Após 3 anos de impunidade, sobrevivente da Chacina de Camaragibe cobra punição para PMs: ‘Prender e perder a farda’

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Após 3 anos de impunidade, sobrevivente da Chacina de Camaragibe cobra punição para PMs: ‘Prender e perder a farda’


Jovem que teve mãe, irmãos e cunhada mortos conta novos detalhes e diz que seguirá lutando por justiça. Processos contra acusados seguem em tramitação

Por

Raphael Guerra


Publicado em 15/09/2026 às 10:51
| Atualizado em 15/09/2026 às 11:44


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O sentimento é de impunidade. Três anos após a sequência de assassinatos que ficou conhecida nacionalmente como a Chacina de Camaragibe, os policiais militares identificados e acusados pelo crime seguem livres à espera dos julgamentos – que ainda não têm data para acontecer.

Em entrevista à coluna Segurança, um sobrevivente contou novos detalhes do caso e afirmou que seguirá lutando por justiça. Ele teve a mãe, quatro irmãos e uma cunhada assassinados. 

Com medo de represálias, o jovem preferiu não se identificar. Ele disse que na noite do crime, em 14 de setembro de 2023, saiu de casa horas antes para encontrar amigos e só depois soube da caçada policial ao irmão, o vigilante Alex da Silva Barbosa, e aos outros parentes. Por pouco, também não foi uma das vítimas.

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“Vou atrás de justiça. O principal é prender e perder a farda. Isso que é justiça”, afirmou.

O caso teve início quando o soldado Eduardo Roque Barbosa de Santana, 33, e o cabo Rodolfo José da Silva, 38, foram acionados para verificar uma denúncia de disparos de arma de fogo no bairro de Tabatinga, em Camaragibe, no Grande Recife.

Ao chegarem no local, os militares acabaram mortos durante uma troca tiros com Alex. Uma vizinha do atirador, Ana Letícia Carias, que estava grávida, também foi vítima de bala perdida. Ela morreu semanas depois, mas a bebê sobreviveu.

A notícia do duplo homicídio dos policiais logo se espalhou e policiais militares de vários batalhões se reuniram em Camaragibe. O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) classificou a ação como uma “operação vingança”.

Três irmãos de Alex foram os primeiros executados: Ágata Ayanne da Silva, Amerson Juliano da Silva e Apuynã Lucas da Silva. Ágata chegou a transmitir ao vivo pelo Instagram a chegada dos autores do crime e o momento em que os tiros foram disparados.


REPRODUÇÃO

Ágata Ayanne da Silva, 30, Amerson Juliano da Silva e Apuynã Lucas da Silva, ambos de 25,foram mortos por policiais militares – REPRODUÇÃO

Na sequência, os assassinos foram à casa da mãe de Alex, Maria José Pereira da Silva.

“Eles pularam o muro de mais de dois metros. Eram vários, se passaram por pessoas boas e pediram a minha mãe para abrir a porta dizendo que queriam falar sobre o meu irmão [Alex]. Ela abriu sem saber que eram os assassinos dela. Levaram minha mãe de pijama, pegaram o celular dela e deram fim. Meu padrasto foi atrás do carro, mandaram ele voltar e atiraram no pneu da moto dele”, relatou o sobrevivente. 

O corpo de Maria José foi encontrado na manhã do dia seguinte, na estrada da Usina Mussurepe, na PE-027, no município de Paudalho. Lá também estava o corpo de Maria Nathalia Campelo do Nascimento, esposa de Alex. 

Na denúncia enviada à Justiça, o MPPE afirmou que as mulheres sofreram violências física e psicológica antes de serem assassinadas a tiros. 


REPRODUÇÃO

Corpos de Maria José Pereira e Maria Nathalia, mãe e esposa de Alex, respectivamente, foram achados em Paudalho – REPRODUÇÃO

A casa de Alex também foi invadida, como detalhou o irmão sobrevivente. “Arrancaram as câmeras, entraram na casa, pegaram uma enxada e quebraram televisão, forno, geladeira, armário, ar-condicionado, quebraram tudo. Meus parentes ficaram trancados no quarto, enquanto tentavam acalmar duas crianças autistas”, disse. 

Alex foi encontrado e morto na manhã de 15 de setembro de 2023. A versão oficial da Polícia Militar é de que houve uma troca de tiros e que o efetivo agiu em legítima defesa. A tese foi corroborada pelo MPPE, que pediu o arquivamento dessa investigação. 

Diálogos obtidos em celulares de alguns dos policiais militares identificados na ação descreveram a comemoração depois dos assassinatos: “Tô feliz, tem que ser assim”.

TRÊS PROCESSOS CRIMINAIS NA JUSTIÇA

As investigações conduzidas pela Polícia Civil e pelo MPPE para esclarecer a chacina resultaram em três processos criminais. O primeiro é referente ao triplo homicídio dos irmãos de Alex.

Doze policiais militares são réus, incluindo Fábio Roberto Rufino da Silva, na época comandante do 20º Batalhão da PM, e Marcos Túlio Gonçalves Martins Pacheco, que ocupava o segundo posto de comando da inteligência. Ambos são apontados como os responsáveis por liderar a ação policial que resultou nas mortes de Alex e dos familiares dele. 

Os mesmos 12 militares também respondem a um segundo processo pelo crime de tortura na Vara da Justiça Militar. O MPPE apontou na denúncia que os réus “causaram sofrimento físico e mental” a uma cunhada de Alex e ao motorista de aplicativo que a levava para casa, no bairro de Tabatinga, para que eles repassassem informações sobre o paradeiro do vigilante.

O terceiro processo é referente aos assassinatos da mãe e da esposa do vigilante. Oito PMs foram denunciados pelo MPPE, que também pediu a prisão preventiva deles. Na lista dos acusados estão Fábio e Marcos Túlio. A Justiça ainda vai decidir se aceita a denúncia. 

A demora está relacionada a uma divergência quanto à comarca que deve assumir a ação penal. A juíza Marília Falcone Gomes Lócio, titular da 1ª Vara Criminal da Comarca de Camaragibe, declarou a incompetência do juízo porque entendeu que a responsabilidade caberia à Comarca de Paudalho, município onde as mulheres foram executadas.

Já o MPPE argumentou que o maior número de infrações penais relacionadas ao caso ocorreu em Camaragibe, por isso a comarca deveria ser a responsável também por julgar os acusados pelas mortes da mãe e da esposa de Alex. Caberá à 3ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) a decisão final. 

Além da condenação em júri popular pelo duplo homicídio, o MPPE quer que os PMs sejam condenados à reparação dos danos morais e materiais, com pagamento mínimo de R$ 1 milhão e pensão não inferior ao valor de um salário mínimo mensal aos familiares das vítimas.

As defesas dos policiais militares negam as acusações. 






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