Extrema direita alemã cresce por derrota mal resolvida do socialismo, diz escritora

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Extrema direita alemã cresce por derrota mal resolvida do socialismo, diz escritora


“Eu queria fazer um livro [sobre a Alemanha Oriental] que não fosse só centrado na Stasi”, afirma Jenny Erpenbeck, lembrando a polícia política que atuava no país cindido.

A entrevista da premiada escritora alemã à Folha aconteceu na praça Arkona, que pertencia à Berlim Oriental e era um lugar cativo de sol para os “ossies”, apelido do povo que ocupava a porção direita do país. Ali hoje há feiras movimentadas e crianças serelepes subindo pelas árvores.

Aquele dia 8 de maio era o chamado Dia da Libertação, referência à derrota dos nazistas em 1945. A data era feriado nacional na República Democrática Alemã, a RDA, mas não tinha esse status na Alemanha Ocidental nem o tem na Alemanha pós-reunificação.

Erpenbeck, nascida na porção oriental em 1967, ganhou o Prêmio Booker Internacional há dois anos por seu romance “Kairós”, que agora ganha tradução no Brasil pela Companhia das Letras.

Inconformada com a visão hegemônica que só retrata repressão e tragédia na sua terra de origem, ela sugere outro olhar para a vida no país rachado pelo muro e logo após sua queda.

“Muitas vezes, [os retratos] são experiências que nunca tivemos ou não correspondem às nossas memórias, como o filme ‘A Vida dos Outros’. Também havia vida normal, mas disso não podíamos falar. Há alemães orientais que hoje vivem no Ocidente e acham brutal que eu diga que ia ao cinema!”, conta a autora.

Além da vida cotidiana, Erpenbeck se empenha em lembrar que havia um projeto político alternativo ao modelo ocidental em curso —e que fracassou.

Os trechos que mostram como eram os dias no país podem causar estranhamento. Para os homens, havia obrigação de servir no Exército por três anos antes de cursar a faculdade. Pessoas em situação de rua eram inexistentes —há uma cena dedicada ao espanto da autora ao cruzar com um pedinte em uma viagem à Alemanha Ocidental. E produtos como sabão em pó e meias-calças finas eram escassos.

A autora, que é acusada por detratores de romantizar o autoritarismo, reconhece que não podia deixar de mencionar no livro as contradições de um regime que, ao reivindicar a emancipação, incorria em tortura e assassinatos políticos.

“A ideia era bonita, mas é preciso refletir com cuidado sobre os erros cometidos. Essas ideias começaram como revolucionárias e, a partir do momento em que a revolução se alinha com o lado do poder —e em Israel vemos talvez algo parecido—, ela se transforma.”

Erpenbeck fez uma pesquisa significativa para escrever o romance, em arquivos na Alemanha e na Polônia. O resultado é uma narrativa factualmente precisa, que passeia de meados dos anos 1980 ao começo dos anos 1990 e se conjuga à história de um amor extraconjugal na Alemanha Oriental.

O livro conta a história de Katharina e Hans, um casal que se conhece em um ônibus por acaso. “Kairós”, o título do livro, é o deus do momento feliz na mitologia grega —em possível alusão a esse encontro. O relacionamento que se segue, contudo, é agridoce.

Embora estivesse em um casamento monogâmico, Hans embarca no caso por anos, e o livro reconstrói esse amor em paralelo ao desenvolvimento político alemão. “De alguma forma, podemos dizer que a grande história se reproduz em miniatura neste relacionamento”, afirma a escritora.

“Também nele se fala de poder e engano: ter uma grande esperança no início e, depois, um processo lento de desilusão. Eu sempre tive a imagem de Katharina sentada em um canto ouvindo as fitas [de Hans] com seus fones de ouvido, enquanto lá fora a revolução estava acontecendo.”

E ela acontece. Em novembro de 1989, cai o muro de Berlim e começa o processo assimétrico de reunificação das Alemanhas. Chamada de Revolução Pacífica, a queda levou ao sepultamento do regime de Erich Honecker —famoso por sua foto, tornada pintura de mural, beijando a boca do líder soviético Leonid Brejnev— e à integração oriental ao Ocidente, cujo espólio está em disputa até hoje.

A reunificação foi declarada como uma “vitória total do sistema capitalista e da democracia”, diz a autora, mas a ela não restam dúvidas de que não foi bem-sucedida. Foi uma vitória econômica mais que qualquer outra coisa. “No fim das contas”, resume Erpenbeck, “se impôs a pressão para o consumo, até mais que a pressão por liberdade”.

Até então, os regimes dos dois lados se exibiam, um ao outro, como vitrines de seus modelos econômicos, e acabaram se modulando por essa concorrência: o Ocidente precisou incorporar políticas sociais, ao passo que o Oriente precisou tolerar o consumo do lado de lá.

Com a queda, houve um forte processo de inferiorização dos orientais, diz ela, vistos como vítimas de uma ditadura e incapazes de exercer a liberdade. Quem fosse inteligente, reza a ideia, devia tentar a vida no Ocidente após a dissolução do muro. Mas, segundo Erpenbeck, isso tudo é discutível. A democracia da parte ocidental “não foi autodescoberta, mas importada pelos americanos”.

Coube aos orientais amargarem a derrota. O Ocidente, lembra Erpenbeck, queria transplantar suas instituições para o outro lado do muro, esquecendo que “por lá também tinham pessoas, com suas próprias biografias e experiências”. Infligiu a própria constituição ao país unificado, não aceitou inúmeros diplomas universitários de orientais e dissolveu ou privatizou 80% das empresas da região.

As desigualdades continuam até hoje, mostrando as caras na ocupação assimétrica de postos de poder. “Os veículos de notícias estiveram sob controle dos ocidentais por cerca de 30 anos. Não há um único redator-chefe que venha da Alemanha Oriental. As cátedras universitárias são também basicamente ocupadas por alemães ocidentais.”

A reunificação desigual ainda está sendo precificada. A Alternativa para a Alemanha, a AfD, hoje o partido mais popular do país, é de ultradireita e tem especial aderência nas regiões da antiga Alemanha Oriental. Na última pesquisa de opinião, tem vantagem de quatro pontos percentuais sobre a União Democrata-Cristã, a CDU, partido do atual governo e da ex-chanceler Angela Merkel.

Para a autora, a relação entre as fissuras da reunificação e a ascensão da ultradireita é clara. O fortalecimento do extremismo “começou por causa dessas rupturas”, defende. “Muitas pessoas ali são contra estruturas de poder nada transparentes, decisões de Bruxelas [sede da União Europeia] que não compreendem e assim por diante.”

“Há esse dilema entre o mundo globalizado e a impotência local, e a AfD sabe fazer uso dele”, diz Erpenbeck. “Esses movimentos de extrema direita estão por toda parte, como se as pessoas estivessem cansadas de discutir e quisessem apenas um homem forte”.

É por isso que, depois de todo esse tempo, a autora diz ainda achar essencial disputar a memória da RDA. Mesmo que não tenha dado certo, defende, foi uma tentativa de universalizar o acesso à comida e à educação. “Seria valioso viver em uma sociedade em que dinheiro e consumo não exercem um papel central. Mas talvez não consigamos criar isto.”



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