O artista Julio Le Parc, reconhecido por investigar propriedades da luz, das cores e do movimento, morreu neste sábado, aos 97 anos. A informação foi divulgada pela galeria Nara Roesler, que representa, no Brasil, o expoente da arte cinética nascido na Argentina e radicado em Paris, na França.
“Nós lamentamos profundamente a perda de Julio Le Parc, um amigo e artista excepcional cuja obra transcendeu as fronteiras da arte. Sua paixão pela criatividade e sua capacidade de transformar luz e movimento em experiências inesquecíveis continuarão inspirando gerações”, disse Nara Roesler em publicação nas redes sociais da galeria.
Ele estava internado há dois dias em um hospital na França e, nos últimos anos, sofreu um acidente vascular cerebral, enfrentou internações recorrentes por causa de insuficiências respiratórias e enfrentou a Covid-19 duas vezes durante a pandemia. Nos últimos meses de vida, Le Parc recebia cuidados diários.
Um dos fundadores do Grav, isto é, Grupo de Pesquisa em Artes Visuais que desafiou tradições artísticas na década de 1960, as obras de Le Parc subvertem limites das artes plásticas via efeitos provocados pela luz no espaço e técnicas históricas como o uso de acrílico em tela.
Nascido em 1928, na cidade de Palmira, na província de Mendoza, na Argentina, ele viveu uma infância difícil em um bairro humilde. Filho de uma costureira e de um ferroviário, abandonou a escola quando adolescente e se dedicou ao trabalho em oportunidades diversas pelas ruas de Buenos Aires.
Em entrevista ao jornal La Nacion, em novembro de 2025, Le Parc descreveu a decisão como uma “rejeição à ordem social estabelecida”, que o afastou de uma rotina rígida e pautada pelos sistemas da academia.
Após cumprir o serviço militar, trabalhou como porteiro para o Teatro Colón, principal casa de ópera da Argentina, e atuou como figurante em produções diversas do Teatro de Los Independientes, importante companhia teatro que se destacou em Buenos Aires.
A partir daí, o artista passou a intercalar os dias de trabalho com as noites de estudo na Escola de Belas Artes de Buenos Aires, onde liderou reivindicações estudantis e achou inspiração em textos de pintores como Piet Mondrian e na obra de artistas como o francês Victor Vasarely, principal percursor da Op Art, isto é, a arte óptica.
A geometria abstrata, as ilusões de ótica e o contraste entre cores brancas e pretas, que dão a impressão de movimento, marcaram Le Parc e o levaram a se mudar para a Europa. Após conquistar uma bolsa de estudos, ele se mudou para Paris, onde viveu até o fim da vida.
Foi lá que, em 1960, ele fundou o Grav, com autores como Francisco Sobrino, Horacio García Rossi e Héctor García Miranda. Voltada a obras pequenas, desenvolvidas com materiais simples e poucos recursos, a iniciativa se estendeu até 1968 e desafiou cânones das artes plásticas.
“Não tínhamos dinheiro, mas tínhamos um lápis, um caderno”, disse ele ao jornal argentino. Comprávamos um pedaço pequeno de papelão, alguns tubos de tinta têmpera preta e aproveitávamos ao máximo o que tínhamos.”
Contrária a centralização do mercado das artes em galerias, o Grav apresentava os seus trabalhos em espaços alternativos e mesmo nas ruas.
Junto ao grupo, Le Parc se especializou não apenas em experimentos ópticos e cinéticos, como também em obras que desafiaram as relações entre artistas e seus espectadores. Com o tempo, ele se tornou conhecido pela diversidade cromática e pelos jogos entre luzes e sombras de suas obras e instalações.
Em 2001, teve início a parceria entre o artista e a galeria Nara Roesler. Era o começo da presença artística de Le Parc no Brasil, onde ele expôs em instituições como a Pinacoteca do Estado de São Paulo, que recebeu a sua mostra “Luz e Movimento” em 2001.
O artista também marcou presença em museus como o MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York, e sua obra está presente em coleções como a do Museu Nacional de Arte Moderna, em Paris, e o Museu de Arte Contemporânea de Chicago, nos Estados Unidos.
Em 11 de junho, terá início, no museu Tate Modern, em Londres, uma grande exposição panorâmica dedicada à obra de Le Parc, a “Julio Le Parc: Light. Colour. Action”, que ficará em cartaz até 2027.
Le Parc foi casado com a também artista Martha Slemenson, morta em 2025, e deixa três filhos, o músico e diretor artístico de seu ateliê Yamil, o cineasta Gabriel e o também artista visual Juan.














