Há quase 30 anos o meu ofício é escrever, contar histórias de pessoas, registrar fatos e situações. Mas neste fim de semana eu não consegui traduzir em palavras tudo o que aconteceu no parque Ibirapuera, em São Paulo. Era para ser mais um festival de música como tantos outros que são realizados na frenética capital paulista, mas uma catarse musical tomou conta das 20 mil pessoas que foram ao C6 no Rock.
A proposta dos organizadores foi reunir bandas do rock nacional da década de 1980, época em que os LPs em vinil nos forçavam a ouvir todas as músicas do lado A e do lado B. Época em que a gente decidia o que queria ouvir, não os algoritmos, e até a programação das rádios era feita com com pedidos dos ouvintes por ligações. Quem telefona para alguém hoje em dia?
Coube à Plebe Rude abrir os trabalhos no sábado (23) e lembrar ao público ainda pequeno porque estávamos lá. Aos primeiros acordes de “Johnny Vai à Guerra (Outra Vez)” uma espécie de portal se abriu para 1986.
Naquele ano, eu e minhas amigas nos reuníamos aos sábados à tarde para acompanhar os ensaios da banda dos meninos da escola. Foi com eles, os garotos da HF-15, que ouvi repetidas vezes e aprendi todas as músicas da Plebe e do Ira!.
No festival de 2026, eu já tinha me dado por satisfeita em ouvir Plebe Rude ao vivo pela primeira vez, mas aquele sentimento era só o começo. Paulo Ricardo subiu ao palco e não fez nenhum esforço para que todos cantassem com ele todos os sucessos de “Rádio Pirata ao Vivo”. Era tanta gente cantando e se divertindo junto naquele parque Ibirapuera que mais parecia um show da Xuxa de roqueiros, a maioria vestida de preto e com cabelos brancos.
O curioso é que em 1986 o RPM era algo onipresente nas nossas vidas, mas não era a minha banda preferida. Eu ainda preferia a Plebe e o Ira!. Mas a verdade é que os Paralamas do Sucesso ganharam o meu coração. E desde então eles fazem parte da minha vida.
Talvez por isso percebi certa tensão de Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone no palco para tocar o álbum “Selvagem?” na íntegra. Mas como foi lindo ouvir “A Dama e o Vagabundo” ao vivo –e pela primeira vez. E cantar “There’s a Party” com Bi antes mesmo do show começar? Por favor, meninos, façam um show dos Paralamas só com as músicas do lado B!
O segundo dia do festival começou com o Ira! lembrando que a gente já teve 15 anos. Edgar Scandurra e Nasi cantaram que “vivemos e não aprendemos”, mas o que é a vida se não um eterno aprendizado? E mais uma vez a música fez todos que estavam ali refletir sobre política, encontros, amores e desamores.
Tudo parecia estar sob controle até que Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá começaram a tocar as canções do álbum “Dois”, da Legião Urbana. O que é que foi aquilo? Acho que foi nesse momento que minha mente travou. Ou deu um “tilt”, como dizíamos lá em 1986. Passadas quase 24 horas daquela tarde de domingo, ainda continua sendo difícil descrever.
André Frateschi entregou tudo e mais um pouco ao interpretar canções escritas e eternizadas nas nossas mentes na voz de Renato Russo. Ele conduziu com maestria um coro de ao menos 10 mil vozes que ansiavam em viver tudo novamente e cantar que, sim, “somos tão jovens”.
Aquilo não foi nostalgia. Não foi só lembrar de uma época boa de nossas vidas. Foi o momento de olhar nos olhos de um desconhecido e cantar os versos de “Andrea Doria” como se ele fizesse parte da utopia de fazer “floresta no deserto” ou “diamantes de pedaços de vidro”.
“Eu sei, é tudo sem sentido”, mas ter sido adolescente em 1986 foi totalmente assim. Analógico, mas real demais para simplesmente dizer que já passou. Não, não é viver de passado. Pelo contrário. É ter a certeza que estamos vivos.
Como cantou Rita Lee, a nossa eterna rainha do rock, envelhecer e sentir dores no corpo após uma maratona de shows são “coisas da vida”. Mas ainda não é o fim da picada.













