Anna Maria Maiolino ganha exposição em que usa a arte para radiografar o corpo

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Anna Maria Maiolino ganha exposição em que usa a arte para radiografar o corpo


A chapa de raio-X presa na parede revela os ossos de uma caixa torácica, fazendo o ambiente lembrar um laboratório médico. No entanto, não estamos em um hospital, mas sim na galeria Luisa Strina, na zona oeste da capital paulista. Nesse espaço, estão expostos cerca de 25 trabalhos de Anna Maria Maiolino na mostra “Presença, Presença, Presença”.

Uma das artistas plásticas mais incensadas da arte mundial, ela é conhecida pela versatilidade técnica, transitando com a mesma desenvoltura por áreas diversas. Essa poética marcada pelo ecletismo pode ser sentida nas obras da exposição, projeto que traz pinturas, esculturas, desenhos e fotografias.

“Eu tenho utilizado praticamente todas as mídias para falar das minhas metáforas”, afirma Maiolino. “Tudo vira um diálogo, uma língua minha que se articula utilizando vários tipos de suporte.”

Apesar da diversidade de técnicas, muitas obras que compõem o projeto têm como elemento em comum o interesse pelo corpo humano. É isso o que pode ser sentido ao observar um trabalho da série “Marcas na Transparência”.

É uma obra que radiografa de forma literal o interior do corpo humano por meio de uma chapa de raio-X. Sobre a imagem, ela pintou duas bolinhas vermelhas, como se tingisse de sangue a superfície asséptica da radiografia.

“O corpo é o primeiro instrumento do artista”, afirma Maiolino. “Desde os primórdios dos tempos, o ser humano se manifestou com o corpo, ou seja, as performances contemporâneas remontam a situações coletivas em que nossos ancestrais comemoravam a chuva ou a colheita.”

Para ela, a presença do público é fundamental para que produções artísticas ganhem sentido. “O trabalho de arte só adquire toda a sua postura de comunicação na presença do outro. Sem ele não existe arte.” A centralidade do observador fica evidente em uma fotografia que retrata em preto e branco o olho humano. Intitulada “X”, a imagem faz parte da série “Fotopoemação”.

“Os elementos de expressão das artes visuais se baseiam todos na visão, no olho e na presença da obra”, diz a artista.

Nascida na Itália, ela deixou a sua terra natal para trás aos 12 anos em razão da destruição causada pela Segunda Guerra Mundial. Viajou com a mãe e a irmã Rosalba primeiro para Caracas, na Venezuela, onde o pai e outros irmãos as aguardavam após escaparem do conflito.

Seis anos mais tarde, em 1960, a família se mudou para o Rio de Janeiro, onde Maiolino se estabeleceu e fortaleceu seu percurso pela arte, que, nas décadas seguintes, a levaria a ocupar o topo das artes plásticas nacionais. Em 2023, essa trajetória foi premiada com um Leão de Ouro na Bienal de Veneza, a mostra mais importante do mundo.

Quando chegou ao Brasil, a artista fez parte da nova figuração, movimento artístico que refletia o clima político do país durante os primeiros anos da ditadura militar.

Nesse período, ela criou metáforas pungentes para retratar os anos de chumbo. Foi isso o que fez em 1974, quando se fotografou prestes a cortar a língua e a perfurar os olhos com uma tesoura para tematizar a censura daquele período.

“O que me sobrava, já que não se podia falar? Cortar a língua e furar os olhos, ou seja, não ver e não falar.”

Também foi sob o jugo da ditadura que ela criou uma das performances mais conhecidas da arte nacional. Um dos destaques da exposição, “KA” mostra a artista caminhando entre ovos em uma alegoria para a precariedade da vida naquele período.

Embora parte de sua produção jogue luz sobre a violência, Maiolino se considera uma esteta. “Eu sempre tento buscar a beleza. E me lembro de uma coisa que a minha mãe dizia: ‘O que é belo é bom e o que é bom é belo’.”

Essa beleza pode ser encontrada em esculturas de vidro da série “Emanados”, conjunto de vasos de vidro esculpidos por meio do sopro. De certa forma, esses trabalhos são uma metáfora para o modo como Maiolino enxerga o fazer artístico. “Eu acho que a arte não vai transformar o mundo, mas pode ser um sopro de respiração vital.”



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