Esta lesma marinha consegue arrancar a própria cabeça do corpo, abandonar coração e órgãos para trás e depois construir um corpo novo

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Esta lesma marinha consegue arrancar a própria cabeça do corpo, abandonar coração e órgãos para trás e depois construir um corpo novo


Quando Sayaka Mitoh encontrou uma cabeça de lesma marinha se movendo sozinha, a primeira impressão foi de que o animal morreria rapidamente. Aconteceu o contrário: o fragmento continuou ativo e, nas semanas seguintes, reconstruiu um corpo com coração e outros órgãos, um nível de regeneração raríssimo entre animais complexos.

O fenômeno foi descrito em 2021 por Sayaka Mitoh e Yoichi Yusa, da Universidade Feminina de Nara, no Japão, em duas espécies de lesmas sacoglossas.Imagem gerada por inteligência artificial

Que lesmas conseguem abandonar quase todo o corpo?

O fenômeno foi descrito em 2021 por Sayaka Mitoh e Yoichi Yusa, da Universidade Feminina de Nara, no Japão, em duas espécies de lesmas sacoglossas. Os pesquisadores observaram indivíduos separando voluntariamente a cabeça na região do pescoço e deixando para trás a maior parte do corpo, inclusive coração e aparelho digestivo.

O estudo publicado na Current Biology chamou o processo de autotomia extrema. Animais costumam abandonar caudas, pernas ou outras partes para escapar de perigos, mas perder praticamente todo o tronco é outro patamar. O corpo descartado não produziu uma nova cabeça, enquanto a cabeça separada conseguiu seguir o caminho inverso.

Lesmas marinhas reconstroem o corpo inteiro a partir da cabeça isolada.
Lesmas marinhas reconstroem o corpo inteiro a partir da cabeça isolada. – Créditos: Imagem criada por IA.

Como uma cabeça sem coração continua se movendo?

As cabeças jovens começaram a se alimentar em poucas horas e permaneceram ativas mesmo sem os órgãos deixados para trás. Isso exige uma reorganização fisiológica extraordinária. A equipe observou que a região do corte fechava e o crescimento do novo corpo avançava a partir dali, em vez de o animal simplesmente cicatrizar a ferida.

Em indivíduos jovens acompanhados no laboratório, a regeneração do coração e de grande parte do corpo ocorreu ao longo de aproximadamente três semanas. Lesmas mais velhas tiveram desempenho pior, um sinal de que idade e condição corporal influenciam a capacidade de completar esse processo tão caro.

O que a luz do sol tem a ver com a sobrevivência?

Essas lesmas praticam cleptoplastia: ao comer algas, retêm cloroplastos funcionais em tecidos do próprio corpo. Os cloroplastos continuam realizando fotossíntese por algum tempo e podem fornecer energia adicional ao animal. Os pesquisadores sugeriram que esse recurso ajuda a cabeça a sobreviver até que o sistema digestivo seja reconstruído.

A hipótese é especialmente interessante porque liga alimentação, fotossíntese roubada e regeneração. Ela ainda precisa ser testada em detalhe, mas oferece uma explicação plausível para uma pergunta difícil: de onde vem energia suficiente para reconstruir órgãos depois de uma perda tão radical?

  • A cabeça separada pode começar a comer poucas horas após a autotomia.
  • O corpo abandonado contém coração e vários órgãos, mas não regenera uma nova cabeça.
  • Indivíduos jovens reconstruíram coração e tronco ao longo de cerca de três semanas.
  • Cloroplastos roubados das algas podem ajudar a sustentar a cabeça durante a regeneração.

Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Mundo Animal – notícias e curiosidades mostrando a regeneração que as lesmas possuem.

Por que uma lesma faria algo tão extremo?

Uma pista veio da presença de parasitas em alguns indivíduos. Os autores observaram que a autotomia poderia funcionar como uma forma de escapar de parasitas instalados no corpo, já que a cabeça regenerada ficava livre daquela parte infectada. Isso não significa que a causa esteja resolvida para todos os casos.

A equipe também considerou e testou explicações ligadas a ataques de predadores, mas a separação completa é lenta demais para funcionar como fuga instantânea. Por isso, a hipótese antiparasitária ganhou força, embora os pesquisadores reconheçam que diferentes pressões podem ter contribuído para a evolução desse comportamento.

O que essa descoberta muda na ideia de regeneração animal?

A descoberta mostra que a fronteira entre uma parte perdida e um organismo capaz de recomeçar pode ser muito mais flexível do que se imaginava. Em vertebrados, perder coração e aparelho digestivo seria incompatível com a sobrevivência. Nessas pequenas lesmas, a cabeça mantém funções suficientes para reiniciar a construção corporal.

O próximo desafio é descobrir quais sinais celulares coordenam essa reconstrução e quanto a cleptoplastia realmente contribui. Observar uma cabeça rastejando sozinha já seria estranho; saber que ela pode voltar a carregar um corpo completo transforma a cena em uma das demonstrações mais extremas de regeneração conhecidas.





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