Nova exposição no Palácio Capanema revela bastidores dos murais de Portinari

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
Nova exposição no Palácio Capanema revela bastidores dos murais de Portinari


Descrita objetivamente, a série encomendada a Candido Portinari para o salão de recepção do Palácio Gustavo Capanema, no centro do Rio de Janeiro, não inspira muito entusiasmo. O conjunto de 12 murais ilustra os “Ciclos Econômicos Brasileiros”, da colonização até a industrialização, a partir de uma palestra sobre o tema.

O resultado não é nada protocolar, no entanto. Pintadas em afresco, as obras transbordam o estilo de seu autor, seja nas suas cores terrosas típicas, seja na desproporção dos pés e das mãos que caracterizam as suas figuras humanas.

Mais importante, elas transgridem o pedido oficial do governo varguista ao mostrar a extração do pau-brasil, da cana, do café e da borracha do ponto de vista do trabalhador. “Portinari poderia ter pintado uma colheita de algodão, sem nenhum personagem, ou uma plantação de cacau. Mas não fez isso. Fez um brasileiro”, diz o curador de arte Rafael Peixoto.

Quem visitar os painéis até 12 de novembro terá a oportunidade de conhecer também os bastidores de sua produção. A exposição “Portinari e o Brasil Moderno”, idealizada por João Paulo Mansini, do CAU-RJ, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro, reúne rascunhos e desenhos de transferência, usados para passar os esboços para a superfície onde são pintados na escala correta, de várias partes dos murais.

Tanto Mansini quanto Peixoto —este, curador convidado ao lado de Marcus Lontra— afirmam que, ao revelar esse processo criativo, a mostra busca tirar o público do lugar passivo a que muitas vezes é relegado, convidando-o a refletir sobre o que o artista pensava quando concebeu a obra.

De fato, parte do atrativo de “Portinari e o Brasil Moderno” é tentar identificar nas paredes as versões finais dos desenhos exibidos em cavaletes no salão. Um dos indígenas de “Pau-Brasil” tem bem mais detalhes no estudo do que na pintura acabada. De olhos fechados no desenho, a menina de “Algodão” chora no mural.

O principal objetivo da mostra é, no entanto, atrair o público para o Capanema, que só voltou a receber visitantes no ano passado, depois de cerca de uma década em obras.

Construído entre 1937 e 1945 para abrigar o Ministério da Educação e Saúde da ditadura de Getúlio Vargas, ele é considerado o primeiro edifício modernista brasileiro encomendado pelo Estado.

Seu projeto é assinado por ninguém menos que Le Corbusier, pai da arquitetura moderna. Foi a ele que o ministro varguista que dá nome ao prédio recorreu depois de se negar a reconhecer o vencedor de um concurso aberto justamente para escolher o desenho do edifício.

A construção ficou a cargo de brasileiros, no entanto, que se apropriaram do plano e o dotaram da própria assinatura. Participaram da empreitada nomes que depois se tornariam os principais do modernismo do país, incluindo Lúcio Costa, urbanista de Brasília, Affonso Eduardo Reidy, autor do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, e até um jovem Oscar Niemeyer.

Portinari, aliás, também colaborou com bem mais do que os “Ciclos Econômicos Brasileiros”, assinando ainda o mural em têmpera “Jogos Infantis”, de mais de 60 metros quadrados e, mais notavelmente, os azulejos com temas marinhos que revestem toda a fachada e o andar térreo.

O prédio continuou a servir propósitos administrativos após o fim da ditadura varguista, e, quando foi fechado para reformas pela primeira vez, em 2014, abrigava uma representação local do Ministério da Cultura, o MinC.

Na época, seus elevadores já tinham sofrido tantas falhas técnicas que os servidores que trabalhavam ali chegaram a fazer uma paralisação para chamar a atenção para a falta de conservação dos equipamentos.

Mesmo fechado, o edifício continuou, a seu modo, figurando na história do país.

Em 2016, foi ocupado por manifestantes contrários ao fim do MinC, decretado pelo governo Michel Temer (MDB). Em 2021, durante a gestão Jair Bolsonaro (PL), foi ameaçado de venda à iniciativa privada pelo então ministro da economia, Paulo Guedes —a Justiça Federal impediu a transação.

O Capanema só foi reabrir oficialmente no ano passado. Sua primeira iniciativa foi receber de volta seus moradores originais, representantes do MinC e de várias das autarquias vinculadas à pasta —hoje estão alocados ali os escritórios regionais do Iphan, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, da Funarte, a Fundação Nacional de Artes, do Ibram, o Instituto Brasileiro de Museus, da Biblioteca Nacional e, mais recentemente, da Fundação Casa Rui Barbosa.

Então, no início deste ano, o MinC estruturou uma unidade para cuidar especificamente da agenda cultural do edifício.

Patrícia Fróes, coordenadora de programação do Capanema, conta que ele recebeu diversas residências artísticas nos últimos meses. Mais recentemente, entre setembro e outubro, inaugurou três exposições temporárias em sequência: uma individual de Thaís Iroko, a coletiva “Cidade Batucada” e, enfim, “Portinari e o Brasil Moderno”, cujo subtítulo é “Os Murais do Palácio Capanema”.

A última foi concebida como parte da Conferência Estadual de Arquitetura, realizada pelo CAU-RJ a cada três anos. Mansini foi um dos coordenadores do evento —segundo ele, o conselho entendeu que era importante ocupar o palácio recém-aberto.

Ele acrescenta que o plano é manter a parceria do CAU-RJ com o edifício, produzindo exposições que resgatem a história da arquitetura e do urbanismo no estado do Rio de Janeiro. “Existe um potencial gigantesco. Basta ver onde estamos. Temos obras-primas à nossa volta”, diz.

Ele cita o Aliança da Bahia, prédio vizinho ao Capanema que, como ele, é outro ícone da arquitetura modernista, e a sede da Câmara Municipal, desenhada por Archimedes Memória —arquiteto que venceu o concurso para a construção varguista, mas que teve seu projeto descartado em favor daquele de Le Corbusier.

Fróes, por sua vez, afirma que o Capanema tem uma vocação pública que nunca foi desenvolvida. “Nossa ideia é que ele deixe de ser um monumento que admiramos para ser algo que usamos”, ela diz. “Estamos descobrindo como se ocupa um palácio.”



Source link

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp

Nunca perca uma notícia importante

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *