Para Bruno Luperi, a morte de Benedito Ruy Barbosa representa “o último capítulo de uma grande jornada”. Neto e principal responsável por levar clássicos do dramaturgo de volta à televisão, o autor preferiu tratar a despedida como uma celebração da trajetória de quem, segundo ele, “viveu genuinamente sua obra” e dedicou a vida a contar histórias sobre o Brasil.
“O meu avô ousou sonhar e realizar grandes sonhos”, afirmou. Luperi disse que Benedito escreveu sobre “um mundo bonito” e sempre esteve “do lado certo”, retratando o país com dignidade e respeito. Para ele, as novelas do avô promoviam uma espécie de “catarse coletiva”, ao transformar conflitos humanos em narrativas épicas. “Se pudesse roteirizar a própria despedida, teria trazido mais conforto para o grande épico que ele viveu”, brincou.
Ao lembrar da convivência familiar, o roteirista descreveu Benedito como um homem de personalidade marcante e extremamente íntegro. Para o também roteirista, conviver com ele era como orbitar um grande astro. Disse que cresceu vendo o avô se emocionar com o próprio trabalho e recordou que, ainda novo, decidiu que queria viver aquilo. “Ele me deu um desejo de me emocionar com o trabalho”.
Quando Luperi estreou como coautor na novela “Velho Chico” (2016), ao lado do avô e da mãe, Edmara Barbosa, lembra de ter vivido alguns conflitos durante as gravações. Ruy Barbosa, então, teria passado um ensinamento que carrega até hoje. “Nunca aceite ser coadjuvante de algo com que você não concorda”.
Luperi também destacou que o avô mudou a maneira como a televisão retrata o interior e seus personagens ao redor do país. “Ele nunca comprou o lado do rico, gostava de olhar para as histórias de suor derramado na terra.”
Antes frequentemente associado a estereótipos como “Jeca Tatu”, “covarde” ou “preguiçoso”, o caipira ganhou profundidade em suas novelas. “Ele abriu uma estrada bonita”, afirmou. “Contou histórias, crenças e mostrou esse Brasil com um olhar de dignidade, respeito e admiração.” Para o autor, Benedito foi precursor de um gênero e ajudou a consolidar a teledramaturgia como um dos pilares da cultura brasileira, “assim como o Carnaval e o futebol”.
Responsável pelas adaptações de “Pantanal” e “Renascer“, Luperi disse sentir orgulho por ter dado continuidade à obra do avô, embora ressalte que “se sente menor que ela”. Segundo ele, as releituras não buscavam competir com os originais, mas dialogar com o presente. “Pantanal” e “Renascer” falavam com a nossa época”, disse, acrescentando que não descarta novas adaptações “desde que façam sentido” e preservem o espírito das histórias. Além disso, diz não conseguir escolher uma favorita.
O autor ainda agradece todo o carinho que ele e família estão recebendo no dia de hoje e diz que, apesar da dor, ainda é um momento de celebrar a jornada de grandeza que o avô viveu e passar a beleza que ele acreditava para frente.
Ao refletir sobre o legado do avô, Bruno se emociona ao dizer que Benedito “é uma escola” e que seu maior professor foi descansar.
“Como chegar a essa altura hoje, num Brasil tão maltratado?”, questionou, ao elogiar a poesia presente em cada capítulo escrito pelo novelista. “Hoje ele foi descansar entre os imortais.”
Benedito Ruy Barbosa morreu nesta terça-feira (7), aos 95 anos, em decorrência de complicações de insuficiência renal crônica. Internado no Hospital do Coração (HCor), em São Paulo, o dramaturgo deixa um legado de mais de duas dezenas de novelas, entre elas “Cabocla”, “Os Imigrantes”, “Paraíso”, “Pantanal”, “Renascer”, “O Rei do Gado” e “Terra Nostra”, que ajudaram a moldar a história da televisão brasileira.
O corpo do dramaturgo será velado nesta terça, entre 15h e 21h, na Funeral Home, próxima à avenida Paulista, na região central de São Paulo, com abertura para o público entre 15h e 16h.













