Representações da Missa do Vaqueiro tem muitos municípios do Nordeste. A mais famosa, porém, é em Serrita, no Sertão de Pernambuco
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A Missa do Vaqueiro é uma celebração religiosa e cultural enraizada nas regiões nordestinas do Brasil, especialmente em estados como Ceará, Paraíba e Pernambuco. Trata-se de uma cerimônia religiosa dedicada aos vaqueiros, homens que historicamente enfrentam o difícil trabalho no Sertão, guiando o gado pelas áreas áridas e desafiadoras do Nordeste.
A mais famosa delas acontece em Serrita, no Sertão de Pernambuco, há 56 anos vai se realizar no próximo domingo A morte do vaqueiro Raimundo Jacó, assassinado em 1954 sem que o crime fosse esclarecido, transformou-se, anos depois, em um grito de justiça idealizado pelo Padre João Câncio, por Luiz Gonzaga e pelo poeta Pedro Bandeira. Da tragédia, nasceu uma das manifestações culturais e religiosas mais emblemáticas do Nordeste, celebrada desde 1970 no mesmo chão onde Jacó tombou. Talvez seja por isso que a emoção nunca envelheça.
Tive a oportunidade de assistir a muitas delas, sempre integrando a comitiva do governador do Estado, desde que o evento passou a ter o apoio da Empetur. Quando fui pela primeira vez, imaginei encontrar apenas uma festa popular. Saí de lá entendendo que participava de um ritual de pertencimento. A Missa do Vaqueiro não homenageia apenas um homem. Reverência é uma civilização inteira construída sobre a coragem de quem aprendeu a viver onde a natureza exige tudo e oferece tão pouco.
Logo nas primeiras horas da manhã, começam a surgir os cavaleiros, vindos de todos os cantos de Pernambuco e dos estados vizinhos. Alguns percorrem centenas de quilômetros apenas para cumprir uma promessa ou renovar um compromisso silencioso com suas origens. Não há espetáculo mais bonito do que ver dezenas de gibões de couro refletindo a luz do sol. Cada chapéu gasto, cada perneira marcada pelo uso, cada sela antiga conta uma história que dificilmente caberia em um livro. O couro, ali, nunca foi adereço. É identidade. A Missa do Vaqueiro consegue reunir personagens tão diferentes sob o mesmo céu. O grande criador de gado conversa com o pequeno agricultor. O empresário vindo da capital observa, admirado, a habilidade dos vaqueiros. Autoridades circulam discretamente, cumprimentando conhecidos, enquanto famílias inteiras transformam a viagem a Serrita em uma tradição passada de pais para filhos.
O altar é feito de pedra em forma de ferradura, e a missa começa. Mas não é uma celebração qualquer. É uma liturgia onde o Evangelho conversa com o aboio. Onde as oferendas não são ouro nem prata. São selas, esporas, arreios, chapéus de couro. Instrumentos de uma vida inteira dedicada ao gado, à terra e à sobrevivência. A beleza da Missa do Vaqueiro está justamente nisso: ninguém parece mais importante do que o outro. Diante do altar erguido no Parque Estadual João Câncio, desaparecem os títulos, os cargos e as formalidades. Permanecem apenas a fé e o respeito por uma cultura que resistiu ao tempo.
A Missa do Vaqueiro de Serrita ganhou dimensão nacional quando Cadoca Pereira era secretário de Turismo do Estado e trouxe jornalistas dos principais jornais do país para cobrir o evento. Na época, a bela festa ganhou foto na capa e matérias na “Folha de São Paulo”, no “O Globo”, no “O Estado de São Paulo” e no “Correio Braziliense.”
A Fundação Padre João Câncio, que organizava o evento, passou a contestar a condução da festa pela Prefeitura de Serrita, alegando descaracterização da tradição e perda de protagonismo da entidade criada para preservar o legado do Padre João Câncio. Em 2023 e 2024, a presidente Helena Câncio afirmou publicamente que a fundação havia sido afastada da organização da festa e criticou o formato adotado pelo município, com grandes shows e mudanças na estrutura do evento. Felizmente, após mediação e negociações, Prefeitura e Fundação anunciaram um acordo para realizar uma edição única da Missa do Vaqueiro no próximo domingo. Como em todo ano de eleição, com a presença de muitos e muitos candidatos.













