Nordeste precisa destravar a infraestrutura para atrair mais investimentos

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Nordeste precisa destravar a infraestrutura para atrair mais investimentos


Suape, Pecém e Itaqui já colocam a região no mapa da logística, mas rodovias ruins e ferrovias inacabadas limitam a chegada de novos negócios


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O Nordeste já reúne estruturas capazes de atrair grandes investimentos. Os portos de Suape, em Pernambuco, e do Pecém, no Ceará, são modernos, vêm batendo recordes de movimentação e despertam o interesse de investidores. A Bahia e Pernambuco abrigam as fábricas da BYD e da Stellantis, as mais modernas de todo o parque automotivo do país. E a Petrobras retomou a ampliação da Refinaria Abreu e Lima, que vai dobrar de tamanho.

Mas os investimentos privados que chegam esbarram num limite conhecido. Rodovias em mau estado, ferrovias que se arrastam há décadas e uma rede logística que não conecta bem o interior aos portos encarecem a produção e afastam novos negócios. Na avaliação de economistas e pesquisadores que estudam a região, garantir investimentos em infraestrutura é a condição para que o Nordeste continue atraindo capital privado, sobretudo agora, com o fim dos incentivos fiscais previsto pela Reforma Tributária.

“O empresário não vai para um lugar de onde a mercadoria dele não sai nem da fábrica”, resume a economista Tania Bacelar, sócia-fundadora da Ceplan Consultoria Econômica e Planejamento.

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Portos em alta

Os portos são hoje o principal trunfo logístico da região. Em 2025, os terminais nordestinos movimentaram 296 milhões de toneladas, o equivalente a 21% de toda a carga portuária do país, segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). A maior parte sai do Maranhão, onde estão o Terminal de Ponta da Madeira, da Vale, e o Porto do Itaqui, em São Luís, que movimentou 36,8 milhões de toneladas no ano.

No Ceará, o Complexo do Pecém bateu recorde em 2025, com 20,9 milhões de toneladas, e ampliou em 27% a movimentação de contêineres. O porto tem rotas para 29 terminais nos Estados Unidos, na Europa, na Ásia e na América do Sul e abriga uma Zona de Processamento de Exportação que atrai projetos de data centers e de hidrogênio verde.

Em Pernambuco, Suape construiu a sua competitividade ao longo de quase cinco décadas. Inaugurado em 1978, a cerca de 40 quilômetros do Recife, o complexo reúne num mesmo território, de 17,3 mil hectares, um porto de águas profundas, uma extensa área industrial e conexões logísticas com o restante do país. A localização, próxima às principais rotas marítimas, facilita o acesso aos mercados internacionais, sobretudo à Costa Leste dos Estados Unidos e à Europa. Por terra, o porto se liga a Pernambuco, aos estados vizinhos e às demais regiões pela BR-101, pela PE-60 e pela Via Expressa.

Nos últimos anos, o porto investiu para receber navios maiores. As dragagens concluídas deixaram o canal externo homologado para 20 metros de profundidade, com 18,3 metros no acesso ao porto externo e 16,2 metros no acesso ao porto interno, o que abre espaço para novas linhas e rotas internacionais. As obras de recuperação do molhe de abrigo, de R$ 123 milhões, estão com 45% dos serviços concluídos, e a dragagem dos futuros cais 6 e 7 aguarda aprovação. O avanço mais recente é o terminal de contêineres da

APM Terminals, do grupo Maersk, concluído em junho de 2026, com investimento superior a R$ 2,2 bilhões. É o primeiro terminal totalmente eletrificado da América Latina e amplia em cerca de 55% a capacidade do complexo para movimentar contêineres.

A estrutura explica a chegada de grandes empresas. Suape abriga cerca de 90 empresas em operação, que geram mais de 30 mil empregos diretos e indiretos, e acumula R$ 74,5 bilhões em investimentos privados desde a sua implantação, em segmentos como petróleo e derivados, petroquímica, alimentos e bebidas, energia, indústria naval, farmacêutica e transporte de veículos. Um novo ciclo começa com os combustíveis de baixo carbono. Duas plantas de e-metanol, produzido a partir de hidrogênio verde, somam cerca de R$ 4 bilhões em investimentos previstos, da dinamarquesa European Energy e da GoVerde.

Os resultados aparecem na movimentação de cargas. De janeiro a agosto de 2026, Suape movimentou 15,3 milhões de toneladas, alta de 22,8% em relação ao mesmo período do ano anterior, e registrou em agosto a maior movimentação mensal da sua história, impulsionada pelo aumento da produção da Refinaria Abreu e Lima. Em 2025, o porto já havia batido recorde no embarque e desembarque de veículos, com quase 84 mil unidades.

“Suape tem um papel estratégico no desenvolvimento de Pernambuco e reúne condições muito favoráveis para ampliar ainda mais essa contribuição nos próximos anos. Estamos preparando o complexo para um novo ciclo de investimentos, com expansão da infraestrutura portuária, modernização, inovação e projetos ligados à transição energética. É um conjunto de iniciativas que fortalece nossa capacidade de atrair novos empreendimentos, ampliar conexões com o mercado internacional e gerar novas oportunidades para o Estado e para o Nordeste”, afirma o diretor-presidente de Suape, Armando Monteiro Bisneto.

A trajetória do complexo mostra que a infraestrutura leva tempo para dar retorno, mas compensa. Tania lembra que Pernambuco passou quatro décadas construindo Suape até que, num momento favorável da economia nacional, o porto se tornasse uma vantagem competitiva importante para atrair investidores. Na Bahia, o complexo portuário formado por Salvador, Aratu e Ilhéus completa a rede que conecta a região ao comércio exterior.

Indústria chegou


BYD/Divulgação
Fábricas da BYD, em Camaçari, e da Stellantis, em Goiana, colocam o Nordeste no centro da indústria automotiva mais moderna do país Fábricas da BYD, em Camaçari, e da Stellantis, em Goiana, colocam o Nordeste no centro da indústria automotiva mais moderna do país – BYD/Divulgação

A presença dessa estrutura ajuda a explicar a escolha do Nordeste por grandes investimentos industriais. Enquanto a indústria automobilística enfrenta dificuldades no Sudeste, as plantas mais modernas do setor estão na região. Em Camaçari, na Bahia, a BYD investiu R$ 5,5 bilhões, já produziu 100 mil veículos e emprega 5,5 mil trabalhadores diretos. Em Goiana, em Pernambuco, a Stellantis anunciou R$ 13 bilhões para os próximos anos, com a produção de modelos híbridos e da marca chinesa Leapmotor.

No complexo de Suape, a Petrobras retomou as obras do segundo trem da Refinaria Abreu e Lima (Rnest), com investimento estimado em R$ 12 bilhões. Quando estiver concluída, em 2029, a refinaria vai dobrar a capacidade de processamento, de 130 mil para 260 mil barris de petróleo por dia, e se tornar a segunda maior da companhia.

Os números confirmam a tendência. Segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Sudeste e o Sul perderam participação no valor da produção industrial do país, enquanto o Nordeste seguiu o caminho inverso e ganhou espaço.

Gargalo rodoviário

O que trava a expansão está longe dos portos. Segundo a Carta Nordeste, documento do FGV Ibre que reuniu mais de 30 pesquisadores, cerca de 28% das rodovias da região estão em estado ruim ou péssimo. Um levantamento do Banco Mundial citado no documento estima que, somando saneamento, energia, telecomunicações e rodovias, cada estado nordestino precisaria investir entre 40% e mais de 60% do seu PIB para fechar o déficit de infraestrutura. As rodovias são o setor com maior carência. No Piauí, a necessidade chega a 40,5% do PIB estadual.

O problema também é sentido nas novas fronteiras agrícolas. No Matopiba, onde a soja segue em grande parte para exportação pelos portos do Itaqui e do Pecém, o chefe-geral da Embrapa Meio-Norte, Anísio Lima Neto, aponta como gargalos a armazenagem, a energia e as estradas. “Não é que seja ruim, é que pode melhorar, principalmente a malha viária de acesso às fazendas”, avalia.

Trilhos atrasados


Divulgação/MDR
Ministro do TCU quer “alinhar” entendimento sobre retomada das obras da Transnordestina Ministro do TCU quer “alinhar” entendimento sobre retomada das obras da Transnordestina – Divulgação/MDR

Nas ferrovias, a situação é mais delicada. A Transnordestina, concedida em 1997 e com obras iniciadas em 2006, ainda não foi concluída. O trecho entre Eliseu Martins, no Piauí, e o Pecém, com 1.206 quilômetros, recebeu reforço de R$ 600 milhões do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste neste ano. Já o ramal até Suape segue parado, à espera de uma decisão do Tribunal de Contas da União, marcada para 14 de outubro.

Na Bahia, a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), que deveria ligar o oeste produtor ao Porto Sul, em Ilhéus, também enfrenta atrasos. A concessionária responsável pelo primeiro trecho e pelo porto está inadimplente com as obras e negocia a venda da concessão.

Enquanto isso, o país planeja uma nova malha ferroviária concentrada no Sul e no Sudeste, ligada às rotas de integração com a América do Sul e o Pacífico. A Carta Nordeste alerta para o risco de a região ficar de fora desse movimento e limitada ao comércio pelo Atlântico no que chama de “século do Pacífico”.
Para o economista Flávio Ataliba, coordenador do Centro de Estudos para Desenvolvimento do Nordeste do FGV Ibre, a disputa entre estados agrava o atraso.

“A Transnordestina interessa ao Maranhão, ao Piauí, ao Ceará e a Pernambuco e vai beneficiar todo mundo. Muitos projetos não são exclusivos, são complementares”, pondera.

Investir para atrair

A urgência aumenta com a Reforma Tributária. Por décadas, os estados nordestinos usaram incentivos do ICMS para atrair empresas. Com o fim desse instrumento, a vantagem competitiva terá de vir de outros fatores, como custo logístico, energia e mão de obra qualificada. A Carta Nordeste defende que os recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional priorizem justamente a infraestrutura logística e energética, capaz de reduzir o custo de produção na região.

Tania segue a mesma linha. Ela defende que o novo fundo seja aplicado em infraestrutura e na qualificação de pessoas e que os empresários participem das decisões sobre o uso do dinheiro.

Os portos modernos já existentes mostram o caminho. Para Ataliba, o Nordeste reúne condições para se tornar uma plataforma de exportação, pela proximidade com os Estados Unidos, a Europa e a África.

“Temos produtos com potencial para serem vendidos a outros países, portos modernos com capacidade e a proximidade física dada pela própria natureza”, destaca. Falta, ligar o interior a esses portos, com estradas e trilhos à altura dos investimentos que a região já atraiu.






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