Esse homem carrega um peso quase insuportável sobre o corpo. O fardo, porém, não é simbólico, mas bastante concreto. O personagem principal da peça “Confuzo (Está Escurecendo Dentro de Mim)” sustenta na cabeça uma árvore que torna a sua existência lenta e cambaleante.
Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, o espetáculo da companhia Dos à Deux usa esse elemento como metáfora para refletir sobre a perseguição de corpos marginalizados.
“O espetáculo foi um desafio grande, porque a gente teve que trabalhar com o peso dessa árvore e com o fato de ela estar em equilíbrio na minha cabeça”, diz André Curti, que dá vida a um ser que incorpora elementos do mundo animal e vegetal.
No começo, a presença dessa entidade entre os humanos passa quase despercebida. Com o tempo, porém, as pessoas começam a enxergá-lo com outros olhos. Há quem reclame que suas folhas escondem a paisagem e fazem sombra no sol. Existem também aqueles que veem em suas raízes a origem de problemas na tubulação.
Antes bem-vindo na comunidade, ele se transforma num pária social. Por isso, todos ali parecem decididos a expulsá-lo para bem longe.
“Com esse trabalho, a gente queria falar sobre o não pertencimento e as dificuldades que existem para quem é diferente na sociedade”, diz Curti, que divide o palco com Artur Luanda Ribeiro. Ambos também assinam a direção da montagem. “A gente aborda várias diferenças e exclusões, um assunto com o qual muita gente se identifica.”
De fato, é uma produção que evoca diversos grupos marginalizados ao longo da história. O homem-árvore poderia ser um judeu na Segunda Guerra Mundial, um indígena durante a colonização ou, ainda, um imigrante nos Estados Unidos sob o governo de Donald Trump.
Em cena, os movimentos de Curti parecem refletir a dor e o esgotamento de ser um corpo perseguido e humilhado. Isso se faz sentir por meio da dificuldade com que ele se movimenta sobre o palco.
“É quase como se a gente estivesse realmente andando nas pontas dos pés e carregando o peso das escolhas”, diz o artista. “Então, eu optei pela retenção do movimento.”
O silêncio é outro elemento que permeia a peça, sobretudo nos primeiros minutos do espetáculo. Nessa parte, o personagem de Curti parece se comunicar por meio dos gestos.
“Em todos os nossos espetáculos, a gente trabalha a trilha sonora de uma maneira que ela complete esses silêncios que são importantes”, diz o artista. “Eles são momentos de suspensão, em que tudo para de existir.”
A centralidade do silêncio se relaciona à própria história da Dos à Deux, companhia criada há quase três décadas que se notabilizou pelo teatro gestual, em que os movimentos substituem as palavras.
Foi isso o que eles fizeram em peças como “Irmãos de Sangue”, “Gritos” e “Enquanto Você Voava, Eu Criava Raízes”. Ao conceber “Confuzo”, porém, eles decidiram incorporar pela primeira vez a comunicação verbal.
De acordo com Curti, isso aconteceu por um desejo de evidenciar certos aspectos da narrativa. “Ela vem também como um grito, uma necessidade de explicitar muito bem o que a gente está querendo defender e dizer”, diz o artista.
O grupo, porém, buscou evitar que a linguagem verbal se sobrepusesse a outros aspectos da encenação.
“Por isso, ela chega pelas beiradas, como uma grande metáfora auditiva e sensorial”, diz Artur Luanda Ribeiro, que integra o espetáculo ao lado de Curti. “Nada pode estar como uma nota desafinada ou um instrumento a mais naquilo que a gente está se propondo a fazer.”
Na peça, ele dá vida a um personagem que está o tempo todo em uma bicicleta posicionada sobre o palco. Por meio de um mecanismo de engenharia, as pedaladas se transformam em energia para abastecer o espetáculo. De acordo com o artista, essa é uma referência à hiperprodutividade que marca diferentes sociedades contemporâneas.
“O meu personagem é o homem workaholic, que pedala para gerar energia. Se ele parar, escurece dentro dele”, afirma Ribeiro, em referência ao subtítulo da peça. “Existe um permanente movimento de produção e de produtividade.”
Por falar em geração de energia, a iluminação da peça foi pensada para ser mais do que um elemento acessório. “Todos os meus espetáculos são iluminados de forma que a luz seja um personagem, e não somente uma camada técnica. É um aspecto mesmo de ilusão e de como ela pode contar uma história.”
Para o artista, a peça é uma forma de refletir sobre a exclusão em um contexto de fortalecimento do autoritarismo mundo afora.
“A gente está voltando para praticamente cem anos atrás, com a subida de um extremismo em que se fala de pureza racial e territorial”, diz o artista, para quem a produção é uma resposta a esse cenário. “Isso tudo fez com que a gente escrevesse esse espetáculo. Existe uma cólera dentro de mim com o retrocesso absurdo da nossa sociedade.”













