Opinião – Tom Farias: A crioulização de Mário Lúcio Sousa e a identidade cultural do Brasil

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Opinião – Tom Farias: A crioulização de Mário Lúcio Sousa e a identidade cultural do Brasil


Durante a última Copa do Mundo —que para nós foi o Mundial da eliminação—, mergulhei em uma leitura que dialoga profundamente com o ótimo desempenho recente da seleção de Cabo Verde. Falo de “Manifesto a Crioulização” (Solisluna Editora), de Mário Lúcio Sousa, intelectual cabo-verdiano que mantém laços históricos e afetivos com o Brasil.

Nascido em Tarrafal, na Ilha de Santiago, Mário Lúcio é músico, escritor e diplomata. Atuou no parlamento e foi ministro da Cultura de seu país entre 2011 e 2016. Seu livro-manifesto é uma obra de 70 páginas, mas altamente profunda, do ponto de vista conceitual e humano.

A força da obra está exatamente no poder da linguagem. O autor, que transita com naturalidade pela língua portuguesa falada tanto no território brasileiro quanto no africano, propõe neste ensaio “a crioulização como um novo paradigma antropológico e ético para a humanidade”.

Trata-se de uma dimensão focada na superação de barreiras geográficas, raciais e culturais, transformando o idioma em uma fronteira a ser ultrapassada.

Mário Lúcio divide esse processo em três estágios: o da “diferença”, o da “indiferença” e, finalmente, o da “in-dife-rença”. Em todos eles, a crioulização atua como uma ferramenta potente no combate à discriminação e, fundamentalmente, contra o uso político e metafórico do próprio termo “raça”.

Em Cabo Verde, inclusive, a palavra “raça” ganha um significado acolhedor: quer dizer família. É comum perguntar a alguém qual é a sua raça para saber de onde ela vem, quem são as suas gentes e a que lar pertence. O ensaio sugere que o valor de uma nação não se mede por seu gigantismo econômico ou poderio bélico, mas por sua riqueza cultural, enquanto “processo de afirmação e identidade dos povos”, como anota André Augustus Diasz, na orelha do livro.

Aqui em São Paulo, em uma tarde de maio, tive o privilégio de ouvir Mário Lúcio pessoalmente na Virada Literária da Biblioteca Mário de Andrade. Nossa conversa girou sobre o tema “Ritmos e Memórias do Atlântico”. Ouvi-lo, com a generosidade típica dos grandes sábios, foi como fazer uma viagem guiada por sua paixão pela cultura e por suas origens.

Escutei cada palavra atentamente, como o menino que se apresenta no seu primeiro dia de aula. Ele define bem quando diz que “a aceitação do outro constitui o primeiro sinal de crioulização”. Em linhas gerais, Mário Lúcio nos mostra que o futuro da humanidade depende, necessariamente, da nossa capacidade de nos crioulizar.

Gilberto Gil, amigo fraterno, em lindo texto-prefácio, refunda tudo o que passamos a entender de Mário Lúcio e seu filosófico conceito.

“O Manifesto foi escrito como sugestão à criação de novos territórios para experimentos com a transnacionalidade, novos cultivos com a transracialidade, novos ajustes para a transculturalidade e novos plantios para a transespiritualidade. Foi escrito para assegurar que sigamos vivos.”

Por fim, a grande mensagem que o autor ratifica é a de que, por nossas características históricas, onde a mistura e a intersecção são as verdadeiras bases da identidade humana, “somos todos crioulos”, seja no Brasil, seja em Cabo Verde.


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