Após longos debates em torno de alguma decisão sobre espetáculos, Teuda Bara exultava ao ver que o seu ponto de vista havia prevalecido. “Estão vendo, a maconheira tinha razão”, dizia.
Histórias como essa foram lembradas neste domingo (6) no encontro “Cantar e contar Teuda Bara”, uma das atividades do Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas do Sesc São Paulo, em Santos.
A atriz e fundadora do Grupo Galpão, de Belo Horizonte, morreu em dezembro do ano passado, aos 84 anos, mas foi mencionada com os verbos no presente durante a homenagem.
Para Eduardo Moreira, ator e diretor artístico do Galpão, a persistência dela é a responsável pela longevidade do grupo, que vai completar 45 anos em 2027.
Segundo Moreira, Bara tinha coragem, amorosidade e liberdade. “Ela fazia tudo o que queria”.
Entre uma história e outra, a trupe cantou músicas de seu repertório e riu com o público das ousadias da atriz. Uma delas é barulhenta. Na década de 1970, ela usava nos pés um cincerro como os colocados nos pescoços das vacas para fazer barulho e ajudar a localizá-las.
“A primeira lembrança que tenho da Teuda é o som das vacas”, disse Moreira sobre a época em que os dois estudavam na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).
Um dos nomes mais importantes das artes cênicas brasileiras, a artista versátil e dona de uma gargalhada marcante também enfrentava desafios.
Um deles, na oficina de teatro dirigida por dois membros do Teatro Livre de Munique, George Froscher e Kurt Bildstein, ela precisava ser empurrada por Antonio Edson em uma cena em que os atores iam para fora do teatro e voltavam, em um tempo determinado pela direção.
“Não era nada simples para ela. E essa vontade de fazer foi pra toda vida. Ela segurou o chifre do touro até o fim”, afirmou um dos companheiros do Galpão, surgido na oficina dos alemães, na década de 1980.
Outra história é do ano em que Tancredo Neves morreu, em 1985. A atriz foi acompanhar a despedida e quase foi esmagada pela multidão nas grades da praça da Liberdade, em Belo Horizonte.
“Foi resgatada por almas boas”, disse Edson.
Os integrantes do Galpão cantam e tocam instrumentos em suas encenações, o que levou Bara a optar pelo trompete, por acreditar que os três pistões seriam manejados com facilidade. Ela estava enganada. No período de aprendizado, os vizinhos sofreram e não disfarçaram. Uns xingaram, outros elogiaram a “beleza” do som ouvido horas a fio.
O grupo contou também que a atriz dormia nos espetáculos, inclusive nos do próprio Galpão. Chegava a roncar, relataram, entre risadas. Mesmo assim, em cena sempre era a que mais chamava a atenção do público, como acontece com os cachorros e com as crianças, segundo a trupe.
O Galpão conversa com o diretor Rodrigo Portella sobre a possibilidade de uma nova montagem, em 2027, para celebrar os 45 anos. A última encenação do grupo, “(Um) Ensaio sobre a Cegueira”, resultado da primeira parceria com Portella, será apresentada nesta segunda (7) e terça (8) no Mirada e volta à capital paulista no próximo final de semana, de 11 a 13, como uma das atrações do Festival de Teatro de São Paulo.












