Marcelo Gomes tinha 13 anos quando subiu ao palco do Festival de Dança de Joinville para receber o prêmio de Revelação, em 1993. Mais de três décadas depois, aos 46, o bailarino volta à mesma cidade para dançar pela última vez como intérprete clássico. A 43ª edição do festival, que ocorre entre 20 de julho e 1º de agosto no Centreventos Cau Hansen, é marcada por essa despedida.
A apresentação de Gomes acontece na Noite de Gala, em 26 de julho. Hoje professor ensaiador do Balé da Ópera de Viena, ele foi primeiro bailarino do American Ballet Theatre por 20 anos e passou por grandes companhias do mundo como convidado. “Mais do que subir ao palco, essa despedida é uma forma de agradecer à arte, à dança brasileira e a todas as pessoas que fazem o Festival de Joinville acontecer”, afirma.
Na apresentação, ele dividirá o palco com Luiza Lopes, primeira bailarina do Royal Swedish Ballet, em um pas de deux de “Romeu e Julieta”, antes de interpretar “Solo”, do coreógrafo americano Justin Peck. “Reunir essas obras nesta despedida representa bem quem fui um artista, alguém que construiu sua trajetória entre a tradição e a inovação, aliando técnica e profundidade interpretativa.”
A gala contará ainda com apresentações do português António Casalinho —único bailarino do mundo a vencer os quatro principais concursos internacionais de dança (Varna, Youth America Grand Prix, IBCC China e Prix de Lausanne)— ao lado de sua parceira Margarita Fernandes, e a companhia argentina Marcos Ayala The Tango Company, com o espetáculo “De Tangos y Sombras”.
Ao longo de 13 dias, com mais de 16 mil participantes inscritos e público estimado em 350 mil pessoas, o festival reúne diferentes gerações da dança, enquanto amplia o investimento no teatro musical e na programação didática.
No teatro musical, em apenas sua segunda edição, 62 artistas de diferentes estados vão montar “Matilda Jr.” em seis dias de ensaio, sob direção de Fernanda Chamma. A procura por ingressos obrigou a organização a abrir uma segunda sessão.
“Joinville é uma vitrine de possibilidades para grupos e escolas de todo o país. O teatro musical ganhou muita força e passou a ser visto também como caminho profissional”, diz Chamma. Segundo ela, o evento abre oportunidades antes concentradas no eixo Rio-São Paulo e amplia o acesso de artistas brasileiros a audições e programas de formação internacionais.
Já a área a programação didática soma 214 atividades entre cursos, workshops, masterclasses, showcases e audições —recorde na história do evento—, ministradas por 80 professores, entre eles Ana Botafogo, Carlinhos de Jesus, Jovani Furlan e Carlo Di Dio, diretor do Baryshnikov Arts Center, em Nova York.
Segundo Esthefânea Moraes, coordenadora do setor, mais de 85% das vagas já foram preenchidas. “A gente vê que o festival é um agente de formação e de referência no cenário mundial”, diz.
A Cia. Jovem Basileu França, da Escola do Futuro de Goiás em Artes Basileu França, protagoniza a Noite de Abertura —algo inédito para uma companhia revelada nas próprias competições do festival. O grupo apresenta “Don Quixote” acompanhado ao vivo pela Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás, sob regência do maestro Eliseu Ferreira, em uma trilha executada por orquestra completa, recurso ainda não usado em outras edições.
No elenco de 120 artista estão Davi Ramos, primeiro bailarino do Australian Ballet e primeiro brasileiro a ocupar o posto na companhia, e Bianca Teixeira, do Semperoper Ballet, ambos revelados no festival quando adolescentes.
Entre os outros destaques da programação estão “Gala Brusco”, da companhia criada em 2025 por Thiago Soares, ex-primeiro bailarino do Royal Ballet and Opera; “Oh My Electric Eye”, da coreógrafa israelense Dana Naim Hafouta; e a estreia de “Trama”, do projeto Saltare Formação de Bailarinos.
As apresentações também ocupam o Museu da Dança, inaugurado em 2025 e único espaço da América Latina dedicado exclusivamente à preservação da memória da dança. O teatro do museu recebe “Trama” e quatro espetáculos da Estímulo Mostra de Dança, voltada à produção independente.












