Nordeste reduz a pobreza, mas ainda convive com desigualdade e falta de articulação regional

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Nordeste reduz a pobreza, mas ainda convive com desigualdade e falta de articulação regional


Renda abaixo da média, alta informalidade, educação desigual e infraestrutura insuficiente desafiam a região, que ainda carece de uma agenda comum


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Quatro em cada dez nordestinos ainda vivem na pobreza. No conjunto do país, são pouco mais de dois em cada dez. Os avanços dos últimos anos são reais, mas convivem com problemas antigos, que impedem a região de transformar o seu potencial em desenvolvimento para toda a população.

A renda continua abaixo da média nacional, mais da metade dos trabalhadores está na informalidade, os bons resultados na educação ficaram restritos a poucos estados e a infraestrutura não acompanha as necessidades da região. Para economistas que estudam o Nordeste, esses entraves são agravados por um problema de fundo, a falta de articulação regional.

“Não temos claramente um projeto de desenvolvimento articulado para que a região saia da dependência dos programas sociais e construa uma agenda de trabalho produtivo, que gere renda e atividades capazes e fazer o Nordeste acelerar o seu desenvolvimento”, avalia o economista Flávio Ataliba, coordenador do Centro de Estudos para Desenvolvimento do Nordeste do FGV Ibre.

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Velho hiato

O Nordeste reúne 27% dos brasileiros, mas responde por 13,8% do PIB nacional, o principal retrato desse descompasso entre população e economia. Quando Celso Furtado estudou a região, nos anos 1950, essa participação era estimada em 13%. Mesmo crescendo um pouco acima da média do país nos últimos anos, a região pouco reduziu a distância.

Ataliba lembra que, nos anos 1960, o Nordeste tinha 32% da população brasileira. Parte da melhora do PIB por habitante, segundo ele, se explica pela queda dessa participação, provocada pela redução da natalidade e pela migração para o Centro-Sul, e não por um salto da economia.

“A distância é tão grande que não se corta no curto prazo. Tem que ser um esforço permanente, de longo prazo. Não é uma década que resolve isso, nem duas”, pondera a economista Tania Bacelar, sócia-fundadora da Ceplan Consultoria Econômica e Planejamento.

Renda menor

O rendimento domiciliar por pessoa no Nordeste subiu de R$ 1.088 em 2012 para R$ 1.470 em 2025, uma alta de 35%. No Brasil, passou de R$ 1.782 para R$ 2.264, um avanço de 27%. Mesmo crescendo mais que a média do país, a renda nordestina ainda equivale a apenas 65% da nacional. Segundo Ataliba, entre os dez estados com menor renda do trabalho, sete são nordestinos.

O desemprego caiu para os menores níveis em anos, mas a informalidade passa de 50% dos trabalhadores na região. “O desemprego baixo vem acompanhado de alta informalidade e de baixíssimos salários, tanto na informalidade quanto no trabalho formal, e isso impede a região de alavancar o seu desenvolvimento”, explica o economista.

As famílias nordestinas estão entre as mais endividadas e inadimplentes do país, pressionadas pelos juros altos, o que agrava o quadro. Sem renda, não há consumo, as empresas não têm para quem vender e a produtividade não avança. “Continuamos nesse círculo vicioso. O meu medo é que, daqui a 70 anos, estejamos de novo no mesmo estágio em que estávamos quando Celso Furtado falou”, alerta Ataliba.

Pobreza persistente


Divulgação

Programa federal de transferência de renda, o Bolsa Família teve reajuste de 15% anunciado em setembro, e o benefício mínimo foi de R$ 600 para R$ 691 – Divulgação

A pobreza recuou na região, mas continua muito acima da média nacional. Em 2012, 56,6% dos nordestinos viviam na pobreza. Em 2024, eram 39,6%. A extrema pobreza caiu de 14,3% para 6,6% no mesmo período. No Brasil, a pobreza passou de 34,9% para 23,4%, e a extrema pobreza, de 6,7% para 3,6%. Ou seja, a proporção de pobres no Nordeste ainda é quase 70% maior que a média do país, e a de extremamente pobres, quase o dobro.

A desigualdade também recuou, mas num ritmo bem mais lento, e o Nordeste continua sendo a região mais desigual do país. O índice de Gini, que mede a concentração de renda numa escala de 0 a 1, em que quanto menor o valor, menor a desigualdade, passou de 0,546 em 2012 para 0,502 em 2024 na região. Todas as outras regiões já estão abaixo de 0,500.

Na prática, a pobreza recuou bem mais do que a desigualdade. “Não reduzimos a desigualdade, reduzimos a pobreza. É evidente que há muito menos miséria aguda do que antes, mas o debate sobre como avançar na redução da desigualdade ainda está aberto”, reconhece Tania.

Ataliba defende políticas que ajudem as famílias a sair da extrema pobreza, e não apenas a sobreviver nela. Ele cita experiências do Chile, do Peru e da Colômbia, em que profissionais como assistentes sociais, psicólogos e pedagogos visitam as famílias para entender o que as mantém nessa condição. “Os motivos são multidimensionais. O que acontece numa família não é o mesmo que acontece em outra”, detalha. O modelo lembra o dos agentes comunitários de saúde, criado no Ceará, que ajudou a derrubar a mortalidade infantil no estado e virou política nacional.


Divulgação

Desemprego está nos menores níveis em anos, mas sete dos dez estados com menor renda do trabalho do país são nordestinos – Divulgação

Educação desigual

Ceará, no ensino fundamental, e Pernambuco, no ensino médio, se tornaram referências nacionais em educação, mas os resultados não chegaram aos demais estados. “Os estudos mostram que grande parte dos ganhos de produtividade de uma localidade vem do capital humano. Mas, a despeito desses avanços específicos, não tivemos o espalhamento para os outros estados”, observa Ataliba.

Segundo a Carta Nordeste, documento do FGV Ibre coordenado por Ataliba, a região recebeu apenas 1,2% dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico em 2024, contra 82,6% do Sudeste, o que revela o baixo investimento em ciência e tecnologia. “É uma contradição, porque temos grandes parques tecnológicos aqui”, aponta o economista.

Infraestrutura insuficiente

O investimento por habitante em rodovias, saneamento e logística é menor no Nordeste do que no Centro-Sul. Apenas 33,8% do esgoto da região é coletado, contra 79,8% no Sudeste, segundo a Carta Nordeste. “Sem infraestrutura, ninguém vem”, resume Ataliba.

Nas ferrovias, a preocupação é ficar para trás. “O Brasil começa a trocar a dependência da rodovia por uma combinação com a ferrovia, mas a nova malha se concentra no Sul e no Sudeste. Isso acende uma luz vermelha para o Nordeste. Aqui, só há a Transnordestina, e mesmo assim pela metade”, critica Tania. A Ferrovia de Integração Oeste-Leste, na Bahia, também segue em obras.

A produção de energia limpa já supera o consumo da região, mas faltam linhas de transmissão para escoar o excedente e estruturas para armazená-lo. Por isso, o operador do sistema elétrico tem cortado a geração de parques eólicos e solares, com prejuízo para as empresas que investiram no Nordeste.
Incentivos em xeque

Com a Reforma Tributária, o fim da guerra fiscal do ICMS, usada por décadas para atrair indústrias, tira dos estados o principal instrumento de atração de investimentos. Em compensação, será criado um fundo de desenvolvimento regional, cujos valores preocupam. Segundo a Carta Nordeste, o fundo deve começar com cerca de R$ 3,6 bilhões no primeiro ano para toda a região, menos do que os R$ 4,6 bilhões em benefícios concedidos só pelo Ceará em 2024.

“Há um risco de desperdício muito grande. Eu colocaria esse dinheiro em duas coisas, infraestrutura e qualificação de gente”, defende Tania. Ataliba vê risco de a participação do Nordeste no PIB voltar a cair.

Falta articulação

Para os dois economistas, todos esses problemas esbarram num obstáculo comum. Desde Celso Furtado, que colocou o Nordeste na agenda nacional, a região não voltou a ter um pensamento regional unificado. O Consórcio Nordeste ensaiou esse papel na pandemia, mas a experiência não avançou como se esperava.

A bancada nordestina, uma das maiores do Congresso, atua com interesses divergentes. Os estados disputam projetos que poderiam ser complementares, como a Transnordestina, que interessa ao Maranhão, ao Piauí, ao Ceará e a Pernambuco. E as instituições federais na região, como a Sudene, o Banco do Nordeste, o Dnocs e as universidades, trabalham sem coordenação. “Não existe orquestração. Fica todo mundo solto. A Sudene olha para questões específicas, sem peso político nenhum. O Banco do Nordeste tem muito dinheiro, mas também com ações específicas”, lamenta Ataliba.

“É muito difícil um estado sozinho, seja o Ceará, Pernambuco ou o Piauí, ter força para lutar por questões específicas. É dessa unidade, desse pensamento conjunto, que estamos precisando neste momento”, completa.

Segundo Ataliba, o Nordeste mudou muito nos últimos 30 ou 40 anos, mas ainda não chegou aonde a região quer chegar, e isso só vai acontecer com um esforço regional coordenado muito mais forte. “Seja com as instituições federais na região, seja com maior cooperação entre os estados, sem essa autofagia, seja com o peso da nossa representação política no Congresso dando suporte aos investimentos que precisam ser direcionados mais fortemente ao Nordeste”, sustenta.

Caminhos possíveis

Ataliba defende transformar o Nordeste numa plataforma de exportação, aproveitando a proximidade com os Estados Unidos, a Europa e a África, os portos modernos e o acordo entre a União Europeia e o Mercosul. Para isso, diz ele, é preciso um plano de internacionalização, com o envolvimento da diplomacia, e não apenas esforços isolados de cada estado.

A Carta Nordeste foi construída ao longo de seis eventos, iniciados em 2025, que reuniram mais de 30 pesquisadores para debater diversos temas. O primeiro encontro foi presencial, no Recife, e abriu a discussão. Depois vieram mais cinco, dois na Bahia e três em Fortaleza. Como o tempo não bastou para todos os assuntos, temas como meio ambiente e comércio exterior ficaram em aberto e serão aprofundados nas próximas edições.

O documento será encaminhado aos governadores e ao presidente eleitos neste ano, na aposta de que o debate ganhe força. “Talvez a chave de tudo esteja na nossa capacidade de construir essa cooperação regional”, sugere Ataliba.
Nordeste desejado

O Nordeste que Ataliba gostaria de ver tem indicadores sociais muito melhores do que os de hoje, já que a região ainda está bem atrás das principais do país. “Olhando para o Nordeste dos próximos anos, precisamos melhorar muito os nossos indicadores sociais, não ampliando os programas de transferência, mas ampliando a geração de renda do trabalho, que é a renda que realmente dá sustentabilidade”, ressalta.

“Mas temos que ser otimistas. Apesar de todos os problemas que o país atravessa, se apostarmos na democracia como instituição essencial para o nosso desenvolvimento, esse debate vai sendo colocado cada vez mais”, conclui Ataliba.






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