Rostos escondidos, volumes extravagantes e acessórios tão chamativos quanto as roupas marcaram os desfiles de Martins e Artemisi nesta quarta, na São Paulo Fashion Week. As duas marcas apresentaram propostas distintas no Pavilhão das Culturas Brasileiras, no parque Ibirapuera, mas compartilharam o interesse pelas silhuetas teatrais e pela ocultação das identidades.
A chuva que atingiu a cidade deixou parte do público ilhada sob a marquise do pavilhão por alguns instantes, mas cessou antes dos desfiles e não impediu as apresentações. Na Martins, o estilista Tom Martins reuniu elementos de criadores que marcaram sua formação —Marc Jacobs, Martin Margiela, Vivienne Westwood, Alexander McQueen e John Galliano. A coleção incorpora influências desses estilistas a uma proposta que mistura códigos urbanos, referências pop e o oversized clássico da marca.
O resultado é uma colagem, com o xadrez e as estampas florais e de frutas dividindo espaço com superfícies brilhantes, rendas e tecidos de aspecto mais delicado. A variedade também estava na combinação de materiais, com denim, organza, plumas e brocados aparecendo em sobreposições que exploravam diferenças de textura e transparência.
Saltos transparentes com meias coloridas apareciam ao lado de tênis Converse, enquanto tecidos imitando franjas davam movimento às roupas. Os modelos desfilaram com o rosto coberto por máscaras, ora transparentes, ora opacas, que acrescentavam outra camada à composição.
Na Artemisi, alguns rostos também desapareciam sob máscaras, mas a ocultação vinha acompanhada de uma estética mais próxima da fantasia, com jogos de luz e sombra que engrandeciam e contornavam a silhueta dos modelos.
Na coleção “The Holy Matter”, ou a matéria sagrada, a estilista Mayari Jubini levou à passarela corsets de formas esculturais, aplicações de penas e estruturas metálicas, além de chapéus pontudos que ampliavam as silhuetas. A temporada se apoia em referências à alquimia e ao misticismo para tratar a roupa como resultado de uma transformação, tanto da matéria quanto da aparência de quem a veste.
Com assinatura do maquiador Helder Rodrigues, a maquiagem e os penteados, pensados individualmente para cada look, acompanhavam essa lógica, com detalhes no rosto, nas pernas e nas unhas de cada modelo. “No caso da Artemisi, as peças já têm uma narrativa super poderosa e são únicas. São peças de alta costura, feitas no corpo da modelo, bordadas durante um mês, são esculturais. Aqui não cabia trabalhar pouco”, afirma Rodrigues.
As peças combinam recursos digitais, como a impressão 3D, e técnicas que exigem execução manual, como bordados e aplicações de pedrarias desenvolvidos ao longo de meses. “Eu acho que são dois universos que se complementam e que não são opostos”, diz Jubini sobre a relação entre tecnologia e trabalho manual.
Para ela, a combinação dos dois processos ganha importância em um momento de avanço da inteligência artificial. “A manualidade é tão complexa quanto uma tecnologia, e a união delas pode resultar nessa imagem extremamente forte que a gente trabalha.”















