Há 60 anos, país parou para ver “A Banda” de Chico passar – 26/09/2026 – Ilustríssima

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Há 60 anos, país parou para ver “A Banda” de Chico passar – 26/09/2026 – Ilustríssima


[RESUMO] Em 10 de outubro de 1966, “A Banda” despontou da 2ª edição do Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, para a glória nacional, fazendo de seu autor, um jovem e tímido Chico Buarque de 22 anos, um ídolo de massa. Nos dias seguintes daquele ano, como conta a reportagem a seguir, a passagem da banda “cantando coisas de amor” foi um sopro de poesia em um Brasil acossado pela ditadura, seduzindo jovens, bicheiros, militares e nomes ilustres e díspares como Drummond, Nelson Rodrigues, dom Helder Câmara e Carlos Lacerda.

Uma canção de cinco estrofes, 33 versos e 190 palavras elevou Chico Buarque a ídolo de massa. Em 10 de outubro de 1966, “A Banda”, de Chico, e “Disparada”, de Theo de Barros e Geraldo Vandré, dividiram o primeiro lugar do 2º Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record.

O empate, solução ansiada por Chico, não as igualou em alcance. Defendida por Nara Leão, a marcha buarquiana virou um fenômeno cultural, como se a história da passagem de uma banda emanasse do imaginário brasileiro e a ele voltasse.

“Estava à toa na vida/ O meu amor me chamou/ Pra ver a banda passar/ Cantando coisas de amor// A minha gente sofrida/ Despediu-se da dor/ Pra ver a banda passar/ Cantando coisas de amor.”

O estrelato empurrou o músico de 22 anos a uma onipresença em jornais, revistas, rádios e tevês, superexposição inversa ao seu recolhimento na maturidade. Em São Paulo, algumas lojas chegaram a vender 50 compactos de Chico por hora.

Duas semanas depois do festival, a gravadora Philips divulgou os números de vendas das três gravações de “A Banda”: Nara, 80 mil cópias; Chico, 20 mil; e Quarteto em Cy, 10 mil. “Disparada” beirou as 60 mil cópias. “Quero que Vá Tudo pro Inferno”, de Roberto Carlos, 40 mil.

Os novatos só não quebraram o recorde individual de cem mil discos do gaúcho Teixeirinha, compositor de “Coração de Luto” (1960), vulgo “churrasquinho de mãe”, que ainda fazia o país chorar com uma cremação edipiana: “O maior golpe do mundo/ Que eu tive na minha vida/ Foi quando com nove anos/ Perdi minha mãe querida// Morreu queimada no fogo/ Morte triste e dolorida/ Que fez a minha mãezinha/ Dar o adeus da despedida”.

Na sequência do festival, o Jornal do Brasil reconheceu abalos no reino de Roberto Carlos: “O rei perde o povo?”. O soberano da jovem guarda via crescer o número de fãs de Chico e de Ronnie Von. “A Banda” se tornava um sucesso de inesperados desdobramentos.

Naquele outubro de 1966, em Belo Horizonte, a bicheira Benedita do Amaral abandonou a banca para ver a banda passar. À caça do compacto de Chico, fez duas buscas mal-sucedidas em lojas do centro, sem notar que era perseguida por policiais à paisana, benevolentes o bastante para lhe prometerem um exemplar. Na entrega a domicílio, os tiras encontram 122 listas do jogo do bicho em cima do toca-discos da contraventora. Sua prisão foi noticiada em 20 de outubro.

Os conterrâneos de Benedita tiveram melhor sorte no mês seguinte. Na capital mineira, Chico desfilou com quatro batedores e 35 policiais, o mesmo esquema de segurança do presidente da República, que, em todo o resto, saiu em desvantagem, pois o cantor ainda foi saudado por sete bandas e atraiu uma multidão estimada em 30 mil pessoas, na rua Bahia. Dias antes, ele dera com 10 mil fãs na praça 29 de Março, em Curitiba.

Na carreira de Chico, não haveria outro fenômeno tão avizinhado da beatlemania. Sem demora, os diretores Hugo Carvana e Antonio Carlos Fontoura trocaram a tabuleta do show do cantor com Odete Lara, na casa noturna Arpège, no Rio: saiu “Meu Refrão”, entrou “A Banda”.

A essa altura, em Minas, a Juventude Unida dos Santos Anjos da Guarda rezava com letras litúrgicas aplicadas à melodia de “A Banda”, o novo tema das missas outrora animadas pelo iê-iê-iê.

De súbito, Chico virou o padroeiro das filarmônicas do interior. O presidente de uma delas, a Banda Santa Helena de Cabo Frio, pediu que o jovem ídolo convencesse prefeitos unhas de fome a liberarem mais recursos para as associações musicais.

O elogio mais eminente apareceu no Correio da Manhã, em 14 de outubro. “Viva a música, viva o sopro de amor que música e banda vêm trazendo, Chico Buarque de Hollanda à frente, e que restaura em nós hipotecados palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas, compensando-nos da confiança perdida nos homens e suas promessas”, afirmou Carlos Drummond de Andrade.

A crônica do poeta seria estampada no livro “A Banda”, o primeiro de Chico, lançado em dezembro pela editora Francisco Alves, que reuniu suas letras e o conto “Ulisses”. No texto de apresentação, o compositor abordou o desvio em curso de sua formação em arquitetura. “A música absorveu-me de tal forma, que chego a crer que as pontes que eu construir ruirão na manhã seguinte. Mas hão de ruir em ritmo dançante.”

Naquele início de ditadura, Chico foi uma rara ponte entre correntes políticas adversárias. Em Pernambuco, dom Helder Câmara dedicou os dez minutos de seu programa televisivo à análise de “A Banda”, em cuja letra apontou sementes de meditação, “pois a gente também deve se distrair, não deixando que as preocupações dominem a nossa vida”.

Desafeto do “padre de passeata”, o dramaturgo Nelson Rodrigues surpreendeu a filha e a esposa aos prantos com a canção. Tão logo a ouviu, em casa, desejou sentar-se no meio-fio e derramar lágrimas de esguicho. Para a alegria de Nelson, o brasileiro voltava a assobiar.

Em novembro, a marcha virou a trilha informal da “frente ampla” de oposição à ditadura. Em Lisboa, ao selar a aliança com o ex-presidente Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda presenteou o ex-inimigo com o compacto de “A Banda”.

“Foi a única coisa alegre que aconteceu no Brasil nestes três anos”, disse-lhe Lacerda, também autor de uma “carta aos pais do moço da ‘Banda'”, dirigida aos amigos Maria Amélia e Sérgio Buarque de Hollanda, seu velho e então distante companheiro das rodas de conversa com o escritor modernista Mário de Andrade, na Taberna da Glória.

“O menino sai um Noel Rosa dialeticamente desenvolvido, um Noel viajado, da Vila à Tijuca, quem sabe ao Cosme Velho e à Europa. (…) A carioquice de seu samba —que ele reabilita depois de tantas experiências e desconversas brilhantes— fez exultar, disseram-me, o grande Mário Reis“, escreveu Lacerda. “Como é bom ver que vocês tiveram um filho para dá-lo à música.”

Em Brasília, o ditador Castelo Branco ouviu “A Banda” ser executada na troca de guarda do Palácio do Planalto, uma dieta musical logo acolhida pelo Panteão de Caxias, na avenida Presidente Vargas, no Rio. Três minutos depois do toque de clarim, ao meio-dia das segundas e quintas-feiras, os Dragões da Independência deixavam o Ministério da Guerra ao som de “A Banda”.

A simpatia dos fardados aflorava depois da censura militar ao samba “Tamandaré” (1965), no qual um “Zé qualquer” interpelava a efígie do patrono da Marinha numa “velha nota de um cruzeiro”. “Pois é, Tamandaré/ A maré não tá boa/ Vai virar a canoa/ E este mar não dá pé, Tamandaré/ Cadê as batalhas/ Cadê as medalhas/ Cadê a nobreza”. Meses depois, na avalanche de “A Banda”, Chico viveria o outro lado da cédula, sendo celebrado em ritmo marcial.

A febre brasileira encantou os concorrentes estrangeiros do Festival Internacional da Canção (FIC), no fim de outubro. Inge Brück prometeu gravar “A Banda” na Alemanha, Amália Rodrigues em Portugal e Mitch Murray na Inglaterra.

Numa madrugada, Daniel Faure e Guy Mardel a verteram para o francês, na intenção de que a atriz Brigitte Bardot a cantasse. À época, em tom de galhofa, Chico anunciou a um colunista que faria uma versão em esperanto. Em seu exílio, na Itália, ele a cantaria com a diva italiana Lea Massari.

A demanda da esquerda por canções de protesto não afetava as convicções do artista. “A minha música não é política. Não tem a pretensão de servir a determinadas causas ou mudar qualquer coisa, a não ser a própria música. O tema social de ‘Pedro Pedreiro’ é tão característico da música popular brasileira como as canções de amor”, disse em entrevista à revista “Manchete”.

Até ali, os jornais o apresentavam como “paulista”. Nascido no Rio, em 1944, Chico tinha dois anos ao mudar-se com a família para São Paulo, onde o pai assumiu a direção do Museu do Ipiranga. Mais tarde, em 1963, após temporada com a família na Itália, Chico matriculou-se na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, cuja sede ficava na Rua Maranhão.

Em 1966, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, autor do clássico “Raízes do Brasil” (1936), pode ter sido mais questionado sobre o filho famoso do que a respeito da história colonial do país.

Em novembro, o compositor foi anunciado como o mais jovem depoente do Museu da Imagem e do Som. Ele revelou que a inspiração de “A Banda” lhe assaltara na hora do almoço. Às vésperas do festival, dividido entre ela e “Morena dos Olhos D’Água”, cogitou inscrever a segunda.

Embora lembrasse de uma bandinha em Cataguases (MG) e da troca da guarda do Palácio de Buckingham, em Londres, não recorrera a nenhuma memória concreta. Ainda novinho, Chico evitava expor mistérios e sentidos da criação, autovigilância redobrada na vida adulta.

Naquele mesmo novembro, a cantora Maysa afrontou a unanimidade da marcha buarquiana. “Sinceramente, não gosto”, ela disse à Manchete, crítica à linha melódica, ainda que elogiasse a letra. “Isto não quer dizer que não considere Chico um dos melhores compositores brasileiros de hoje”, ressalvou.

Em 1967 e 1968, o poeta concreto Augusto de Campos fortaleceu o coro dos descontentes com a “chicolatria” aberta por “A Banda”, contrapondo as canções buarquianas à poética tropicalista insurgente. A partir das experiências formais do álbum “Construção”, de 1971, Augusto não deixou de manifestar seu apreço crescente pelo rigor de Chico.

A leitura de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, é um aspecto menos iluminado do Chico daqueles dias, um tanto encantado pelo poeta português.

Numa alusão à mudança de sua carreira, ele o citou em entrevista: “Começo a conhecer-me. Não existo./ Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram”. Desviado para a música, mas propenso à literatura, revelava estima por Flaubert, Balzac e Kafka.

Chico tivera êxito com as trilhas das peças “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, montada no Tuca, teatro da PUC de São Paulo, e “Os Inimigos”, de Górki, no Teatro Oficina —um tema desta última viraria o “Acalanto” do disco “Construção”.

A experiência de ser moído pela indústria cultural permeia a história de “Roda Viva”, o texto entregue à direção desconstrutiva de José Celso Martinez Corrêa, recém-saído da vanguarda de “O Rei da Vela”. Atacada pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC), a comédia musical encarnou o martírio do teatro brasileiro às vésperas do AI-5 (Ato Institucional Nº 5).

Aquele 1968 também ficou marcado pela ruptura de Chico com o público dos festivais. No 3º FIC, interpretada por Cynara e Cybele, “Sabiá” (parceria com Tom Jobim) venceu a engajada “Pra Não Dizer que Não Falei de Flores”, de Vandré, e mereceu rajadas de vaias no Maracanãzinho.

Naquele período, Chico vinha protegendo sua estética dos apelos políticos rasos. “Acho que tudo é válido. Detesto esse negócio de sectarismo. Tudo tem que ser bom. O samba não precisa ser necessariamente social, na base da reivindicação, do protesto. Não gosto que nada me constranja”, declarou em entrevista a Armando Aflalo, no JB, em maio de 1966, cinco meses antes do estouro de “A Banda”.

Depois de 1967, ele enfrentou os debates estéticos da geração pós-bossa nova e construiu de modo soberano o seu modelo de modernidade poético-musical. Levado ao violão por influência de João Gilberto, ele aprofundaria mais, nos anos seguintes, o elo com Tom Jobim.

Suas canções não mergulharam no ideário nacional-popular, nem o rejeitaram. Ele não hostilizou a jovem guarda e, se não aderiu ao tropicalismo, tampouco desprezou o grupo baiano, mesmo no auge das rivalidades dos festivais e das performances agressivas do movimento.

Enquanto na imprensa e nas universidades crescia uma crítica depreciativa aos tropicalistas, jogados na sarjeta da cultura de massa, como se fossem os únicos a vivenciar dilemas comerciais, Chico encomendava arranjos do álbum “Construção” ao maestro Rogério Duprat, cujo trabalho com Gil tanto lhe impressionara na apresentação de “Domingo no Parque”, no festival de 1967.

Além disso, dividiu show e disco ao vivo com Caetano Veloso (1972) —e, claro, a série de programas na Globo, em 1986—, compôs “Cálice” (1973) com Gilberto Gil, ofereceu obras-primas para Gal Costa e celebrou Rita Lee em “Paratodos”. Numa só canção, “Baioque”, demonstrou que podia estar em todas sem perder a si mesmo, indo além dos dogmas estéticos de uma parte de seus admiradores.

A julgar pela alta qualidade das canções compostas por Chico em 1964 e 1965, pode-se concluir que a maioria dos brasileiros ouvia a banda tocar, mas não sabia onde. “A Banda” era, sim, um divisor de popularidade. Antes dela, “Tem Mais Samba”, “Desencontro”, “Madalena Foi Pro Mar”, “Meu Refrão”, “Olé Olá”, “Pedro Pedreiro”, “A Rita” e “Sonho de um Carnaval” tinham expressão para o dimensionar como um dos cancionistas centrais na nova geração da música popular.

“A Banda” foi a fagulha para que outras zonas de seu repertório fossem observadas. O álbum de estreia, com a capa de retrato duplo (sério e sorridente), fixou a fluente complexidade de sua obra inicial.

De algum modo, o equilíbrio se impôs no prêmio de música do ano da Rádio JB, no qual “Olê Olá” saiu vitoriosa, e não “A Banda”. Depois da avalanche de 1966, a marcha deixaria pouco a pouco o roteiro dos shows de Chico.

Havia uma identidade entre as canções de juventude. Chico refletia o transitório, o mal-estar da passagem do tempo, tanto na rota da banda como na roda de samba suspensa ao amanhecer.

“Agora Falando Sério”, do álbum “Chico Buarque de Hollanda – Nº 4” (1970), sinalizou uma virada na poética da primeira fase, um cavalo de pau sob a forma de revisão crítica. “Dou um chute no lirismo/ Um pega no cachorro/ E um tiro no sabiá/ Dou um fora no violino/ Faço a mala e corro/ Pra não ver a banda passar”.

Desde os anos 1960, Chico protegeu de um lado a estética da política, criando uma linguagem atemporal na prosa e na poesia, e de outro observou a política sob os parâmetros de sua ética artística. A viagem recente à ilha de Cuba ilustra o método de sinalizar para a história com gestos mínimos, por vezes bastando a sua presença física.

Em 8 de abril, o perfil de Chico no Instagram anunciou a sua chegada a Havana, no dia anterior, acompanhado da advogada Carol Proner, sua esposa. “Em meio ao endurecimento das sanções contra a ilha e ao agravamento da crise econômica e energética, a viagem ocorre como demonstração de solidariedade ao povo do país.”

Depois de 34 anos de ausência em solo cubano, ele gravou “Sueño con Serpientes” em duo com Silvio Rodríguez, expoente da Nueva Trova Cubana, a geração de músicos despontada oito anos depois da revolução.

Assim, Chico pôs seu mito para agir em três planos: na música, ao renovar a ligação com a cena artística de Cuba, referência de seu trabalho desde o final da década de 1970; na política, ao reiterar a solidariedade ao povo cubano, numa fase de acirramento da asfixia econômica e de ameaça de intervenção militar americana, sem vincular-se ao governo autocrático ou a qualquer órgão oficial; e, por último, incidiu em sua própria trajetória, ao reforçar uma linha de coerência histórica.

“Sueño con serpientes/ Con serpientes de mar/ Con cierto mar, ay, de serpientes, sueño yo (…) La mato y aparece una mayor (…)/ Con mucho más infierno en digestión”, ele cantou no estúdio.

Nesses câmbios cubanos, impossível esquecer seu papel na popularização de Pablo Milanés no Brasil, ao gravar “Yolanda” e “Como se Fosse a Primavera”, esta última nascida de um poema de Nicolás Guillén.

A viagem virou um gesto político dos mais significativos da cultura brasileira neste ano. O fotógrafo Francisco Proner, filho de Carol, situou Chico no mar, na cidade e entre o povo que deseja proteger com seus poderes de trovador.

No Malecón, o calçadão costeiro de Havana, ele entoou “Pequeña Serenata Diurna” acompanhado por músicos anônimos, como se voltasse ao álbum de 1978, em que a gravou, para reafirmar a essência da canção de Rodríguez. “Cuba te quiere”, disse um dos admiradores.

Há 60 anos, “A Banda” deu amplitude popular ao escritor e compositor que, aos 82 anos, ainda reconhece nas canções o lugar de onde projeta, com assobios, seu pensamento e sua capacidade de intervenção nos vaivéns da história.



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