Notas sobre o amor, ainda – Negrê

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Notas sobre o amor, ainda – Negrê


Celibato, liberdade e a procura por homens que amam…

“The writing is, I’m free from pain.”Toni Morrison

Hoje uma grande tia minha faleceu. A notícia chegou quando eu voltava a cogitar o celibato. Ironicamente, ela foi uma das pessoas que mais me ensinou sobre amor pelo exemplo. Essa coincidência abriu em mim uma pergunta que muitas mulheres da minha geração conhecem; por que, quando aprendemos a existir por nós mesmas, tantas de nós passam a considerar uma retirada dos vínculos com homens?

No ano passado, decidi experimentar esse intervalo. Não como desistência do amor, mas como uma pergunta. Queria suspender por um tempo a busca por relações com homens e descobrir o que em mim permanecia quando eu deixava de organizar a vida em torno do desejo masculino. Quem sou eu quando deixo de tentar ser desejada? O que desejo quando deixo de tentar ser escolhida? Que partes do meu corpo, da minha personalidade, dos meus sonhos e da minha ideia de feminilidade pertencem a mim?

A morte dela tornou essas perguntas mais agudas. Minha tia compreendia o afeto como construção de mundo. Amar era fazer caber. Foi assim que ela viveu ao lado do meu tio. Os dois se conheceram ainda muito jovens. Ele trabalhava servindo cafezinho. Ela acreditava profundamente nele, quando amigos e colegas pareciam enxergar apenas os limites que o mundo lhes havia dado. Ela segurou sua mão e disse que os dois construiriam algo bonito. Mais de cinquenta anos depois, enquanto tento compreender a dimensão de sua falta, percebo que parte do mundo que eles construíram continua aqui.

Eles criaram condições muito diferentes daquelas das quais partiram, para sua família e para outras pessoas. Minha tia nunca romantizou esse caminho. Falava dos conflitos, das dificuldades e dos atravessamentos. Mas os conflitos jamais eram o centro de sua história. O centro era o privilégio de construir algo bonito no mundo junto com alguém.

Essa história me ensinou sobre resiliência, mas principalmente sobre o poder material do afeto. O amor permitiu que pessoas segurassem as mãos umas das outras diante de estruturas que diziam que elas não conseguiriam. Permitiu construir casas, criar filhos, atravessar crises, produzir patrimônio, estudar, trabalhar, cuidar de outras pessoas e imaginar futuros que individualmente talvez parecessem impossíveis.

Talvez seja por isso que eu tenha entrado no celibato com uma pergunta, e não com cinismo. Eu cresci cercada por experiências em que o amor funcionou como exercício de transformação. Ele jamais foi fuga da realidade material. Era justamente o contrário. Era intervenção sobre ela.

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Ao decidir parar, percebi que tampouco estava sozinha. Em diferentes partes do mundo, mulheres têm encontrado linguagens para descrever um afastamento dos vínculos heterossexuais. Na Coreia do Sul, o movimento 4B reúne mulheres que recusam casamento, maternidade, namoro e sexo heterossexual como resposta às desigualdades e violências que estruturam suas vidas. Nos Estados Unidos, a expressão boysober passou a nomear o afastamento de encontros, sexo casual e da exaustão produzida pelos aplicativos. São experiências distintas, com histórias e projetos políticos próprios. Mas elas parecem se aproximar em uma pergunta que se tornou difícil de ignorar.

Se mulheres podem trabalhar, morar sozinhas, circular, constituir redes de amizade, criar filhos e imaginar futuros fora do casamento, o que ainda procuram em relações com homens?

A resposta poderia ser simples. Porque amamos.

Mas bell hooks (1952-2021) escreveu que “aprendemos a amar mais os homens porque eles não nos amam. Se ousassem nos amar, deixariam de ser homens de verdade na cultura patriarcal”. A frase é dura porque nomeia uma pedagogia da escassez. Muitas mulheres aprendem a tomar a indisponibilidade masculina como profundidade, a ausência como mistério, pequenos gestos como prova suficiente de amor. Aprendem a sustentar o trabalho afetivo de relações inteiras e a chamar de vínculo aquilo que, algumas vezes, é apenas fome.

Valeska Zanello chama de dispositivo amoroso a trama de discursos, afetos e expectativas que forma mulheres para se realizarem por meio do amor. Trata-se de uma pedagogia que nos ensina a investir, cuidar, esperar, compreender, reparar. Em diálogo com Michel Foucault (1926-1984), Zanello mostra que esses dispositivos organizam formas de sentir e de se tornar sujeito. Enquanto muitas mulheres são interpeladas a transformar cuidado em prova de valor, muitos homens são formados por uma masculinidade que encontra reconhecimento no desempenho, na conquista e na validação externa.

Essa pedagogia também produz o que Zanello chama de prateleira do amor. Nela, mulheres são distribuídas e avaliadas conforme raça, idade, corpo, classe, aparência e proximidade com um ideal de feminilidade. Algumas são reconhecidas como parceiras possíveis, outras são erotizadas, preteridas ou mantidas na borda da escolha. A crueldade desse dispositivo está em transformar o desejo de ser amada em medida de valor pessoal e em fazer mulheres competirem por reconhecimento dentro de uma hierarquia que jamais criaram.

É importante dizer que essa crítica não transforma homens em monstros abstratos e mulheres em seres naturalmente mais amorosos. Ela pergunta o que uma cultura faz com nossos desejos. Foucault escreveu que o neoliberalismo produz sujeitos empresários de si mesmos. Corpo, tempo, aparência, redes, desejo e reputação passam a ser administrados como capital. Busca se ampliar oportunidades, reduzir riscos, preservar opções e converter cada experiência em alguma forma de rendimento.

Foucault não escreveu sobre aplicativos de relacionamento, situationships ou homens que chamam de liberdade a própria indisponibilidade. Ainda assim, sua reflexão oferece uma chave para compreender como a forma mercado ultrapassou a fábrica e alcançou os afetos. Pessoas se tornam possibilidades. Relações se tornam experiências. Corpos se tornam capital. Afetos se tornam investimento. Parceiros se tornam escolhas dentro de um mercado aparentemente infinito.

Deslizamos. Escolhemos. Consumimos. Descartamos. Substituímos. E continuamos procurando.

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Quando essa lógica se encontra com formas patriarcais de masculinidade, o resultado pode ser ainda mais desigual. Homens que acumulam dinheiro, prestígio, circulação ou poder social encontram no acesso a muitas mulheres uma confirmação de valor. Mulheres podem se tornar signos de desejabilidade, ornamentos de uma vida bem-sucedida, figuras intercambiáveis de uma narrativa de conquista.

Mesmo em ambientes que se anunciam libertários, esse acúmulo encontra nomes mais gentis. Fala-se em conhecer pessoas, viver experiências, manter a mente aberta. Mas essa linguagem pode encobrir relações em que mulheres são reduzidas a experiências, companhias de ocasião, ornamentos da vida bem-sucedida de alguém ou corpos disponíveis para uma temporada. A abertura relacional não produz liberdade por si só. Quando reiteram uma desigualdade em que alguns homens acumulam acesso, enquanto mulheres oferecem presença, cuidado e corpo sem pleno reconhecimento de sua humanidade, elas apenas dão à lógica da conquista uma gramática mais moderna.

Há uma defesa recorrente nessas situações; a de que bastaria informar condições e limites para que tudo se tornasse eticamente resolvido. Mas uma lista de avisos não mede a ética do encontro. Ela não responde pelo que uma relação produz na vida de alguém, pelas assimetrias que sustenta ou pela disposição de escutar a ferida quando a relação produz dor.

Quando uma mulher deixa de ser vista como alguém cuja história importa e passa a funcionar como experiência a ser acumulada, a linguagem da liberdade encobre a velha lógica da conquista. O descarte, então, aparece como custo normal de uma aventura.

Ailton Krenak nos lembra que a vida não é útil. Em uma cultura que transforma tudo em networking, até as amizades correm o risco de ser calculadas por acesso, prestígio e oportunidade. A outra pessoa deixa de ser um mundo e vira contato, companhia, ponte, ornamento ou capital afetivo. Se a vida não é útil, nenhuma mulher deveria ser. Nem para validar um homem, distrair uma solidão ou cuidar do que ele próprio evita cuidar.

Immanuel Kant (1724-1804) talvez ofereça uma formulação ética simples e radical para esse impasse. Em sua formulação do imperativo categórico, ele propõe que a humanidade, em nós e nos outros, seja sempre tratada como fim, jamais apenas como meio. Essa ideia pede algo mais básico. Que ninguém seja reduzido a instrumento de satisfação, decoração de prestígio, companhia provisória, degrau social ou reserva de cuidado emocional.

Talvez seja essa a diferença entre liberdade e consumo. A liberdade reconhece que o outro possui desejo, tempo, história, limites e mundo próprio. O consumo se interessa pelo que o outro pode oferecer enquanto satisfaz uma necessidade, confirma um ego ou compõe uma imagem de sucesso.

Em algum momento, rompi o celibato. Mesmo tendo sido honesta sobre as razões que me haviam levado a ele, voltei a esbarrar em algumas das mesmas amarras. Depois de séculos lutando para escapar de estruturas que transformavam mulheres em propriedade, precisamos ter coragem intelectual para perguntar se algumas concepções contemporâneas de liberdade estão calcadas na promessa liberal de que indivíduos formalmente livres seriam também iguais.

O capitalismo chama essa ordem de liberdade, embora ela conviva com a concentração de riqueza, a fome e a distribuição brutalmente desigual de poder. Quando essa gramática chega aos afetos, ela também apaga as condições materiais do encontro: gênero, raça, classe, dinheiro, prestígio, tempo e segurança. Alguns acumulam acesso; outras oferecem corpo, cuidado e disponibilidade. Existe diferença entre autonomia e indisponibilidade para o encontro. Existe diferença entre escolher e consumir. Existe diferença entre amar e tratar muitas pessoas como objetos substituíveis.

Foi por isso que a história de minha tia voltou para mim hoje. Ela não me ensinou que amar alguém significa desaparecer dentro dessa pessoa. Ela não me ensinou que amar é aceitar violência. Ela não me ensinou que permanecer é sempre uma virtude. Ela me ensinou algo mais radical. Amor também pode ser exercício de liberdade.

Duas pessoas podem olhar para uma realidade que parece já determinada e dizer que construirão algo bonito. E construir.

Esse é o oposto do amor como consumo. Ninguém aparece como capital do outro. Ninguém funciona como ornamento. Ninguém precisa diminuir para que o outro pareça maior. Há responsabilidade compartilhada, reconhecimento e a coragem de fazer do encontro uma força que amplia a vida de ambos.

Hoje, continuo pensando naquela mulher muito jovem que olhou para um homem servindo cafezinho, quando quase ninguém parecia acreditar nele, segurou sua mão e decidiu acreditar. Mais de cinquenta anos depois, parte do mundo que eles construíram continua aqui. Nós somos parte dele. Seu legado enquanto ela se tornou nossa ancestral.

Talvez essa seja uma das formas mais bonitas de compreender o amor. Duas pessoas se encontram por acaso e, juntas, deixam no mundo alguma coisa que não existiria se elas nunca tivessem se encontrado. Não a promessa infantil de que alguém virá nos salvar. Não a obrigação de permanecer. Não a propriedade sobre o corpo do outro.

A possibilidade extraordinária de encontrar alguém diante de quem ninguém precise desaparecer.

E, enquanto procuramos homens que amam, talvez também precisemos perguntar que formas de liberdade estamos dispostas a defender. Aquelas que ampliam o mundo de todos ou aquelas que apenas autorizam alguns a atravessar a vida dos outros sem deixar nada além de ausência.

*Texto publicado originalmente no Mídia Ninja

Foto de capa: John William Waterhouse, Echo and Narcissus, 1903. Walker Art Gallery. Domínio público.

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