena Dunham, ser famosa e ficar doente são experiências indissociáveis. A diretora da série “Girls”, além disso, aponta outra semelhança: são coisas impossíveis de explicar para os outros. Só quem sente na pele sabe dizer como é.
Em “Doente de Fama”, seu segundo livro de memórias, ela conta como o sucesso profissional levou ao declínio da sua saúde física e mental. Aos 40 anos, a escritora americana —que tem a palavra “doente” tatuada na nuca— diz ter feito as pazes com o próprio corpo.
A obra revisita o período de “Girls”, programa que Dunham criou quando tinha 23 anos, com detalhes extensivos de seus prontuários médicos. Se, por um lado, ela festejava o cheque de 60 mil dólares pelo piloto, por outro, vivia episódios de dissociação que se tornaram comuns ainda na primeira temporada.
Dunham pesa a mão nas descrições de doenças. Escreve com minúcia sobre seu transtorno de estresse pós-traumático e sobre o quadro de endometriose que levou à remoção de seu útero e ovários.
Enquanto “Girls” estava no ar, cada sinal de fragilidade era silenciado com remédios. Tudo culminou na internação em uma clínica de reabilitação —o medo de fracassar sempre falava mais alto que as conquistas, como vencer o Globo de Ouro ou manter bons números de audiência.
A insistência nesse assunto ofusca todos os outros aspectos da sua vida. Nem contar sobre uma transa na UTI torna a longa experiência hospitalar menos entediante.
Nos oito anos em que a autora elaborou “Doente de Fama”, também dirigiu as séries “Industry” e “Too Much” e o filme “Catarina, a Menina Chamada Passarinha”, mas nenhum dos projetos merece mais do que uma linha no livro.
Para quem esqueceu, ela faz questão de lembrar que, no início da carreira, orbitava a mesma cena do diretor Ti West, da cineasta Greta Gerwig e dos irmãos Benny e Josh Safdie, cujas trajetórias demoraram mais tempo para deslanchar.
O embrião de “Girls” era levar o estilo do cinema independente americano à televisão, em um enredo inspirado em “Sex and The City” —só que antes de as protagonistas se tornarem glamurosas. Dunham sabia que outras mulheres se reconheceriam no seu estilo ultrassincero.
O arco da sua ascensão e decadência acompanha o clima cultural dos Estados Unidos. “Eu acreditava que a cura para um desprezo tão disseminado não era mostrar menos de mim, mas mais, como se revelar até as entranhas pudesse produzir algum tipo de compreensão renovada.”
Conseguia desagradar tanto a esquerda quanto a direita. O irmão trans a chamava de sua “centrista favorita”. Em um dos momentos depressivos, seu pai disse: “Você tem só 28 anos e já foi chamada de racista, puta gorda, patricinha ignorante e molestadora de crianças. O que mais resta? Nada”.
Episódios de humilhação, trauma e abuso são o terreno fértil para a sua arte. Mas como podemos culpar Dunham, se o sofrimento feminino vende livros?
Em entrevista ao jornal The New York Times, a autora diz não querer vingança com “Doente de Fama”, mas é difícil acreditar.
Um de seus alvos é Jenni Konner, sua mentora e co-roteirista da série. Konner pressionou Dunham a insistir com a HBO para que os salários das duas fossem iguais, usando o feminismo como desculpa —mesmo que só a mais jovem estivesse à frente e atrás das câmeras.
O ressentimento transparece com frequência nas páginas. Do parceiro de cena Adam Driver, ficaram as lembranças dos gritos nos ensaios e do comportamento errático no set. Já do ex-namorado Jack Antonoff, a mágoa pela ausência nos hospitais e o gosto amargo das traições.
O que fica evidente é que a precocidade de Dunham como artista não acompanhou o ritmo da sua vida pessoal. Ela estava no comando no estúdio, mas, emocionalmente, ainda era uma adolescente. “Queria ter tudo ao mesmo tempo, viver aquela vida grandiosa e ser amada por todo mundo. Sou uma pessoa que quer fazer os outros felizes.”
A ingenuidade soa irritante, mas demonstra como errar faz parte do percurso. O que a idade trouxe foram cicatrizes, boas doses de realidade e menos tempo online. Ao contrário do que ela esperava, ficar rica e famosa não foi garantia de felicidade —só a tornou mais distante do resto do mundo.
Ao fazer check-in em hotéis, Dunham usava o nome de Rose O’Neill, criadora das bonecas Kewpie. A ilustradora foi uma das primeiras mulheres milionárias dos Estados Unidos, mas morreu na pobreza. Era um lembrete do que poderia acontecer com ela.
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A ambição cobrou seu preço, mas Dunham diz não se arrepender de nada. Em um mundo que espera que as mulheres ocupem menos espaço e sejam modestas, é reconfortante ver a roteirista tão fiel a si mesma.
Quando não está mergulhada em períodos sombrios, seu espírito irreverente vem à tona, aquele que conquistou uma legião de fãs. “É como se eu tivesse nascido com a alma de infinitas gerações de mulheres provocadoras dentro de mim”, diz.
Uma das pessoas cativadas por sua personalidade excêntrica foi a escritora Nora Ephron, cujo mantra se tornou um guia para Dunham: “Se você viveu uma experiência, pode recontá-la”.
Em “Doente de Fama”, ela segue o conselho e dá sua versão sobre os erros do passado. As memórias são munição para mostrar quem Dunham se tornou, se recusando a ser definida pela versão ultrapassada de si. Assim, consegue pintar um retrato imperfeito de uma mulher millennial descobrindo como é viver com os dois pés no chão.












