Crítica: Paulo Miklos se equilibra entre respeito e mudança em disco de covers

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Crítica: Paulo Miklos se equilibra entre respeito e mudança em disco de covers


Existem basicamente duas maneiras de se gravar um disco de covers. A primeira é dedicar um álbum ao repertório de um determinado artista, o manjado “fulano canta beltrano”, ou então criar um conceito, como escolher canções da bossa nova ou outro gênero, resgatar a música de uma determinada época ou até fazer um recorte geográfico. Por exemplo, o samba do Recôncavo baiano.

A outra maneira é o oposto dessa construção cerebral. É simplesmente entrar no estúdio e puxar pela memória afetiva canções que o artista adora, sem justificativas históricas ou estilísticas. E não é preciso perguntar qual é a escolha de Paulo Miklos. Seu novo trabalho, “Coisas da Vida”, é uma seleção carinhosa e bem variada de gêneros, artistas e épocas. O único critério parece ser música boa.

Só mesmo a predileção pessoal para unir um repertório de vai tranquilamente do Clube da Esquina mineiro ao som periférico de São Paulo, de um hino romântico sertanejo a um rock legitimamente contestador de Cazuza. E Miklos consegue essa proeza construindo uma moldura sonora que dá uma inquestionável unidade a um punhado de estilos diferentes.

Impossível falar em busca por identidade sem incluir na discussão os videoclipes produzidos para as 11 faixas do álbum. Disponíveis no YouTube, mostram elementos visuais recorrentes. Em muitos, Miklos apresenta as canções em botecos, numa homenagem à boêmia. Trocas de olhares de simpatia entre o cantor e os figurantes também formam um recurso narrativo.

São imagens que reforçam a ideia de um disco “pra cima”, divertido. Mas há dois tipos de registro visual. Esse clima de amigos em mesas de bar serve para muitas faixas, mas, quando a ideia é resgatar “O Tempo Não Para”, rock furioso de Cazuza, Miklos aparece de guitarra nas mãos e pose agressiva.

O cantor abre espaço para algumas brincadeiras, como colocar em oposição duas caras muito diferentes da cidade de São Paulo. Faz muito sentido ele cantar “Saudosa Maloca”, de Adoniran Barbosa, já que Miklos interpretou o sambista paulistano na cinebiografia que leva o nome dessa música. Mas o contraponto dessa canção de exaltação nostálgica vem com a atualidade desesperançada de “Não Existe Amor em SP”, hino recente de Criolo. E as músicas conversam entre si.

“Coisas da Vida”, que é o nome de uma canção de Rita Lee que também foi gravada no álbum, é um disco que consegue se equilibrar entre respeito e transformação. “O Sal da Terra”, de Beto Guedes e Ronaldo Bastos, ganha uma versão fiel à original, mas Miklos faz diferença com uma voz muito mais poderosa do que as dos muitos mineiros que gravaram a canção.

Ao lado da versão bem palatável ao grande público de “Quero Voltar para a Bahia”, de Paulo Diniz, famosa pelos versos “I don’t want to stay here / I wanna to go back to Bahia”, o disco tem complexidades perenes que ainda causam estranheza, como “Cachorro Babucho”, exemplo da influência modernista no trabalho de Walter Franco.

Há também clara diversidade de popularidade no repertório. Pouca gente se lembra de “Mestre Jonas”, rock rural de Sá, Rodrix e Guarabira, mas todo mundo canta com Miklos a onipresente “Evidências”, de Chitãozinho e Xororó. Aqui ele tem o desafio de soar diferente de tantas regravações. E consegue imprimir personalidade à música.

Mas talvez a faixa que melhor representa esse projeto seja “Xibom Bombom”. Ao retomar esse axé de tremendo sucesso do grupo baiano As Meninas, Miklos alcança uma mudança radical. Sem a batida dançante um tanto plastificada da versão original, o cantor consegue mostrar a força de uma letra que estava perdida em um hit radiofônico.

“Analisando essa cadeia hereditária / quero me livrar dessa situação precária / onde o rico cada vez fica mais rico / e o pobre cada vez fica mais pobre” são versos que se desgrudam do axé dos anos 1990 para soarem como uma canção mais politizada, como outras gravadas 20 anos antes. É curioso Miklos conseguir modernizar a canção recorrendo a uma talvez inconsciente volta ao passado.

Quando levar esse disco aos palcos, Miklos certamente terá em mãos um repertório de muita aderência em plateias heterogêneas. Cada um deve ter suas favoritas nesse grupo de canções que o cantor consegue misturar sem heresias musicais, mas também sem ficar preso excessivamente aos originais. Na verdade, algo que um bom disco de covers deve sempre seguir.



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