As obras e autores literários podem ampliar o repertório sociocultural e contribuir para a construção de argumentos na hora de escrever uma redação
Mirella Araújo
Publicado em 15/09/2026 às 15:01
| Atualizado em 15/09/2026 às 15:29
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– Jailton Jr./JC Imagem
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No primeiro domingo do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026, que será aplicado em todo o país no dia 8 de novembro, os candidatos terão 5h30 para responder a 90 questões de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias e Ciências Humanas e suas Tecnologias, além de produzir uma Redação de até 30 linhas.
Em uma prova que exige leitura, interpretação e capacidade de argumentação, a Literatura pode ser uma importante aliada: as obras e autores podem ampliar o repertório sociocultural e contribuir para a construção de argumentos na redação.
Na Matriz de Referência do Enem, a Literatura é contemplada principalmente na Competência de Área 5. Entre as habilidades avaliadas estão relacionar o texto literário ao contexto histórico, social e político de sua produção; reconhecer concepções artísticas e procedimentos de construção do texto; e identificar valores sociais e humanos presentes no patrimônio literário nacional. A matriz também prevê o estudo das relações entre a produção literária e o processo social.
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Mais do que memorizar escolas literárias, autores e características de obras, o estudante precisa desenvolver a capacidade de ler os textos em diferentes contextos e estabelecer uma relação crítica entre eles.
“A Literatura é importante para a prova de Linguagens, em que aparece de forma mais clara e direta, mas é na Redação que talvez esteja a maior riqueza de seu estudo. Uma das características importantes da redação do Enem é justamente a possibilidade de associar a proposta temática a diferentes áreas do conhecimento”, explicou o professor de Literatura e Redação do Colégio Saber Viver (CSV), Isaac Melo, em entrevista à coluna Enem e Educação.
Por retratar diferentes épocas e questões sociais, culturais e políticas, as obras literárias também permitem ao leitor conhecer outras perspectivas e compreender problemas como o machismo e a violência contra a mulher, estabelecendo relações com possíveis temas do Enem.
“Para entender um pouco do universo feminino, posso ler um Machado de Assis e encontrar uma personagem como Capitu. E, dentro daquela relação tóxica de Bentinho com Capitu, entender o que é pressão em cima do corpo de uma mulher dentro de um relacionamento. Dá para esticar isso daí para a violência contra a mulher — que pode cair como tema —, para machismo ou para a visão ainda patriarcalista na atualidade”, exemplificou Isaac.
O docente destacou ainda um ponto fundamental para quem está se preparando para o exame nacional:
“Quem lê mais escreve melhor. Então, ler literatura significa também escrever melhor. Se ela não me deu um repertório sociocultural para o tema que está lá, ela me deu, com certeza, um vocabulário mais rico, uma fluidez de escrita melhor e uma visão de mundo mais ampla, mais conectada, mais crítica, mais social e mais inteligente”
Isaac Melo, professor do Colégio Saber Viver

Escritora Conceição Evaristo – Fernando Frazão/Agência Brasil
Diálogos e pontes
A professora de Literatura da Escola de Referência em Ensino Médio (EREM) Pompeia Campos, Raquel Gonçalves, afirma que pode haver espaço para a leitura literária na rotina escolar, mesmo diante da pressão por conteúdos e resultados em avaliações e da redução da carga horária de Língua Portuguesa, desde que sejam adotadas estratégias pedagógicas para isso.
“Ainda assim conseguimos manter um ritmo de leitura e de trato com a obra literária na integralidade. É muito comum que professores tragam trechos adaptados, que são alternativas para determinadas obras, mas é necessário que algumas delas sejam vistas na sua integralidade na sala de aula ou em outros espaços da escola — que aqui, no caso, encontramos no Clube do Livro como alternativa”, explicou.
Os resultados já mostram que os estudantes que participam do clube conseguem construir um repertório mais significativo para a redação. Além disso, uma boa estratégia é estabelecer diálogos e pontes com conhecimentos de mundo, sociais, filosóficos e históricos.
“Quando você encarar Conceição Evaristo como uma autora indispensável para o Enem, ou Carolina Maria de Jesus como um texto essencial, estará atento a questões de negritude, racismo e desigualdade social — problemas sociais contemporâneos recorrentes na prova. Jarid Arraes, Ailton Krenak e até o Emicida (que, apesar de não ser escritor de literatura tradicional, traz na música um conteúdo cultural e um repertório riquíssimo) também são ótimos exemplos”, pontuou.
Aulão com estudantes da EREM Pompei Campos – Jean Pessoa
Erros mais recorrentes e dicas de estudo
Um dos obstáculos dos estudantes na hora de responder às questões de Literatura costuma ser a insegurança ao interpretar perguntas que não exigem complexidade excessiva. Nesse ponto, a interpretação de texto é, de fato, um diferencial, sobretudo na leitura de poemas.
“Quando o assunto é uma literatura mais narrativa, como um romance, um trecho de uma crônica ou a parte de um conto, a leitura dos estudantes tende a ter mais qualidade. Agora, quando a pergunta é em torno de um poema, eles têm grandes dificuldades”, destacou Isaac Melo.
O professor do CSV explica que uma das características da poesia é a capacidade de reunir, em poucos versos, elementos que aparecem em um conto ou romance.
“Um poema de Drummond vale por um romance. E aí, na hora de ter um poema com algumas metáforas e figuras de linguagem, tendem a não entender a intenção, a ironia, o jogo de palavras, o paradoxo que está ali”, disse.
Sobre as obras que não podem deixar de ser lidas, o professor destaca títulos da literatura moderna e contemporânea. “O Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus; Futuro Ancestral, de Ailton Krenak; Macunaíma, de Mário de Andrade; A Hora da Estrela e A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector; Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa; a poesia de João Cabral de Melo Neto; e o Poema Sujo, de Ferreira Gullar. São esses escritores e obras que os estudantes não podem, de jeito nenhum, chegar ao Enem sem ter lido ou estudado”, reforçou o docente.
Literatura: no SSA e Enem
A preparação para o Sistema Seriado de Avaliação (SSA) 3, da Universidade de Pernambuco (UPE), também pode contribuir para os estudos de Literatura para o Enem. O programa prevê a leitura e análise de textos do campo artístico-literário, com conteúdos como literatura contemporânea impressa e digital, autoria feminina, literaturas brasileira, portuguesa, africana e latino-americana, além das estéticas pré-modernista, modernista e pós-modernista.
A proposta também envolve a relação entre obras, contextos históricos e sociais, diferentes matrizes culturais e questões do presente.
Entre as obras indicadas estão A Visão das Plantas, de Djaimilia Pereira de Almeida; Vestida de Preto e Outros Contos, de Mário de Andrade; Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo; Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus; Futuro Ancestral, de Ailton Krenak; A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector; Torto Arado, de Itamar Vieira Junior; e Mensagem, de Fernando Pessoa.
A professora de Literatura da EREM Pompeia Campos, Thaís Andrade, afirma que a abordagem da Literatura no SAA é mais amplo, até pelo fato do formato da avaliação ser seriada, desde o 1º ano as obras que devem ser estudadas já estão estabelecidas no edital.
Ela defende, inclusive, que trabalhar que a divisão dos conteúdos em recortes literários ao longo do Ensino Médio é uma boa estratégia para ampliar o repertório dos estudantes nessa fase de preparação para os vestibulares.
“O primeiro ano fica com o recorte inicial, Quinhentismo, Barroco e Romantismo; o segundo ano, com Parnasianismo e Realismo; e o terceiro ano, com um recorte mais modernista e contemporâneo”, disse.
Segundo Thaís, esses recortes fazem com que os alunos tenham contato com as mais diferentes obras e construam um repertório que pode ser muito bem aproveitado nas avaliações. “Ao usar essa divisão, conseguimos trabalhar mais obras para que eles cheguem à prova preparados para usar repertórios válidos e pertinentes. Fazemos essa divisão para que o aluno tenha acesso à maior quantidade possível de obras”, disse.
“Quem lê mais escreve melhor. Então, ler literatura significa também escrever melhor. Se ela não me deu um repertório sociocultural para o tema que está lá, ela me deu, com certeza, um vocabulári
Isaac Melo, professor do Colégio Saber Viver












