Episódio 87 de videocast do JC mostrou que mais do que lista de solicitações, avaliação preventiva deve vir de boa conversa entre médico e paciente
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Um check-up não começa no laboratório. Antes de hemograma, ultrassom, eletrocardiograma ou dosagem de vitaminas, existe uma etapa considerada fundamental pelos médicos: a conversa. A avaliação preventiva deve ser individualizada e levar em conta histórico familiar, idade, hábitos, fatores de risco e mudanças sutis na saúde. Isso reforça que não adianta seguir uma lista fixa de exames para todos.
Esse foi o tema debatido durante o episódio 87 do videocast Saúde e Bem-estar, do JC. Conversamos com três médicos clínicos, que destacaram como o check-up adequado passa longe de ser uma espécie de pacotão de exames capaz de servir para todo mundo. Ao contrário: eles mostraram que a avaliação preventiva deve ser individualizada, ao levar em consideração idade, histórico familiar e pessoal, hábitos, sintomas (inclusive aqueles que o paciente ainda não reconhece como sintomas) e fatores de risco.
“O check-up é para focar basicamente em promoção de saúde e prevenção de algumas doenças”, explicou a médica clínica Bianca Castelo Branco, durante o videocast, que trouxe à tona discussões que serão aprofundadas durante o 3º Congresso Pernambucano de Clínica Médica, entre os dias 10 e 13 deste mês, no Recife.
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A ideia central defendida pelos especialistas é simples, mas vai na contramão de uma cultura que associa cuidado médico à quantidade de exames solicitados: o objetivo não é procurar doenças indiscriminadamente, mas identificar riscos, prevenir problemas e descobrir alterações quando isso puder mudar a trajetória do paciente.
Assista ao episódio completo sobre check-up:
O check-up começa antes do exame
Para Bianca, uma das principais funções da consulta de check-up é justamente encontrar doenças em estágios iniciais, ou mesmo fatores que possam levar ao desenvolvimento delas.
“Se eu consigo pegar num estágio cedo ou até prevenir, é muito melhor para o paciente. O tratamento vai ser mais fácil, as complicações vão ser menores e vão ser mais tardias”, afirmou.
O médico clínico Eric Crevanzi chamou atenção para o período que antecede o aparecimento dos sintomas. Muitas doenças possuem uma fase pré-clínica, em que fatores de risco e alterações vão se acumulando sem necessariamente produzir uma queixa clara.
Por isso, segundo ele, a consulta preventiva representa uma janela de oportunidade. “É um momento da pessoa abordar, junto a um aquele profissional, um problema que está ali germinando ou bem no comecinho e, aí, trazer valor para aquele paciente”, disse.
Esse “valor”, explicou Crevanzi, não se resume a detectar uma doença. Pode significar orientar um jovem com sobrepeso a começar a praticar atividade física, melhorar sua qualidade de vida ou identificar precocemente uma alteração que poderá ser tratada antes de se tornar um problema mais grave.
“Não sinto nada” nem sempre significa estar tudo bem
Um dos desafios do check-up está justamente nos pacientes que chegam dizendo que não têm sintomas.
A médica Bianca Castelo Branco deu um exemplo: uma pessoa pode negar falta de ar, mas, ao longo de uma conversa mais cuidadosa, revelar que deixou de brincar com os netos, jogar futebol ou subir escadas como fazia anteriormente. Nesse caso, não houve necessariamente uma queixa explícita. Houve uma perda progressiva de funcionalidade.
“Às vezes a sensibilidade que a gente tem que ter é de não procurar exatamente… Às vezes, o paciente não vai falar o que a gente quer escutar da forma que a gente quer escutar, mas ele já está perdendo funcionalidade e não percebeu que é por conta de um problema”, afirmou.
A situação é especialmente relevante porque mudanças graduais podem ser incorporadas à rotina até parecerem normais. A pessoa se acostuma a fazer menos, dormir pior ou se cansar mais e deixa de perceber que houve uma alteração.
O sono também faz parte do check-up
Outro exemplo discutido no programa foi o sono. Para os especialistas, perguntar apenas “você dorme bem?” pode ser insuficiente. A avaliação deve considerar horário de dormir e acordar, despertares durante a noite, sensação de descanso ao acordar, ronco, sonolência durante o dia e até episódios de sono ao dirigir.
“Quando a gente vai falar de check-up e vai falar sobre sono, pensamos naquela pergunta: ‘Ah, você dorme bem?’. Eu acho que é muito além de fazer essa simples pergunta”, destacou a médica clínica Marcela Santos. Segundo ela, uma pessoa pode passar muitas horas na cama e, ainda assim, ter pouco sono efetivo ou um sono superficial.
O tema também levou os médicos a fazerem um alerta contra a medicalização excessiva. Marcela criticou a ideia de que dormir menos seria uma forma aceitável de aumentar a produtividade. “Passou a ter uma geração, nos últimos anos, sob a ideia do ‘trabalhe enquanto eles dormem’, né? Como se o sono fosse uma coisa dispensável”, afirmou.
Eric também chamou atenção para o uso de medicamentos para dormir, especialmente entre idosos. Segundo ele, problemas inicialmente relacionados à qualidade do sono podem evoluir para consequências mais graves, como quedas e fraturas.
A conversa adequada com o paciente, portanto, pode ser suficiente para identificar um problema e orientar mudanças de hábitos antes mesmo de recorrer a exames mais específicos, como a polissonografia.
O fim do pacotão de exames
Um dos momentos mais contundentes do videocast ocorreu quando os médicos foram questionados sobre a existência de um conjunto universal de exames que deveria ser solicitado a todas as pessoas. “Não, pelo amor de Deus!”, respondeu Bianca. Segundo ela, não faz sentido utilizar a mesma solicitação para uma mulher de 30 anos e um homem de 70, por exemplo. Os históricos, fatores de risco e necessidades são diferentes.
A médica citou ainda o hemograma como exemplo de exame que não deve ser feito indiscriminadamente como rotina. De acordo com ela, a indicação depende do contexto clínico e de populações específicas.
O mesmo raciocínio vale para exames da tireoide e ultrassonografias. “Cada paciente é um paciente diferente”, resumiu.
O problema de pedir exames sem indicação, explicaram os médicos, não é apenas financeiro. Um resultado inesperado pode desencadear uma sequência de novas investigações, procedimentos e ansiedade.
Eric classificou esse processo como uma “cascata iatrogênica”: uma intervenção sem necessidade pode gerar outra e, eventualmente, levar a complicações. “Se um paciente está assintomático, eu vou pedir uma ultrassom de tireoide, vai vir um nódulo que esse paciente não queria descobrir ou não tem nenhum sintoma, e vou acabar indicando, por exemplo, um procedimento ali de diagnóstico invasivo que não caberia naquele momento”, explicou.
Bianca completou com uma crítica direta à lógica de solicitar exames apenas porque eles estão disponíveis: “A gente sempre fala que pede o exame que a gente quiser, mas o resultado vai vir. E, às vezes, não é o resultado que a gente quer”.
Coração: eletro, eco e esteira não são obrigação anual
Outro hábito questionado pelos especialistas foi a realização automática de exames cardiológicos em pessoas sem sintomas. Eletrocardiograma, ecocardiograma e teste ergométrico têm indicações específicas, segundo Eric. A necessidade depende da história clínica e dos achados da consulta. “Não existe uma indicação, num paciente assintomático e sem fatores de risco, de nenhum desses exames”, afirmou.
Para Marcela, um exemplo ainda mais básico deveria receber atenção: a aferição da pressão arterial. A partir dos 18 anos, segundo ela, a pressão deve ser avaliada nas consultas. E até esse procedimento aparentemente simples exige cuidados para que o resultado seja confiável: repouso, posição adequada, pernas descruzadas, pés apoiados no chão, braço corretamente posicionado e manguito de tamanho apropriado, entre outros fatores.
O alerta é importante porque exames sofisticados podem acabar ganhando mais atenção do que informações clínicas fundamentais. Marcela contou o caso de um paciente de 69 anos que chegou ao consultório com ecocardiograma, holter e teste ergométrico considerados normais, mas apresentava pressão arterial elevada. “Às vezes, são solicitados tantos exames e se esquecem de voltar para o básico (aferir a pressão arterial)”, afirmou.
Aferição da pressão arterial exige cuidados para que resultado seja confiável: repouso, posição adequada, pernas descruzadas, pés apoiados no chão, braço corretamente posicionado e manguito de tamanho apropriado, entre outros fatores – MAGNIFIC/BANCO DE IMAGENS
Vitamina D não é sinônimo de disposição
As consultas de check-up também podem abrir espaço para outro excesso: a investigação e suplementação indiscriminadas de vitaminas e minerais. Vitamina D, vitamina B12, zinco e selênio aparecem com frequência em solicitações de exames, mas, segundo Bianca, não devem ser tratados como itens obrigatórios de uma avaliação de rotina.
“Quem é o paciente que tem que, de rotina, repor zinco? Ninguém!”, afirmou. A suplementação deve estar relacionada a uma necessidade identificada. A médica citou como exemplo pacientes com problemas de absorção, como aqueles submetidos a cirurgia bariátrica, que podem precisar de acompanhamento específico.
No caso da vitamina B12, há situações que justificam investigação, como determinados pacientes que utilizam metformina (medicamento indicado para casos de diabetes e resistência à insulina) por longo período e apresentam fatores que aumentem a suspeita de deficiência.
Já a vitamina D, segundo Marcela, deixou de ser recomendada como exame universal para a população geral à medida que novos estudos questionaram benefícios de manter níveis acima de determinados valores. “Não existe mais essa faixa do que a gente consideraria que precisaria estar acima de ‘X’ para uma população geral”, explicou.
E há um risco adicional: o excesso também pode fazer mal. Bianca relatou ter acompanhado pacientes internados após o uso de doses muito elevadas de vitamina D. “Não é só uma vitamina D… Tem quem diga: ‘ah, vou tomar, que mal faz?’. Mas pode ter consequências gravíssimas”, alertou.
“Chip da beleza” e a busca por resultados rápidos
A discussão sobre o que deve ou não entrar em uma avaliação médica chegou também ao uso de testosterona e às chamadas terapias hormonais utilizadas com finalidade estética. Eric foi categórico ao questionar o uso de testosterona em mulheres sem uma indicação clínica específica.
“Não existe isso de eu implantar um chip de testosterona, de eu fazer reposição numa mulher com o intuito de melhorar a libido dela, a qualidade de vida, a performance”, afirmou. Segundo o médico, o uso inadequado do hormônio pode provocar efeitos como masculinização da voz e aumento de pelos, além de riscos cardiovasculares e trombóticos.
Marcela destacou o conflito entre o resultado rápido desejado e as possíveis consequências de longo prazo. “Vale a pena uma hipertrofia muscular aos 20 anos e uma trombose pulmonar aos 30 anos?”, questionou.
Para os médicos, a popularidade desses procedimentos também reflete uma sociedade cada vez mais imediatista, em que medicamentos e intervenções são apresentados como atalhos para resultados que exigiriam tempo e mudança de hábitos.
Exame normal não significa vida saudável
Um dos pontos mais importantes levantados durante o videocast é que um check-up com resultados normais não significa necessariamente que o paciente não precise mudar nada.
Uma pessoa com sobrepeso ou obesidade pode apresentar glicose e colesterol dentro dos parâmetros esperados e, ainda assim, estar exposta a riscos futuros. “Por que a gente vai esperar chegar na consequência para começar a tratar isso?”, questionou Bianca.
É nesse momento que entra a chamada mudança do estilo de vida, que inclui alimentação, atividade física, sono, álcool, tabagismo e outros comportamentos. A recomendação, porém, não deve ser transformada em uma lista impossível de cumprir. Marcela defende que o paciente participe das decisões e estabeleça metas realistas.
“Mas duas é melhor que nada!”, afirmou, ao falar sobre a possibilidade de um paciente começar uma atividade física duas vezes por semana, em vez de assumir uma meta mais ambiciosa e acabar não fazendo nenhuma.
Para ela, a motivação também precisa conversar com os projetos pessoais de cada indivíduo. Em vez de apenas apresentar números de risco, o médico pode perguntar como aquele paciente deseja estar no futuro. “Como é que você se imagina daqui a 10 anos e daqui a 30 anos com o seu neto?”, exemplificou.
Mais conversa, menos carimbo
Antes de sair do consultório com uma longa lista de exames, o paciente precisa ser ouvido. E, para os médicos, essa escuta pode revelar problemas que nenhum exame solicitado automaticamente seria capaz de encontrar.
A lógica defendida pelos especialistas é a de que cada exame precisa responder a uma pergunta: se o resultado vier alterado, o que será feito a partir dele? Se não houver uma conduta capaz de beneficiar o paciente, talvez o melhor exame seja justamente aquele que não foi solicitado. E isso nos leva a refletir sobre algo que parece simples, mas pode mudar a forma como o paciente encara a consulta: não existe um check-up ideal universal. Existe o check-up adequado para cada pessoa.













