Mostra em Washington relê a bandeira americana e revisita a história dos EUA

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Mostra em Washington relê a bandeira americana e revisita a história dos EUA


Ela tremula em desfiles patrióticos, acompanha soldados rumo à guerra, marca a chegada do homem à Lua e aparece em protestos, marchas pelos direitos civis e, em tragédias, como no assassinato do presidente John F. Kennedy. Ao longo de quase 250 anos, a bandeira americana atravessou alguns dos momentos mais decisivos da história dos Estados Unidos.

Seu desenho também mudou. Criada em 1777, a bandeira passou por 26 alterações até chegar ao formato atual, em 1960, quando ganhou a 50ª estrela, após a incorporação do Havaí. O país representado por ela, porém, continuou se transformando.

É justamente essa trajetória que a Galeria Nacional de Arte de Washington revisita na exposição “American Icon: The US Flag in Art” (“Ícone Americano: A bandeira dos EUA na Arte”), organizada como parte das comemorações dos 250 anos da independência americana.

Reunindo cerca de 30 pinturas, fotografias, gravuras, esculturas e vídeos produzidos entre o fim do século 19 e os dias atuais, a mostra acompanha como diferentes artistas reinterpretaram a bandeira conforme mudavam também os Estados Unidos.

Entre eles estão alguns dos principais nomes da arte e da fotografia americana, como Jasper Johns, Gordon Parks, Dorothea Lange, Faith Ringgold, Robert Frank e Childe Hassam. Em comum, todos usam a bandeira como ponto de partida para discutir não apenas patriotismo, mas também identidade, pertencimento, guerra, imigração e as contradições da própria história americana.

“O projeto surgiu justamente da percepção de quantas obras do nosso acervo utilizavam a bandeira americana”, afirma E. Carmen Ramos, diretora de curadoria e conservação da Galeria Nacional. Segundo ela, a proposta foi mostrar como artistas “interpretam e reinterpretam a bandeira americana a partir do momento histórico em que vivem”.

A primeira obra da exposição resume essa ideia. “Allegory of Freedom” (alegoria da liberdade, em português), produzida durante a Guerra Civil por um artista não identificado, retrata um homem negro em posição central em um momento em que pessoas antes escravizadas passavam a ser reconhecidas como cidadãs. Para Ramos, a pintura representa um período de transição na identidade nacional americana e na própria ideia de quem fazia parte daquele país.

Poucos passos adiante, a bandeira aparece em um dos episódios mais contraditórios da história dos Estados Unidos. Conhecida por retratar a Grande Depressão, Dorothea Lange tem fotografias exposta nesta mostra.

Ali, está exposta a imagens alunos nipo-americanos de uma escola pública de San Francisco fazendo o juramento de lealdade diante da bandeira em abril de 1942 —após o ataque de Pearl Harbor. Dias depois, muitas famílias de origem japonesa seriam enviadas pelo próprio governo para campos de encarceramento durante a Segunda Guerra Mundial.

A mesma bandeira reaparece na fotografia “American Gothic” (americano gótico, em português), de Gordon Parks, atrás de uma faxineira negra que segura uma vassoura e um esfregão, em uma das imagens mais conhecidas sobre a segregação racial americana.

Em “The Flag Is Bleeding” (“a bandeira está sangrando”, em português), de 1967, Faith Ringgold transforma o símbolo nacional em uma bandeira ensanguentada durante o auge do movimento pelos direitos civis. Sob ela, um homem branco, uma mulher branca e um homem negro aparecem ligados uns aos outros, incapazes, porém, de esconder a tensão estampada em seus rostos.

“A exposição convida o visitante a enxergar essa complexidade”, afirma Ramos. “Há obras que falam sobre patriotismo e apoio às tropas, mas também trabalhos produzidos em momentos de grandes transformações históricas.”

Mas nem toda bandeira da mostra nasce de um conflito histórico. Um dos artistas conhecidos pelas obras sob a bandeira americana e um dos principais nomes da pop art, Jasper Johns transforma o símbolo nacional em objeto de experimentação.

Em uma das obras expostas, produzida em relevo de chumbo, ele retira justamente aquilo que torna a bandeira imediatamente reconhecível: suas cores. Restam apenas as estrelas e listras gravadas sobre uma superfície cinzenta.

Ramos diz que esse era justamente um dos interesses do artista. Citando uma frase de Johns, ela afirma que a bandeira é “uma imagem que a mente já conhece, mas que raramente é realmente observada”. A obra, diz, convida o público a olhar novamente para um símbolo tão familiar que costuma passar despercebido.

Essa liberdade de interpretação atravessa toda a exposição. Se Johns reduz a bandeira à sua forma, outros artistas a transformam em memória pessoal.

É o caso da fotógrafa Sheila Pree Bright, que percorreu os Estados Unidos entre 2006 e 2008 retratando jovens com a bandeira americana enquanto pedia que completassem uma frase simples: “America is…” (“América é…”).

As respostas revelam experiências muito diferentes de pertencimento. Uma jovem imigrante chinesa descreve o desconforto de viver entre duas culturas. Uma americana de origem sudanesa associa a bandeira às oportunidades encontradas por sua família no país. Outro participante a vê como símbolo de esperança. “Você encontra toda uma gama de perspectivas individuais sobre a nação”, resume Ramos.

Também há espaço para leituras mais ambíguas. Em uma fotografia do renomado Robert Frank, conhecido pela série “Os Americanos”, duas mulheres observam um desfile da janela enquanto uma enorme bandeira ocupa quase toda a fotografia. O tecido, ao mesmo tempo em que domina a cena, revela e esconde as personagens.

Em contraste, Allies Day (“Dia dos Aliados”), de Childe Hassam, registra uma Nova York tomada por bandeiras americanas e de países aliados durante a entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial. Ali, elas aparecem como símbolo de união e celebração nacional, lembrando que a exposição também reserva espaço para representações de patriotismo, e não apenas de crítica.

Embora inaugurada em um momento em que a bandeira voltou ao centro do debate político americano — frequentemente associada a discussões sobre patriotismo, imigração e identidade nacional —, a mostra evita referências diretas a governos ou presidentes contemporâneos.

As obras, explica Ramos, foram selecionadas exclusivamente do acervo permanente do museu, e a intenção foi mostrar como diferentes gerações de artistas reinterpretaram esse símbolo ao longo da história, e não comentar um momento político específico.

O percurso conta ainda com uma instalação em vídeo da artista Holly Bass, construída a partir de discursos e escritos de mulheres negras como Fannie Lou Hamer e Shirley Chisholm.

Para Ramos, a obra sintetiza o espírito da exposição ao reunir história nacional, memória familiar e experiência pessoal. Foi por isso que ela foi escolhida para receber o visitante logo na entrada da mostra: uma introdução à ideia de que, por trás de um dos símbolos mais conhecidos dos Estados Unidos, existe uma infinidade de histórias.



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