Meio romântico, meio dark, afirma Alexandre Herchcovitch sobre seu desfile desta terça-feira (13), que abriu a São Paulo Fashion Week. A apresentação na faculdade Fundação Armando Álvares Penteado foi talvez a mais variada desde que o estilista voltou a desenhar para a sua marca, há quatro anos.
Isso porque o desfile, levemente inspirado na “belle époque” do final do século 19 e início do 20, mostrou a ampla gama da costura do estilista. Um bloco trouxe looks góticos e sexy, a exemplo de um maiô corset em couro e borracha que deixava o bumbum à mostra, estilo fio dental, e de um vestido preto levíssimo, semitransparente, com um ornamento de renda em formato de folha preso no bico dos seios.
Outra parte do desfile teve o streetwear que fez o nome do estilista, com blusões de capuz em pelúcia e bermudas, além de partes de cima em que a junção de diferentes tecidos formava um coração. Uma terceira leva trouxe vestidos, tanto em jacquard lurex brilhoso, com cara de roupa de festa, quanto em renda bordada num amarelo mais pálido e inocente.
“Não consigo mais fazer uma coisa só, do começo ao fim”, conta Herchcovitch, numa conversa após o desfile. “É uma liberdade que não posso perder e não quero perder, a de fazer várias coisas diferentes simultaneamente.”
Segundo ele, é importante manter o espírito criativo por questões comerciais, ou seja, para atender clientes distintos, seja quem compra um casaco de pele no verão para usar em outro momento ou os artistas e cantores para quem desenha looks mais extravagantes.
Embora o desfile tenha sido anunciado como de outono 2026 e verão 2027, “a estação é irrelevante para mim”, diz. Prova disso foram os looks, estilo Hollywood dos anos 1940, desfilados por Marina Dias e Johnny Luxo —longos casacões em pelúcia e plumas que protegiam o corpo, combinados com sapatos de salto alto.
Ambos de cabelo armado, estilo senhora antiga, Dias e Luxo pareciam encarnar um deboche das mulheres conservadoras, ao contrário dos modelos que mostraram looks de telinha com muita pele à mostra, exalando liberdade e sexualidade. Foi um desfile, segundo Herchcovitch, com muitos personagens.
Esse deboche virou tensão no desfile da Forca. Antes de os modelos entrarem, carros de corrida fizeram manobras e deram cavalinhos de pau no estacionamento do estádio do Pacaembu, onde a plateia estava reunida, numa performance de alta velocidade tão nervosa quanto o segundo turno das eleições no Brasil.
Motores roncavam em volume de estourar o tímpano, o cheiro de borracha de pneu queimado era fortíssimo e pedrinhas do asfalto saltavam em quem estava na primeira fila devido à violência das freadas, que também destroçavam pedaços das latarias dos carros.
Era um clima agressivo, que combinou com a coleção apresentada em seguida, a melhor da marca nos seus quatro anos de atividade. Roupas rasgadas ou de aspecto queimado, peças em couro e com tachinhas mostraram a face punk da Forca, etiqueta fresca e com ímpeto de inovar. Coturnos e sapatos com plataforma, mules de sola tratorada e bolsas feitas de pneu foram os complementos certeiros.
Os modelos entraram fumando na passarela de asfalto, com a palavra Forca escrita no rosto, no torso ou nas costas, num desfile iconoclasta e nada comportado. Esse casting de fim do mundo tinha cabelo moicano como os punks e maquiagem preta carregada ao redor dos olhos, numa apresentação com cara de performance.
“Preservar nosso santuário interno contra o mundo caótico lá fora, que demanda muito da gente, que esgota”, diz Silvio De Marchi, um dos diretores criativos da marca, é a proposta conceitual da coleção, com previsão de chegar às lojas em fevereiro do ano que vem.
A São Paulo Fashion Week acontece no meio do segundo turno de uma eleição que dividiu o país. Cabe exigir da moda, cuja função é criar roupas bonitas e fomentar a beleza estética, que se envolva com política? Talvez não, mas isso não impede os estilistas de se manifestarem à sua maneira.
No desfile de Herchcovitch, a deputada Erika Hilton estava na primeira fila e defendia, em entrevistas, o quanto roupas de moda podem dar segurança a quem as veste. Na Forca, Silvio De Marchi tirou o casaco para os fotógrafos ao final da apresentação e saiu de costas, exibindo uma regata com a estampa de uma grande estrela vermelha. Está dito.













