Todo projeto autoritário começa com uma promessa bonita de libertação coletiva e termina sufocado pela paranoia de um único déspota. Em “Outra Revolução dos Bichos”, a Cia Teatro Esplendor transformou essa verdade histórica em método de palco: pegou a fábula épica de George Orwell —que já tinha estreado com vinte atores e palco cheio— e foi enxugando tudo até sobrar apenas Gustavo Damasceno sobre um tablado preto.
A aposta de Bruce Gomlevsky e Daniela Pereira de Carvalho acerta em cheio o espectador. Ao transformar uma rebelião comunitária em monólogo, o espetáculo mostra que o colapso moral de uma sociedade não se assiste de camarote: ele acontece, músculo por músculo, dentro da nossa própria cabeça.
A montagem parte de uma escolha formal implacável: o palco vazio exibe apenas a plataforma preta e a luz cirúrgica de Elisa Tandeta, que recorta o nada em contrastes de sombra e claridade. Não há máscaras, focinhos postiços, nem próteses.
Em pé diante do público antes do espetáculo, Gustavo Damasceno quebra a solenidade para, em seguida, saltar sobre o chão escuro e reinventar a anatomia humana. A transformação dispensa caricaturas ou ruídos infantis. O pescoço encurtado, o peso descarregado sobre as vértebras lombares e os dedos curvados como garras e patas bastam para erguer o porco Napoleão diante da plateia.
O que se vê nessa transição é a aplicação rigorosa da mímica dramática de Étienne Decroux (1898–1991) e das ações físicas pesquisadas pelo coletivo carioca. O mesmo esqueleto que sustenta a empáfia do tirano de repente se estende e se curva na ingenuidade sacrificial do cavalo Sansão ou se contrai no desamparo da cabra Maricota.
Ao concentrar carrascos e vítimas na mesma ossatura, o espetáculo tira do espectador sua posição de juiz confortável. Estamos trancados na mente do próprio déspota, onde covardia, vaidade e delírio autoritário convivem em estado febril.
Ao afastar o texto de 1945 do seu nicho histórico imediato —a sátira aos desvios soviéticos sob Josef Stálin—, a dramaturgia de Daniela Pereira de Carvalho desenterra a urgência subterrânea de Orwell para falar diretamente ao presente.
As adulterações noturnas dos mandamentos do Animalismo, a falsificação deliberada da memória coletiva e o conformismo covarde dos governados deixam de ser alegorias para se tornarem o espelho cru da corrosão democrática recente. A demagogia não aparece como um monstro distante, mas como uma força sedutora, sustentada pelo silêncio de quem prefere não ver o abismo enquanto os pactos civilizatórios caem um a um.
Ao provar que o teatro despido de artifícios é capaz de mobilizar a imaginação de forma mais fulminante do que qualquer aparato ilusionista, a encenação de Gomlevsky e a atuação de Damasceno mostram que o teatro atinge seu máximo ímpeto político justamente quando renuncia a tudo, exceto à tensão vital entre a palavra, o espaço e a musculatura do ator.
Três perguntas para…
… Gustavo Damasceno
O solo exige alternâncias corporais instantâneas entre os personagens-animais. Qual é o custo muscular de sustentar essa galeria de arquétipos na mesma carcaça ao longo de uma temporada inteira?
Devido ao longo período de ensaios, e o tempo de apresentação do espetáculo, o corpo foi encontrando um lugar mais confortável para essa jornada psico-física. E ao mesmo tempo, fui adquirindo uma organicidade na partitura: a cada metamorfose, a voz e o corpo, assim como os estados emocionais, se ativam.
É quase como se cada personagem atuasse como um gatilho global, que desperta esse arquétipo, sem necessidade de um processo psicológico. O treinamento diminuiu o tempo entre o impulso interno e a manifestação expressiva, sem precisar do intelecto ou raciocínio mental.
O que se perdeu e o que se revelou de mais visceral na fábula de Orwell quando Bruce Gomlevsky e Daniela Pereira de Carvalho decidiram trancar toda a fazenda dentro de você?
Essa redução radical de recursos cênicos, a decisão de colocar a fazenda inteira num só ator, sem cenário, figurino, nem mesmo trilha sonora foi o ponto de partida dessa outra revolução.
Só o corpo e a voz, levados ao extremo nessa transposição de personagens e ambientes. Essa simplicidade traz a narrativa para um teatro despido de artifícios, onde a plateia e o ator trabalham juntos na construção desse espaço, através da imaginação e da presença.
O público não só está assistindo a revolução na fazenda, mas, faz parte dela, como personagem —votando nas assembleias, repetindo palavras de ordem, reagindo à tragédia; e como parceiro criativo— cocriando as imagens, personagens e ambientes desenhados no vazio.
A peça fala abertamente da velocidade com que mandamentos são rasurados e da covardia de quem assiste calado ao desmonte civilizatório. Em que medida a encenação conversa com as fraturas da democracia brasileira atual sem panfletar?
O aspecto fabuloso do texto, a transposição de conflitos humanos para o reino animal, dá a distância épica necessária para que o público assista a tragédia dessa fazenda sem notar que está diante de um espelho distorcido.
Quando a tragédia da tirania se instaura, o conto se torna fato, e a fantasia se mostra real. Na cena final, o porco se ergue em duas patas, em homem transformado, e declara a máxima pontual de Orwell: todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que os outros.
Teatro Estúdio – Rua Conselheiro Nébias, 891, Campos Elíseos, região central. Sábado e domingo, 20h. Duração: 80 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 50 (meia-entrada) em sympla.com.br
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