Relatos mostram que abusadores ocupam espaços de acolhimento e escuta ausentes no ambiente familiar e criam vínculos para controle psicológico
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Uma pesquisa realizada com adolescentes e com condenados por crimes sexuais revelou como os abusadores agem para manipular e fazer vítimas no ambiente virtual. Divulgado no Maio Laranja, mês de enfrentamento ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes, o estudo aponta que esse crime está ligado a fatores emocionais, familiares e sociais que favorecem a vulnerabilidade das vítimas.
A terceira fase da pesquisa “Mapeamento dos Fatores de Vulnerabilidade de Adolescentes Brasileiros na Internet”, realizada pelo ChildFund Brasil, em parceria com o Instituto Tecnologia e Dignidade Humana, entrevistou três vítimas e três abusadores que cumprem pena em regime fechado, com o objetivo de compreender os mecanismos utilizados por agressores, os impactos da violência e as dificuldades enfrentadas pelas vítimas para denunciar os casos.
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Segundo o levantamento, vítimas frequentemente não identificam o abuso enquanto ele acontece, principalmente em situações marcadas por manipulação emocional.
Os relatos mostraram que abusadores costumam ocupar espaços de acolhimento e escuta ausentes no ambiente familiar, criando vínculos afetivos que evoluem para controle psicológico e coerção. Vergonha, culpa e medo de julgamento aparecem como fatores decisivos para o silêncio.
A pesquisa revelou que a ausência de diálogo sobre sexualidade, o medo da reação familiar e a falta de acolhimento fazem com que adolescentes evitem denunciar os abusos.
Entre os dados já identificados nas etapas anteriores do estudo, 54% dos adolescentes afirmaram ter sofrido violência sexual na internet. Essa porcentagem equivale a 9,2 milhões de jovens brasileiros. Além disso, 94% disseram não saber como agir ou denunciar situações de risco.
O levantamento ainda mostra que meninas têm risco cerca de 8% maior de sofrer violência sexual na internet em comparação aos meninos, embora o problema atinja ambos os sexos.
PERFIL DOS CONDENADOS POR CRIMES SEXUAIS
As entrevistas com abusadores revelaram padrões recorrentes nas trajetórias dos condenados. Entre os fatores identificados estão exposição precoce à pornografia (muitas vezes antes dos 10 anos), ausência de diálogo familiar sobre sexualidade, histórico de violência doméstica e uso intenso de tecnologias digitais sem supervisão.
Os entrevistados também relataram distorções sobre consentimento e minimizaram a gravidade dos crimes cometidos.
“A pesquisa quebra o mito de que alguém se torna abusador porque foi abusado na infância. Com esta fase, esse debate abre outros caminhos. Estamos diante de evidências de que o acesso precoce à pornografia pode gerar o abusador”, afirmou Mauricio Cunha, presidente executivo do ChildFund.
O estudo identificou ainda que jogos virtuais, redes sociais e aplicativos de mensagens são utilizados como “pontes de confiança” pelos agressores.
Dados da segunda fase da pesquisa mostraram que 41% dos adolescentes interagem com estranhos suspeitos na internet. Em muitos casos, o contato começa em jogos, migra para plataformas como Discord e termina em aplicativos de mensagens, como WhatsApp e Telegram, responsáveis por 55% dessas interações e pela troca de conteúdo íntimo.
Outro ponto crítico é o período da madrugada. O sentimento de insegurança aumenta à noite, quando há menor supervisão familiar, cenário explorado pelos agressores para ampliar o isolamento das vítimas e dificultar intervenções.
A pesquisa indicou ainda que, embora os três condenados por abuso sexual entrevistados demonstrem algum nível de arrependimento, “esse reconhecimento surge, majoritariamente, após a punição e no contexto do encarceramento, e não como resultado de uma consciência prévia sobre o impacto de seus atos”.
PESQUISA NACIONAL
Realizado ao longo de três anos, o mapeamento reuniu dados quantitativos e qualitativos. Na primeira etapa, foram ouvidos 8.436 adolescentes de 13 a 18 anos no País. Na segunda fase, grupos focais com estudantes de escolas públicas e privadas de Minas Gerais e Ceará aprofundaram a percepção dos jovens sobre riscos, insegurança e estratégias de autoproteção no ambiente digital.
“O estudo reforça a urgência de olhar para a violência sexual on-line contra crianças, jovens e adolescentes como um fenômeno complexo, que exige respostas articuladas entre o Estado, sociedade civil e empresas de tecnologia”, disse Cunha.












