Luísa Carolina Gilberto, a filha mais nova de João Gilberto, só foi entender a dimensão real da obra de seu pai quando entrou na faculdade. “De repente, percebi que todo mundo conhecia meu pai, todos os professores falavam dele”, ela diz. “Aquilo me bateu num lugar muito estranho porque para mim era o meu pai, que estava toda quarta-feira comigo.”
Esse foi o começo de um processo de redescobrir a discografia do pai da bossa nova ao ponto de se tornar, ela diz, “além de filha, uma fã”. Nesta quinta-feira (21), aos 21 anos, Loulu lança seu disco de estreia como cantora, chamado “Loulu Gilberto”, com 13 faixas em que ela se alinha ao legado de João, mas não à parte mais conhecida, e sim à que mais se relaciona com suas memórias.
“Meu pai me apresentava as músicas de uma forma muito orgânica”, ela diz. “Ficava cantando uma canção copiosamente várias vezes até que eu expressasse interesse e perguntasse se podia cantar. Dessa forma, ele ensinava meio sem ensinar. Mas tinha vezes que eles faziam força, porque eu fazia birra também.”
Ela se refere à vontade do pai, mas também da mãe, a jornalista Cláudia Faissol, de que se tornasse cantora. Na infância, essa ideia não foi muito bem recebida por Loulu, que tinha quase 15 anos quando João Gilberto morreu, em 2019. O que ela trata como rebeldia de criança só foi arrefecer como parte do processo de luto, e do contato com os discos do pai já na faculdade.
Loulu então recorreu ao violonista e compositor Cézar Mendes, amigo e discípulo de João. O pai já os tinha apresentado, para que a menina aprendesse a tocar violão. Ela não quis na época, mas depois procurou o músico, que a indicou às aulas de canto. Os dois também passaram a repetir a brincadeira que a cantora fazia com João —ele tocando, ela cantando.
Daí surgiu o disco que chega agora às plataformas de streaming. Mendes dividiu a produção com outro casca grossa da música brasileira, Mário Adnet, que assinou os arranjos e também participou da escolha do repertório. A lista de faixas, aliás, dispensa “Chega de Saudades”, “Desafinado” ou “Garota de Ipanema” em busca de achados do repertório de João Gilberto e das músicas que ele tocava para que a menina cantasse.
“Meu pai era uma coisa só com violão —ele era música, uma indissociável”, diz Loulu. “Minha minhas primeiras experiências no mundo são completamente assim —musicadas. Minhas memórias são musicadas. É uma coisa intrínseca a mim.”
O trio passou cerca de um ano procurando raridades no YouTube, em contato com pesquisadores do inventor da batida da bossa nova e nos vídeos caseiros de Loulu cantando com o pai, feitos por Faissol. Nas palavras da cantora, são músicas que ela “sabia, mas não sabia que sabia”.
Esse garimpo dos fragmentos da relação musical da filha com o pai inclui sambas antigos como “Cuidado com o Andor”, de Mario Lago e Marino Pinto, que João costumava cantar, mas nunca gravou. Quando encontrou “Dorme que Eu Velo por Ti”, de Mário Rossi e Roberto Martins, no YouTube, Loulu diz ter recordado instantaneamente toda a melodia da canção.
O repertório traz standards americanos como “Tea for Two” (Irving Caesar/Vincent Youmans) e “Mr. Sandman” (Pat Ballard), o baião “Qui Nem Jiló” (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira), e o samba-canção “Manias” (Flavio Cavalcanti/Celso Cavalcanti), gravada por Dolores Duran nos anos 1950.
Loulu gravou “Cavalo-Marinho” e “Bicho Curutú”, canções baianas populares e folclóricas que João cantava para ninar a filha. Também “Avarandado”, que Caetano Veloso compôs e gravou com Gal Costa em “Domingo”, de 1967, o primeiro —e também o mais joão-gilbertiano— álbum da dupla. A faixa que abre “Loulu Gilberto” é “João”, composição de Cézar Mendes com letra de Arnaldo Antunes que tenta dimensionar poeticamente o bossa-novista.
A única inédita no disco é “O Amor nos Encontrou”, composição de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli que anteriormente só havia sido gravada de maneira informal por João. Para Loulu, tudo soa como uma memória distante, meio esfumaçada, da convivência musical que ela teve com o pai ilustre.
Antes de entrar em estúdio pela primeira vez, ela diz ter passado por um processo de aceitação até assumir que queria ser cantora —carreira que ela resistia a ter mesmo depois de começar as aulas de canto. Realizar o que Loulu diz ser o sonho do pai, da mãe e “de todo mundo que estava em volta de mim” passou por entender o sobrenome que ela carrega.
“O sobrenome é uma faca de dois gumes”, ela diz. “Porque, ao mesmo tempo que me abre muitas portas, tem uma expectativa muito grande, por meu pai ser a pessoa que é. Acho que essa expectativa por muito tempo foi paralisante, mas a vontade de cantar era muito grande, assim e com o apoio das pessoas que estavam perto de mim.”
O que a deu confiança e a motivou a seguir em frente, afirma Loulu, foi o estudo —o que ela chama de “malhar a voz”. Antes disso, a caçula de João Gilberto diz que se sentia insegura, achava que a voz não era bonita o suficiente.
Seu estilo de canto, naturalmente, é econômico e tranquilo como pede a bossa-nova, e contém um traquejo na divisão dos versos que remete a João.
Nada que ele a tenha ensinado, diz a artista. “Ele não me dava nenhum tipo de direção. Essa coisa da divisão rítmica, de brincar com isso, eu pesquei de ouvido e fui brincando a partir de ver a brincadeira dele. Só fui racionalizar muito tempo depois, quando passei a estudar música formalmente.”
Loulu cita como influências de seu canto nomes como Orlando Silva, Dolores Duran, Lúcio Alves, Dori Monteiro, Silvia Teles e Nara Leão. A maioria desses nomes atuou por volta da metade do século passado e foi referência para o pai da cantora.
“Tem gente também da cena contemporânea”, ela diz, citando Ana Frango Elétrico, Dora Morelenbaum, “algumas canções da Sophia Chablau” e Marina Nemésio. “Não vou te dizer que é o que escuto todos os dias no meu fone, porque acho que tem um lugar da memória afetiva que influenciou muito meu ouvido. Então o que mais me encanta são esses cantores [antigos].”
Isso coloca o álbum de estreia da cantora em um túnel de tempo que atravessa gerações, desde antes de João. Na opinião de Loulu, contudo, tantas referências ao passado não vão alienar os ouvintes mais jovens —na verdade, os que têm a idade dela.
“Por muito tempo achei que não gostassem, que eu estava fazendo música para um pessoal de outro mundo, de uma outra geração. Mas hoje vejo que não”, ela diz. “Meus amigos da música me apresentam canções desses compositores antigos às vezes. Tipo o [cantor de samba nascido em 1910] Jorge Veiga, que conheci faz duas semanas.”
Na opinião de Loulu, há “uma coisa muito saudosista” entre as pessoas que têm mais ou menos a sua idade. “Acho que tem espaço para esses compositores e para essa música [antiga] na nova geração. E acho que [o disco de estreia] pode bater muito bem nos jovens.”














