A temporada paulistana de “Meu Filho é um Musical”, em cartaz no Teatro Renault após passagem pelo Rio de Janeiro, consolida a maturidade do teatro musical brasileiro ao transformar a biografia de Paulo Gustavo em um painel sobre cultura popular, afeto familiar e memória pública.
Concebida a partir da vivência de Dona Déa Lúcia e com texto assinado por Fil Braz e Beatriz Coelho, a produção investiga como o cotidiano suburbano fluminense e a linguagem das relações maternas foram convertidos no maior fenômeno de bilheteria do cinema e do teatro do país. A encenação compartilha a direção entre João Fonseca e Ju Amaral, equilibrando o rigor técnico das grandes montagens com a intimidade dos relatos domésticos.
A estrutura dramática acompanha a formação do artista desde os anos na Casa de Artes de Laranjeiras, onde Paulo Gustavo enfrentou resistências de diretores que consideravam sua identidade afeminada um obstáculo à carreira teatral. O espetáculo demonstra como essa mesma singularidade foi mobilizada para criar Dona Hermínia, figura que rompeu padrões da dramaturgia comercial brasileira.
No palco, a divisão do papel principal entre João Pedro Chaseliov e Pierre Baitelli, somada ao desempenho de Stella Maria Rodrigues no papel materno, permite que a encenação preserve a agilidade do tempo cômico e a alternância entre a farsa e o registro íntimo.
O ponto de inflexão da dramaturgia ocorre no terço final, quando a celebração dos palcos dá lugar à chegada da pandemia de Covid-19, retratada sob a ótica da pulsão de vida do artista. O espetáculo ilumina a ansiedade e a urgência com que Paulo Gustavo aguardava a vacina — símbolo da volta aos palcos, da convivência em família e da preservação do futuro ao lado dos filhos.
A narrativa ressalta o seu empenho cotidiano em proteger quem estava ao seu redor: mesmo afastado das gravações, o ator mobilizou recursos próprios para garantir suporte financeiro a técnicos, camareiros e equipes de bastidores que haviam ficado sem trabalho durante a paralisação do setor cultural.
Ao registrar essa dimensão humana, a montagem encerra sua trajetória afirmando o riso não apenas como entretenimento, mas como um pacto de afeto, generosidade e resistência que permanece vivo na memória coletiva do país.
Três perguntas para…
… Dona Déa Lúcia
Quando o Paulo criou a Dona Hermínia, a voz e os trejeitos da senhora ganharam o país inteiro. Agora, a senhora sobe ao palco para dar seu próprio depoimento. Como tem sido a experiência de deixar de ser inspiração para se tornar presença viva dentro do espetáculo?
Eu sinto meu filho ali, não tem como explicar de outra maneira. Quando entro e a plateia começa a aplaudir, sei que aquele aplauso não é só para mim, mas para ele. É o amor que as pessoas ainda têm pelo Paulo Gustavo chegando até mim. Recebo isso com uma gratidão enorme. Às vezes penso na dimensão do que esse menino fez, porque ele conseguiu algo muito bonito, que foi entrar na casa das pessoas e virar quase da família.
Todo mundo tem uma história com o Paulo, lembra de uma fala, de um filme ou de um momento em que ele fez rir. Não sinto que o público busca o Paulo em mim, mas que estamos todos juntos celebrando a existência dele. Estou no palco como mãe, mas cada pessoa naquela plateia também carrega um pedaço dele.
Quando a senhora entra em cena, o público reage de forma imediata e muito calorosa. Como é encarar uma plateia lotada que olha para a senhora procurando um pouco do Paulo Gustavo?
É uma loucura, né? Durante muitos anos, fiquei assistindo àquele menino me imitar para o Brasil inteiro e ganhar dinheiro às minhas custas, coitado! Agora, sou eu quem sobe ao palco para contar a minha versão da história. A emoção é enorme, nunca imaginei viver isso.
Quando entro em cena, vejo a trajetória toda sendo narrada, a Stella interpretando a Dona Hermínia e os atores vivendo o Paulo em diferentes fases da vida. Eu me emociono de verdade, porque ali não está apenas o percurso de um artista, mas a história do meu filho, da nossa família, da nossa casa. Estar ali, viva, contando um pedaço dessa memória com a minha própria voz, é um presente inimaginável.
O que a senhora mais deseja que as novas gerações, especialmente os filhos do Paulo, compreendam sobre quem ele foi ao assistirem a essa homenagem no teatro?
Que ele foi um homem plenamente feliz e que viveu com intensidade. O Paulo amava a família, os amigos, o trabalho, adorava fazer rir e tinha uma generosidade sem tamanho. Quero muito que o Romeu e o Gael cresçam sabendo não apenas que o pai foi um dos maiores artistas deste país, mas entendendo quem era o Paulo Gustavo no cotidiano. Quero que conheçam o filho dedicado, o irmão, o amigo leal e o pai apaixonado que ele sempre foi.
O sucesso é maravilhoso e as salas cheias encantam, mas o que permanece é o afeto. O espetáculo funciona como um registro vivo para os meninos. Um dia eles crescerão, verão tudo isso e terão orgulho de dizer que aquele era o pai deles. Espero estar bem velhinha ao lado dos dois, contando cada detalhe, porque história sobre ele é o que não falta.
Teatro Renault – Av. Brigadeiro Luís Antônio, 411, Bela Vista, região central. Quinta e sexta, 20h. Sábado, 15h e 20h. Domingo, 14h30 e 19h30. Até 11/10. Duração: 180 minutos (com intervalo). Classificação indicativa: 12 anos (Menores de 12 anos devem estar acompanhados de pais e/ou responsáveis legais). A partir de R$ 25 (meia-entrada balcão) em ticketsforfun.com.br
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.














