Jorge Furtado é um autor de sorte. Seu gênero, a comédia, é o mais popular do Brasil. Mas nem tanto assim —ele a trabalha com uma sutileza que, não raro, afasta boa parte do público que poderia procurar seu filme.
O caso mais claro é “Saneamento Básico”, que, na época, foi um belo fracasso e levou uns 20 anos para se tornar “clássico”, porque quase ninguém notou que aquilo não era um documentário sobre um assunto árido, mas uma delicada ironia sobre a destinação de verbas públicas.
“Muito Prazer” não corre esse risco. Seu assunto é a sexualidade, bastante popular, embora o filme precise de algumas torções para chegar a ele. No caso, Rubem, papel de Daniel de Oliveira, é o jovem meio perdido que herda um motel abandonado e cheio de dívidas. Ao chegar, quase é morto pela única habitante do local, a também jovem Grace, vivida por Luisa Arraes, que levou o cano do antigo dono —o tio de Rubem— e ocupa uma das suítes como forma de se ressarcir dos prejuízos que teve com o antigo patrão.
Grace é, além disso, fotógrafa e tem interesse especial pelas nuvens —o que vai bem com o espírito meio volátil da moça e com o desinteresse que demonstra por coisas deste mundo.
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Como boa comédia romântica com inspiração hollywoodiana, “Muito Prazer” leva os dois a colaborar intensamente. Mas nada a ver com o sexo que o motel pode sugerir. Grace diz a Rubem que não está a fim de ninguém, e a timidez ajuda o rapaz a aceitar essa declaração.
O certo é que eles estão no mesmo barco furado e precisam imaginar um jeito de sair do buraco.
A ajuda quem fornece é Nalva, papel de Samantha Jones, bela e esperta vendedora de câmeras de vigilância, que traz a eles o material e o “know how” para desenvolverem um negócio bastante ilegal —filmar os clientes do lugar em atividade sexual e, acrescentando às imagens ligeiros retoques para que os atores não se reconheçam, pôr os filmetes na internet. Depois de alguns percalços, os três entram triunfais na indústria da pornografia. Logo começam a fazer algum dinheiro, mas isso trará muitas dores de cabeça a eles.
Dessa entrada na indústria da pornografia por seres quase assexuados resulta um humor suave, enriquecido por alguns mal-entendidos e animado por diversos encontros e desencontros, lembrando “Saneamento Básico”. Em ambos se trata de filmar alguma coisa em que o cinema tem uma presença em princípio acessória, mas essa contingência tornará o ato de filmar essencial à trama.
O belo roteiro de “Muito Prazer” é levado por um grupo de atores que parecem compreender as necessidades do filme. Eles se dedicam ao argumento com a leveza que ele requer e tratam seus papéis com desenvoltura.
Ao mesmo tempo, o filme parte de uma reflexão sobre a internet como um ambiente já saturado de sexualidade encontrando uma geração jovem com hábitos que dificultam ou impedem o contato real entre as pessoas.
Somemos a isso a condição dos dois protagonistas —ele, um duro que já tentou vários caminhos e agora está na pior; ela, uma garota desempregada. Desenvolver seu “instinto” empreendedor é o modo que encontram de sair do atoleiro.
São os negócios que permitem a Grace e Rubem se aproximarem —e isso não é um “spoiler”, qualquer espectador, por distraído que seja, nota que o filme gira em torno de os dois se encontrarem no amor e no sexo. A graça está em como isso acontece.
Furtado introduz questões contemporâneas de maneira sutil, contando com o apoio de Oliveira —muito bom, num papel bem complexo— e Arraes —ótima, com leveza e elegância que lembram Diane Keaton.
Com “Muito Prazer”, no mais, Furtado volta ao modo de explorar assuntos que interessam a ele de maneira indireta, como se nem pensasse no caso. Tanto que não tem a menor vergonha de filmar usando o campo-contracampo como base, que parece facilitar o encontro de tempos adequados à produção do humor. É, em suma, um filme com todas as condições para chegar ao sucesso —exceto, talvez, pelo fato de ser brasileiro.













