Para Ernani Carvalho, mobilização nas ruas e mudança na percepção dos eleitores ajudam a explicar o novo cenário da disputa presidencial
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A primeira pesquisa Quaest sobre o segundo turno da eleição presidencial, divulgada nesta quarta-feira (14), aponta um cenário de disputa acirrada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). O parlamentar aparece com 46% das intenções de voto, contra 44% do petista, em empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
Em entrevista à Rádio Jornal, no programa Passando a Limpo, o cientista político Ernani Carvalho avaliou que, apesar da vantagem numérica de Flávio, os resultados trazem sinais favoráveis à campanha de Lula.
Entre eles, estão a ausência de uma disparada do adversário, a mobilização petista após o primeiro turno e o aumento do percentual de eleitores que temem a volta da família Bolsonaro ao poder.
“Essas oscilações foram positivas para o Lula, se a gente observar”, afirmou o professor, ao analisar a mudança no cenário eleitoral desde o resultado do primeiro turno, quando Flávio terminou à frente do presidente, com uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos.
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Para Carvalho, a disputa passou por três momentos. O primeiro foi de vantagem de Lula nas pesquisas, que alimentou a expectativa de uma possível vitória ainda no primeiro turno. O segundo veio com a ultrapassagem do petista por Flávio Bolsonaro na apuração de 4 de outubro.
Agora, na terceira etapa, os levantamentos indicam uma disputa mais equilibrada, após a distribuição dos votos dos candidatos que ficaram fora do segundo turno.
O cientista político destacou que parte dos eleitores de outras candidaturas migrou para os dois concorrentes, enquanto houve redução na parcela que pretende votar em branco ou nulo ou se abster.
Na avaliação dele, Lula conseguiu atrair parte desse eleitorado e impedir que a diferença em relação ao adversário aumentasse.
Medo da volta dos Bolsonaro se iguala ao receio da reeleição de Lula
Um dos dados destacados por Carvalho é o equilíbrio entre os eleitores que temem a volta da família Bolsonaro ao poder e aqueles que têm receio da continuidade do governo Lula. Segundo a Quaest, 43% dos entrevistados apontam cada um dos dois cenários como o que mais lhes causa medo.
O resultado representa uma mudança em relação ao levantamento anterior ao primeiro turno, quando o receio da continuidade de Lula era maior. Para o professor, a alteração merece atenção, sobretudo entre os mais jovens, faixa em que ele identificou um avanço do temor em relação à família Bolsonaro e uma redução do receio de continuidade do atual governo.
A rejeição também permanece elevada e semelhante entre os dois candidatos. De acordo com a pesquisa, 54% dos entrevistados afirmam que não votariam em Flávio Bolsonaro de jeito nenhum, enquanto 53% dizem o mesmo sobre Lula.
Carvalho ponderou, porém, que a dinâmica da rejeição não deve ser analisada isoladamente. Os dados sobre a motivação do voto mostram que 73% dos eleitores de Lula afirmam escolhê-lo por considerá-lo o melhor candidato, enquanto 23% dizem votar nele para impedir a volta da família Bolsonaro ao poder.
Entre os eleitores de Flávio, 53% apontam a preferência pelo candidato e 42% afirmam querer tirar Lula e o PT do governo. “É um jogo muito focado no estoque de votos que cada um tem, dado o grau de polarização que nós temos hoje no Brasil”, avaliou o cientista político.
Mobilização nas ruas e disputa por novos eleitores
Na análise de Carvalho, a reação da campanha de Lula após o primeiro turno foi um dos fatores que contribuíram para conter o avanço do adversário. Enquanto Flávio Bolsonaro concentrou esforços na articulação política e recebeu o apoio de partidos e setores do Centrão, o presidente intensificou a mobilização nas ruas e entre militantes.
O professor ressaltou que a campanha petista também passou a buscar espaços que, segundo ele, eram anteriormente mais dominados por candidatos da oposição, como os segmentos de microempreendedores individuais (MEIs) e de jogadores de videogame.
Para Carvalho, os movimentos fazem parte de uma disputa que não se resume à conquista de novos eleitores. Também é necessário manter o eleitorado já mobilizado, especialmente diante da possibilidade de aumento da abstenção no segundo turno. “O problema da eleição hoje não é só você catar novos eleitores, é você manter o seu estoque de votos”, afirmou.
Questionado sobre o impacto de atos de campanha e ações de comunicação mais informais, como a participação de Lula em conteúdos voltados ao público jovem, o cientista político disse que os candidatos buscam diferentes estratégias para ampliar seu alcance.
Na avaliação dele, a campanha presidencial tem procurado diversificar os espaços de atuação para alcançar eleitores que antes não estavam no centro de suas estratégias.
Flávio Bolsonaro ainda mantém uma vantagem
Apesar dos sinais favoráveis a Lula, Carvalho ponderou que Flávio Bolsonaro ainda mantém uma vantagem decorrente do resultado do primeiro turno e da capacidade de articulação política em municípios do interior.
Segundo o professor, a presença de partidos de direita e do Centrão nas administrações municipais contribui para estruturar redes de apoio ao senador.
Ele observou que Flávio ampliou sua votação em cidades pequenas e venceu em municípios onde o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, não havia conseguido maioria. Para Carvalho, esse cenário evidencia a importância das estruturas partidárias locais na transferência de votos.
Com os votos dos candidatos derrotados já em processo de redistribuição e a disputa concentrada na manutenção das bases eleitorais e na conquista de parcelas ainda disponíveis do eleitorado, o professor avalia que o segundo turno permanece aberto. “Agora as armas estão postas e vamos ver as cenas dos próximos capítulos”, concluiu.














