O livro-reportagem ‘Cidade Rachada’, de Cristina Serra, é um desenho de quase 40 anos de descaso com a mineração em Maceió (AL), cidade que sofre com o afundamento de cinco bairros e cerca de 14,5 imóveis esvaziados, dos quais a maioria já foi demolida.
A autora fez entrevistas com mais de cem pessoas e conseguiu mapear a raiz do problema de forma didática, apontando violências sofridas pela população do município.
A exploração da sal-gema, atividade da Braskem responsável pelo maior desastre ambiental em área urbana do país, fez com que mais de 40 mil pessoas fossem realocadas desde 3 de março de 2018, após um tremor de terra que abriu crateras e rachaduras em ruas e imóveis do bairro do Pinheiro.
Depois, Bebedouro, Mutange, Bom Parto e parte do Farol também foram afetados. O livro conta que as rachaduras nas casas teriam surgido anos antes, com moradores sem entender por que aquilo acontecia. Para não desvalorizarem os imóveis, faziam manutenção por conta própria e evitavam falar sobre o assunto.
Foram pouco mais de quatro décadas de exploração. Em 1976, a empresa Salgema foi fundada. Ela se tornaria Trikem em 1997 e, em 2002, Braskem. As jazidas foram descobertas por volta de 1940.
As perfurações para exploração, já naquela época, começaram em área urbana e habitada, com casas, escolas, hospitais e comércios nas proximidades. Havia também às margens e na própria lagoa Mundaú, que é uma área de manguezal.
A fábrica de clorossoda também fora instalada no Pontal da Barra, que até hoje é uma área com habitantes, mas agora parcialmente isolada do restante da cidade por medo da população.
Conforme Serra estabelece, sempre houve avisos de que a exploração e instalação da fábrica em área urbana poderia trazer problemas para a população. Havia, inclusive, quem apontava que uma das possibilidades era justamente a subsidência do solo —ou seja, o afundamento.
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Apesar disso, por ser do interesse dos governos estaduais e da ditadura militar então vigente, esses problemas eram ignorados, afirma o livro.
Em 1983, por exemplo, foi formada uma comissão para analisar as duas questões. Ainda assim, não houve recomendação para mudanças. Em relação à mineração, dizia-se que a Salgema deveria comprar mais terrenos na superfície das minas para que não se perfurasse poços próximos uns aos outros. A Braskem tinha 35 minas em Maceió.
Serra conseguiu um histórico de acidentes na fábrica de clorossoda, um deles registrado pela Folha em 2011.
Os relatos dos personagens afetados pela mineração e saídas de suas casas são semelhantes. Como os bairros tinham populações que viviam neles por muitos anos, a maioria eram pessoas que guardavam em casas as histórias das famílias ou sonhos de uma aposentadoria tranquila.
O livro trata ainda do problema da saúde mental enfrentado por essa população.
Os casos de suicídio pouco são citados, mas existem e surgem até em forma de protesto —o primeiro capítulo é justamente de um policial civil que decide se matar em frente à casa a que passou a vida se dedicando.
A exploração das minas foi interrompida em 2019, e a empresa se comprometeu a fechar todas elas a fim de garantir maior estabilidade à região.
No início deste ano, a Defensoria Pública de Alagoas ingressou com uma ação para impedir que a Braskem se considere dona da área, já que eram feitos acordos de compra e venda com os moradores, que tinham de transferir a posse dos imóveis.













