Um dia, o escritor George Saunders voava tranquilo de avião quando, de repente, um dos motores parou de funcionar. Então era isso, pensou. Chegou o fim de tudo. Lembrando hoje esse pânico súbito, o que mais o impressiona —porque, claro, a nave pousou e o autor sobreviveu— são as coisas em que ele não pensou naquela hora.
Não pensou em sua família. Não pensou em seus livros. Não fez um balanço de seus sucessos e fracassos. Era um animal, puro instinto, um outro tipo de ser vivo. Guardou dessa experiência um olhar inédito sobre a vida, desincumbido de qualquer peso ou de qualquer pose.
Muito desse episódio se decantou em seu novo livro, “Vigília”, romance sobre um magnata do petróleo que agoniza em seu leito de morte.
K.J. Boone é quase um vilão de cinema. Comandando sua empresa, teve tanta culpa no cartório da crise climática que se acostumou a ter seu nome estampado em cartazes de ativistas ambientais. Arrecadou seus bilhões pagando cientistas para produzirem relatórios afirmando que o aquecimento global era mentira. Ou que havia dúvida razoável.
Fez explorações predatórias que levaram a desastres em comunidades pobres —quando cenas assim passavam na televisão, era seu hábito desligar para não lidar com o “sentimentalismo barato”. E virou mestre em elaborar argumentos que defendiam, com racionalidade iluminista das mais convincentes, que o progresso não pode ser parado.
O que uma pessoa assim pensa nos seus últimos momentos, diante da morte certa?
“Dizem que, quando você está prestes a sair do seu corpo, você se livra de um monte de merda”, afirma o autor de 67 anos em entrevista por vídeo à Folha, do escritório de sua casa. “E esse me pareceu o caminho de mais energia para elaborar meu romance.”
Preocupado, Saunders queria escrever um livro sobre a crise do clima —exatamente o que aconselha seus alunos a não fazer. Quando você usa um livro para martelar algo que defende, diz ele, o leitor se sente excluído. “Você não deve escrever para demonstrar uma crença e, sim, para descobrir uma.”
A saída foi explorar como se sentiria encarnando um personagem como o petroleiro. Um dos mais respeitados escritores dos Estados Unidos hoje —contista admirado, autor de livros que compilam suas aulas na Universidade de Syracuse, em Nova York, e vencedor do prêmio Booker por seu único outro romance, “Lincoln no Limbo”—, Saunders sabia que tinha uma encruzilhada à sua frente.
Se K.J. Boone se arrependesse de todos os seus pecados, ia parecer inocência do pensamento progressista —ou seja, um escritor que apoia a causa ambiental buscando realizar seus desejos no papel. Mas, se o personagem continuasse teimoso e fiel a tudo que sempre defendeu, ele se pareceria demais com uma caricatura plana.
“No caso dele, eu sentia ser alguém que sabia, em seu coração, que as críticas sobre ele estavam corretas. Mas não gostava disso. Como um homem muito inteligente, sempre tinha uma defesa bem preparada. E talvez, no último minuto, ele se livrasse do fardo de ter que negar isso o tempo todo.”
Em um paralelo, digamos que Saunders passasse sua vida tentando se convencer de que é um grande escritor. Se esse pensamento movesse cada um de seus passos, acabaria se ligando a seu corpo e a seu cérebro. E, quando o corpo ficasse doente e o cérebro, exausto, a energia que sustenta esse hábito também se esvairia.
“Acho que, no fim, eu perderia o aspecto do ego que me faz criar constantemente uma identidade sob a qual me esconder. Eu perderia interesse nisso. E talvez, para [Boone], ele perdesse o interesse na ideia de ser tão poderoso.”
O protagonista não é baseado em nenhum personagem real, mas Saunders comenta que enxerga conflitos de culpa em figuras como o empresário Elon Musk e o presidente Donald Trump.
“É como perguntar se eles têm vesícula biliar. Claro que têm, mas a de algumas pessoas é bem pequena”, diz, sempre sorridente. “É por isso que [Trump] está tão bravo o tempo todo, por isso age de maneiras tão irracionais. Ele fala o tempo todo sobre ir para o céu. Sempre que alguém protesta de forma tão enérgica, é a culpa agindo. Ninguém é raivoso à toa.”
Dá para pensar em “Vigília” como uma narrativa sobre a culpa. Diante de uma pergunta sobre isso, a explicação de Saunders é simples. “Fui criado católico”, brinca. “Se eu tenho algum tipo de neurose, é culpa. Que, na verdade, é uma forma de ego. Se eu faço algo errado e não consigo suportar, isso só significa que eu tenho um ego enorme.”
Mas, há 27 anos —pouco tempo depois de lançar seu primeiro livro, em 1996—, o escritor nascido no Texas se converteu ao budismo. E ele menciona a religião em diversos momentos da entrevista.
Começou a meditar aos 40 anos, instado por sua mulher, e, ao ler sobre preceitos do budismo, reconheceu muito que já praticava na escrita. Por exemplo, a ideia de que você não deve ter certeza demais do que está acontecendo na sua história, para não perder a chance de ser levado por ela, de descobrir o que ela pode contar a você.
Sua literatura hoje é tão informada pelo budismo quanto pelo cristianismo, algo em que o autor não enxerga a menor contradição. Já comentou que Jesus Cristo é “o maior romancista de todos” —um narrador onisciente, capaz de empatia infinita que permite entender as motivações de qualquer pessoa.
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O vilanesco K.J. Boone não é o único protagonista de “Vigília”, aliás. O bilionário divide a cena com Jill Blaine, entidade fantasmagórica que o ajuda a fazer a passagem para o lado de lá. Ela conserva a personalidade de uma jovem pobre e sonhadora de 22 anos, assassinada sem querer no lugar do marido.
O coração do livro está em Jill, responsável pelas cenas de maior carga emocional da obra. Quando comenta a criação da menina, Saunders lembra o ensinamento de um mestre budista. Dilgo Khyentse disse a seus pupilos que a “orientação mais importante da vida é: seja bom com todo mundo”. “A parte complicada é: mas o que é bondade?”, completa Saunders.
O autor lembra a tradição budista das “deidades raivosas” para lembrar que é preciso ser duro para ensinar a verdadeira virtude. Não é fácil para ele —Saunders lembra quando viu uma de suas alunas enfiada no celular durante a apresentação de um colega e, em vez de chamar atenção dela, decidiu ficar quieto para não causar constrangimento. “Não foi gentileza. Foi só covardia.”
A doce Jill Blaine, que procura sempre ser cuidadosa para não machucar seu protegido K.J. Boone pode, na verdade, estar agindo com a “compaixão dos idiotas”, como ele diz, aquela que evita brigas a qualquer custo. Talvez o verdadeiro bem não esteja em ninguém do livro, completa ele.
E é raro ver um autor tão preocupado com esse assunto. O repórter pergunta por que a bondade é tão importante para Saunders, um artista celebrado, mas atencioso, como se esta fosse a primeira entrevista de sua carreira. “Bem”, diz com cortesia, “acho que esse é o meu jogo”.













